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Quem foram os primeiros ateus?

A origem do desenvolvimento dessa descrença ainda é tabu, mas possui registros históricos

Alexandre Carvalho Publicado em 31/10/2021, às 09h21

Trecho da obra "A Criação de Adão" de Michelangelo
Trecho da obra "A Criação de Adão" de Michelangelo - Wikimedia Commons / Domínio Público

Ok, Deus nunca foi muito popular entre cientistas. Uma pesquisa de 1998, publicada na
revista Nature, revelou que 72,2% dos físicos e biólogos ligados à Academia Nacional de Ciências, dos Estados Unidos, não acreditavam na existência dEle. E boa parte dos filósofos também não é fã da ideia de um Todo-Poderoso criador do céu e da Terra.

Em 2013, uma pesquisa que ouviu mil membros de departamentos de Filosofia em faculdades americanas, canadenses, europeias e australianas concluiu que 72,8% deles se consideravam ateus. Uma admissão que se assemelha mais a uma confissão de culpa num mundo dominado pelos crentes.

Um levantamento de 2017, publicado em The Oxford Handbook of Atheism, constatou que só 7% da população mundial é de indivíduos que se dizem ateus (que negam a existência de Deus) ou agnósticos (que acham impossível saber se Ele existe). Todos os outros 93% acreditam em uma força sobrenatural superior.

Sim, os incréus são minoria. E, como outras minorias, sofrem preconceito. “Há uma conotação negativa relativa à descrença. Todos os termos utilizados para designá-la são formados por um prefixo privativo ou negativo: a-teísmo, des-crença, a-gnosticismo, in-diferença”, aponta o historiador francês Georges Minois. “Muitos descrentes convictos ainda hesitam em se proclamar ateus. O termo não é neutro e dele ainda exala um vago odor de fogueira.”

Dependendo do período histórico e do lugar, assumir a descrença no Deus vigente poderia ser considerado crime hediondo. E nem é preciso voltar aos tempos da Santa Inquisição. Segundo um relatório do Parlamento Europeu de 2017, pessoas não religiosas estão submetidas a “discriminação severa” em 85 países do mundo. Em algumas situações, osdescrentes estão mais malvistos que outras minorias tradicionalmente perseguidas.

Uma pesquisa de 2007 encomendada pela CNT/Sensus mostrou que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente, 57% em uma mulher, 32% em um homossexual, mas só 13% dariam o cargo a um ateu. Não é à toa que políticos fogem do tema como o Diabo da cruz.

Em novembro de 1985, num debate na TV entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, até então favoritíssimo a conquistar o mandato, hesitou diante de uma pergunta capciosa do jornalista Boris Casoy: “O senhor acredita em Deus?".

FHC reclamou ao vivo da pergunta, disse que era uma armadilha, porque o povo brasileiro é muito religioso. Afirmou que era uma questão de foro íntimo e, para não responder com todas as letras que, não, não acreditava, improvisou esta fala: “Respeito a religião do povo e, na medida em que respeito as várias religiões do povo, estou, automaticamente, abrindo uma chance para a crença em Deus”.

Não colou, claro. E Fernando Henrique Cardoso, que já vinha sendo acusado pelo
adversário, Jânio Quadros, de ser “ateu e maconheiro” (daí a pergunta de Casoy), perdeu
uma eleição que considerava ganha. O preconceito contra ateus não é de hoje. E ele não surgiu com a descrença em nenhum dos deuses das grandes religiões monoteístas. Porque o ateísmo é mais antigo que essas religiões.

Cerca de 2.500 antes de Cristo, sábios indianos já haviam proclamado que “o céu é vazio”. E também esses pensadores são mais recentes que a falta de fé em Deus – porque ela nasceu junto da primeira noção de pensamento religioso, nos mais primitivos entre nossos ancestrais.

Consciência mítica

No princípio, era o mito. Grande parte dos etnólogos defende a tese de que a mentalidade do homem pré-histórico não sabia separar o natural do sobrenatural. Para ele, tudo seria comum e sagrado ao mesmo tempo. Não apenas outros seres humanos e animais, mas tudo que estivesse no cenário do seu entorno teria “intenções” a nosso respeito.

Esses brucutus não racionalizavam se uma pedra ou uma árvore, ou um raio, poderia ter qualquer santidade. Mas associavam poderes metafísicos aesses elementos. Sabe quando o cachorro começa a latir para uma bola porque ela bateu naparede e voltou em sua direção, como se fosse por vontade dela? Essa era a realidade mítica em que viviam nossos avós mais distantes.

