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Quem foi a rainha belga que originou o nome de avenida que liga Copacabana e Ipanema

Visita da monarca ao Rio de Janeiro em 1920 rendeu episódios instigantes

Luciene Carris, historiadora (UERJ) Publicado em 18/12/2021, às 09h00

Elisabeth da Baviera, Rainha da Bélgica
Elisabeth da Baviera, Rainha da Bélgica - Wikimedia Commons, Domínio Público

Histórias de reis e de rainhas fascinam as pessoas até os dias atuais. Aliás, isto se inicia na infância a partir da leitura de contos de fadas, depois com as novelas, os seriados e os filmes, que contribuem para alimentar um imaginário popular sobre o cotidiano da realeza. Os atos e os rituais são vistos como verdadeiros espetáculos pela maior parte da população. Assim, nascimentos, casamentos, batizados, ações de caridades e viagens são acompanhados atentamente pela mídia.

O Brasil recebeu a única visita da rainha Elizabeth II e de seu esposo príncipe Philip, o Duque de Edimburgo, em 1968. A viagem de onze dias se inseria no programa de integração econômica com os países da América Latina promovido pelo governo britânico, que incluiu cidades como Brasília, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro.

A rainha Elizabeth II /Crédito: Getty Images

 

Cada detalhe do passeio oficial foi noticiado pelos veículos de comunicação da época, e foi registrada para um documentário sobre a soberana para a rede de televisão BBC. O país atravessava um período conturbado marcado por uma grave tensão política desde 1964, quando foi estabelecida a ditadura civil-militar.

Vale relembrar que décadas antes, em 1920, o Brasil recebeu uma família real. Tratava-se do rei Alberto I da Bélgica, de sua esposa, Elisabeth da Baviera, Rainha da Bélgica e do seu filho, príncipe Leopoldo, futuro rei Leopoldo III.

A sua estadia de seis semanas recebeu atenção da imprensa, afinal era a primeira visita de um Chefe de Estado europeu ao país, evidentemente, depois dos Braganças que fugiram para o Brasil em 1808, por ocasião da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte. O rei Alberto era sobrinho do rei Leopoldo II cuja reputação foi maculada depois das atrocidades ocorridas no Congo Belga na África.

Mas o rei Alberto trilhou um caminho diferente do seu tio. Ficou conhecido como “rei herói” ou “rei soldado”, pois participou ativamente do campo de batalha ao lado de suas tropas resistindo às tropas alemães durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A rainha ao lado de seu marido, Alberto I da Bélgica /Crédito: Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Além disso, a sua esposa atuou como enfermeira durante o conflito. Os reis belgas visitaram Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, e com intuito de estreitar as relações comerciais foi fundada a Companhia Belga Mineira.

Alguns equívocos

Contudo, encontramos alguns equívocos em alguns registros sobre as duas visitas reais ao Rio de Janeiro. A confusão ocorre devido aos nomes das soberanas. Elis, a rainha que visitou o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Floresta da Tijuca, a Escola Nacional de Belas Artes, o Instituto Oswaldo Cruz e o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, além de inaugurar a Avenida Niemeyer, foi a belga.

Assim, como seu marido, o rei Alberto, a soberana cultivava o gosto pelo banho de mar na praia de Copacabana, quando este ainda não era popularizado. Mas não se atreveu a escalar o Pico da Tijuca com seu marido, o rei era um notório alpinista.

O nome da avenida que liga Copacabana e Ipanema é uma homenagem a rainha da Bélgica. E, na esquina da rua Conselheiro Lafaiete encontra-se um busto em bronze do rei Alberto I. O rei Alberto I, coroado em 1909, faleceu em 1934 aos 58 anos de idade, e rainha, aos 89 anos, em 1965.

Várias recepções 

Por sua vez, no Rio de Janeiro, a rainha da Grã-Bretanha participou de várias recepções em sua homenagem e visitou pontos turísticos como o Outeiro da Glória, o Mirante Dona Marta, a praia de Botafogo e o Memorial do Soldado Desconhecido no Aterro do Flamengo. Assistiu a um jogo de futebol no estádio Maracanã e entregou uma taça ao jogador Pelé. Além disso, realizou um passeio em um carro aberto na Avenida Atlântica, e, ainda, participou da inauguração simbólica da construção da Ponte Rio-Niterói na Ponta do Caju.

Há 70 anos, a rainha Elizabeth II, atualmente com 95 anos de idade e viúva, segue no poder de maneira discreta com o reinado considerado como o mais longo da Inglaterra. A sua popularidade se confirma, quando uma pesquisa, realizada em 2021 pela empresa YouGov, revelou que a rainha Elizabeth II foi considerada a personalidade mais popular da Família Real Britânica, é um símbolo da identidade nacional reconhecida em qualquer canto do globo.


Autora de “Histórias do Jardim Botânico: Um recanto proletário na zona sul carioca” (Ed. Telha), a doutora em História pela UERJ Luciene Carris relembra histórias curiosas na ilustre obra. 

“Sou moradora do Jardim Botânico há quase 40 anos. Por coincidência estudei História na UERJ e tive a oportunidade de realizar um estágio pós-doutoral com o professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues, especialista na história do Rio de Janeiro. Daí surgiu a oportunidade única de estudar a história do meu bairro e, posteriormente, escrever sobre ele", diz a escritora.

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