Mas o que isso tem a ver com o ateísmo? Tudo. Porque essa percepção teria gerado duas
ideias na mente ainda pobre de raciocínio do humano primitivo. Levando em consideração que ele acreditava que esses objetos e fenôme nos da natureza tinham poder, seu medo podia percebê-los da seguinte maneira: se esse poder era atribuído ao próprio objeto (a controvérsia: há autores que apontam a morte, outrosfalam em ostracismo (exílio) ou prisão.

Mas por que um estado de tolerância religiosa mudou assim, tão radicalmente, no berço da democracia? A ideia do decreto persecutório veio de Diopites, que ganhava a vida
como adivinho. Qualquer especulação filosófica que inspirasse a descrença nas divindades era mau negócio para quem vivia de interpretar as intenções dos deuses.

O crime de impiedade foi uma lei que pegou mesmo na Grécia Antiga. A sociedade
seria protegida pelos deuses, e a falta de fé neles colocava essa proteção em risco – ameaçando toda a comunidade. Fazer uma série de rituais de adoração era, portanto, um ato de cidadania – e desdenhar dos compromissos com os deuses equivalia a se assumir como inimigo do Estado.

Império da razão

Apesar de ter mais movimentos céticos do que se imagina, a Idade Média fez jus à reputação de período no qual a devoção estava sempre em primeiro lugar nos valores da sociedade. Uma época terrível para os ateus – tementes aos tribunais eclesiásticos.
O progresso do conhecimento científico, no entanto, levou a Europa a um período que
buscaria o avesso da transcendência medieval.

O Iluminismo foi um movimento multifacetado que, entre os séculos 17 e 18, promoveu
mudanças sociais, políticas e econômicas com uma bússola muito diferente da que antes se guiava pelo divino. O caminho dos iluministas sempre procurava enaltecer a razão em
detrimento do pensamento religioso. Não era um movimento ateu, mas o ateísmo encontrou mais espaço e liberdade num ambiente aberto à indagação.

Seu precursor, o filósofo francês René Descartes, afirmou em seu clássico Discurso do Método que tudo poderia – e deveria – ser questionado. “O espetáculo do
mundo nos oferece frequentemente cenas de violência e intolerância, nascidas de preconceitos que querem se impor pela força, na ausência de questionamentos e, sobretudo, do exercício da razão.

”Era uma punhalada no peito de uma Igreja que sobrevive, em grande parte até hoje, à base de dogmas. Aos ensinamentos impostos pela religião, os iluministas responderam com o nascimento da Enciclopédia – ou Dicionário Racional das Ciências, Artes e Profissões, a monumental obra editada por outro francês, Denis Diderot.

Seus 35 volumes continham mais de 71 mil artigos de cientistas, filósofos e pesquisadores. Além de um compêndio das tecnologias do período, era um conjunto elaborado com o intuito de destruir superstições, promovendo a secularização da aprendizagem. Nessa odisseia do conhecimento fora dos vitrais das igrejas, o Iluminismo defendeu a livre escolha de crença pelos indivíduos – incluindo a escolha de não seguir fé nenhuma.

O padre ateu

Teve ainda grande impacto naquele século 18 o escandaloso manifesto do abade Jean Meslier. Morto em 1729, ele deixou como “herança” três imensos manuscritos destinados aos padres da vizinhança. E o conteúdo não podia ser mais surpreendente. Após meio século ministrando os sacramentos aos fiéis locais, Jean Meslier confessou que era ateu – e estimulou seus colegas a refletir e abandonar a propaganda de algo tão real quanto o coelhinho da Páscoa.

“Asseguro que, caso sigais a clareza natural de vosso espírito, vereis que todas as religiões do mundo não passam de invenções humanas, e que tudo que vossa religião vos ensina, e vos obriga a crer, como sobrenatural e divino, é no fundo erro, mentira, ilusão e impostura”.

É dos escritos desse abade uma frase que se tornaria famosa em seu extremismo anticlerical: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Apesar de as autoridades locais fazerem de tudo para abafar esse tratado filosófico do ateísmo, assumidamente influenciado pelas ideias do iluminista Descartes, elas não tiveram o zelo de incendiar aqueles papéis escritos com pluma de ganso.

Cinco anos após a morte de Meslier, já havia cópias de sua obra-testamento circulando em Paris. E de lá se disseminaram por toda a Europa, influenciando pensadores e
gente da alta nobreza. Chegaria, inclusive, à União Soviética já do século 20, onde fez sucesso. Ideólogos marxistas identificaram um forte parentesco entre o ateísmo do padre e o de Karl Marx, o inspirador do comunismo.

Pais do ateísmo moderno

Segundo Marx, o ser humano é aquele que produz (Homo faber) o que é necessário para
suprir suas necessidades, gerando assim seu bem-estar. Mas, como os boletos muitas vezes ganham a corrida contra essa nossa capacidade de produzir, as pessoas também criaram uma ilusão metafísica chamada Deus para nos acolher nos momentos de dificuldade – e para nos dar uma recompensa futura com bens celestiais na vida eterna.

Para Karl Marx, a religião é uma alienação – um ópio para amenizar o sofrimento do povo. Entre os séculos 19 e 20, o ateísmo encontrou novos espaços de expressão graças a pensadores revolucionários como Marx, que mudaram a forma como nos relacionamos com a realidade. Os outros foram o alemão Friedrich Nietzsche, o britânico Charles Darwin e o austríaco Sigmund Freud.

Nietzsche – sempre lembrado por ter anunciado que “Deus está morto” – afirmou que o pensamento religioso é uma invenção do próprio homem para conseguir lidar com seu  sentimento de indiferença em meio ao Universo – uma constatação que a ciência trouxe ao revelar que a Terra é menor que a cabeça de um alfinete se comparada com a vastidão do cosmos.

O filósofo criticava, no pensamento cristão, derivado dos escritos de Platão, a ideia de que vivemos numa realidade apenas aparente, havendo um outro mundo “real” mais importante, como o Paraíso. Para ele, só o que existe é este mundo físico em que habitamos, e a fé religiosa nos impede de aproveitá-lo.

Nietzsche se considerava um “imoralista”, não porque pregasse a falta de moral, mas porque deveríamos superar toda a moral que tem a religião como fonte. Assim, colocou em xeque as noções do bem e do mal, do que é certo e errado.

O filósofo alemão foi muito influenciado por Charles Darwin, o naturalista que golpeou a ideia de um Deus artesão de tudo (a teoria criacionista do design inteligente) ao provar, cientificamente, que as criaturas que encontramos hoje na Terra – incluindo o próprio ser humano – são fruto de uma seleção natural imposta pela evolução.

Suas descobertas sobre a origem das espécies criaram um esvaziamento na concepção religiosa da criação do mundo. Já Freud deixou explícito seu ateísmo ao tratar das origens e da função da religião na sua obra O Futuro de uma Ilusão. Para o inventor da psicanálise, nosso inconsciente engendrou Deus como um pai onipotente que nos dá segurança, em contraponto ao nosso pai biológico imperfeito, incapaz de nos salvar dos perigos da vida – e da própria morte.

Freud via três grandes males derivados da religião: 1) o de nos manter num estado de imaturidade psicológica, na qual não buscamos com afinco a superação de nossas dificuldades porque “Deus há de prover”; 2) o de promover um mundo de ilusão no qual projetamos nossos desejos; 3) o pensamento religioso ser essencialmente, na perspectiva freudiana, uma doença mental, uma neurose.

Crença e indiferença

Freud achava que a sociedade rumava para o fim da religião – e que o conhecimento proporcionado pela psicanálise contribuiria para isso. Bom, essa visão não se confirmou. Em pleno século 21, quando sabemos que somos formados por uma quantidade incontável de células e que uma pequena alteração no nosso DNA pode nos adoecer ou mudar uma característica da personalidade, o mundo ainda tem uma prevalência de crentes em Deus (como confirmam as porcentagens mencionadas no início deste texto).

Mas alguma coisa mudou. As transformações culturais do Iluminismo e a influência
de gente como Marx, Nietzsche, Darwin e Freud revolucionaram a forma como a população lida com o pensamento religioso. Se pouca gente abraça o ateísmo abertamente, a postura secularizada das sociedades desenvolvidas (não estamos usando o Talibã como referência, claro) gerou uma indiferença à questão de se Deus existe ou não.

Quanta gente você conhece que diz ter uma fé, mas que “não é praticante”? Pesquisas demonstram que, embora a maioria declare acreditar em Deus, para muitos essa crença é puramente abstrata e não tem nenhuma influência em seu comportamento do dia a dia. O filósofo Leandro Karnal, em seu canal do YouTube, explica que, mais jovem, foi um
religioso fervoroso, chegando a estudar para ser padre, até que suas percepções acabaram levando-o ao ateísmo.

“Eu não sei como, de um grupo de moléculas, surgiu a vida na Terra, mas eu não sei a origem de quase tudo. Só que me pareceu infantil começar a aplicar essa origem a uma entidade, um ser superior.” Ele não gosta, no entanto, de ser chamado de ateu. “Não gosto porque é uma negação. Seria como eu dizer que você é um ‘não italiano’, um ‘não hindu’. Me definir pela ausência que você sente é estranho. Hoje para mim o ateísmo é uma posição tranquila, como já foi tranquila a fé”, explica o filósofo.

“A única coisa essencial é o respeito à posição de todas as pessoas – de quem profundamente acredita, de quem não acredita, de quem é indiferente a acreditar ou não. O importante é ser ético. E aí não importa muito para quem a sua mente se volta.”