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Quem matou os Beatles?

Há 48 anos, meio acidentalmente, Paul McCartney anunciava o fim da banda. Por quê? O escritor britânico Ray Connoly, que estava lá, responde

terça 10 abril, 2018
O último concerto
O último concerto Foto:Apple Records / Reprodução

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John Lennon fez muitas coisas fantásticas na vida, mas a mais fantástica delas pode ter sido a destruição proposital dos Beatles, em 1969. Quem não achou nada fantástico foram os milhões de fãs inconsoláveis no mundo todo. Nem Paul McCartney, que, se sentindo abandonado, foi para a sua fazenda na Escócia e entrou em depressão profunda. Matando os Beatles antes de eles poderem nos decepcionar - o que invariavelmente teria ocorrido, com a música mudando de cara e os novos discos não agradando tanto quanto os que até hoje adoramos -, Lennon os congelou para sempre, no auge.

No momento da separação, eu era repórter do jornal London Evening Standard, incumbido de assuntos ligados ao rock. Hoje, jornalistas são mantidos longe das estrelas por legiões de assessores. Mas, na época, era diferente. E só após anos me dei conta do extraordinário acesso que tive aos Beatles desde 1967, com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band marcando o topo da carreira deles, até 1972, ano em que a dissolução da banda já tramitava na Suprema Corte inglesa.

A última performance pública da banda, no telhado da Apple Records Reprodução / Youtube

Eu estava nos estúdios de Abbey Road em outubro de 1968 para ouvir Yoko Ono contar sobre os casos que teve nos dois primeiros casamentos. Até o fim da noite, pude ouvir de quebra um show particular de McCartney ao piano, ensaiando uma nova música chamada Let It Be, e Lennon com o produtor George Martin, no fim do corredor, mixando Cry Baby Cry para o White Album.

Quase todas as conversas que tive nessa fase terminal e febril dos Beatles acabaram no meu pequeno gravador Sony. As fitas cassete seriam guardadas e esquecidas sem catalogação em uma velha caixa de mudança. E são nessas fitas, intocadas há décadas (algumas nunca ouvidas), que desencavei gravações que contestam a maneira com que se viu a relação entre Lennon e McCartney.

Discórdia

Em 1969, já corriam boatos da discórdia entre os Beatles, embora, na fachada, tudo parecesse bem. Até que, num dia de setembro, no QG da gravadora Apple, percebi que algo não ia nada bem. Houve uma reunião dos Beatles a portas fechadas que acabou em briga, seguida de muito sobe e desce de escada e ninguém dizendo do que se tratava.

Algumas semanas depois, recebi uma ligação de John, contando que tinha acabado de devolver seu título honorífico de Membro do Império Britânico à rainha, em um ato contra o apoio da Grã-Bretanha à Nigéria, que enfrentava uma guerra separatista do território de Biafra. Ele estava meio alterado, pensei ao redigir a matéria. Mas também agia de forma tão desconectada dos outros Beatles que, dois dias depois, escrevi a seguinte matéria: O Dia em que os Beatles Morreram.

No início da carreira Reprodução

Na época, tive medo de ter exagerado - para o resto do mundo, eles ainda estavam bem vivos. Mas, mal o artigo foi publicado, uma rosa branca envolta em celofane chegou à minha mesa: "Para Ray, com amor, de John e Yoko". Dali em diante, para cobrir assuntos relacionados aos Beatles, eu teria a melhor das fontes. E, pouco antes do Natal daquele ano, eu ouviria atônito (e com algum desespero) John, que me mandou uma passagem para encontrá-lo em Toronto, Canadá, festivo, revelando o segredo de como teria destruído a banda.

"Na reunião, Paul, chatíssimo, não parava de falar sobre o que faríamos. Então, no fim, eu disse: ‘Eu acho você maluco. Quero o divórcio’." Ele não planejou dizer isso, mas uma vez que disse (e embora estava certo que a notícia só fosse sair depois do lançamento de Let It Be, em maio), ele não voltou atrás. É claro que havia entrevistas com McCartney nas fitas também. Enquanto John se ocupava em demolir o templo sagrado que eram os Beatles, Paul acabou se recuperando do retrocesso e gravando um disco solo: McCartney.

Astuto em relação à publicidade, dessa vez, errou feio ao fazer uma declaração ambígua à imprensa no lançamento do disco, em 10 de abril de 1970, dando a entender que teria sido responsável pelo fim da banda. Manchetes o culparam mundo afora: "Como ele pôde?" Os fãs queriam saber. "Foi tudo um mal-entendido", ele me disse alguns dias depois. "Pensei: ‘Meu Deus, o que foi que fiz agora?’ E senti meu estômago revirar. Eu nunca quis que a declaração fosse entendida como: ‘Paul McCartney deixa os Beatles’." É irônico. O Beatle que mais queria que a banda continuasse, o maior dos fãs, foi culpado por sua dissolução.

"Por que não escreveu (a matéria) quando eu disse no Canadá?", John quis saber, ao perceber que Paul acabou ficando com a honra acidental e duvidosa de pôr fim à banda favorita de todo o mundo. Afinal, ele a havia começado. Nada mais justo que a terminasse também. "Você me pediu para não fazer isso", disse eu. Ele retrucou: "O jornalista aqui é você. Não eu".

Novos caminhos

Mas o que mais me impressiona, ouvindo as fitas, é o dom profético de John, o quanto ele estava antenado ao astral de mudança da época. Da mesma forma que soube instintivamente que músicas compor e que venenos destilar para conseguir manchetes, mesmo estando no epicentro do fenômeno, ele viu o fim chegar. "A coisa já tinha morrido para mim bem antes de toda a comoção", disse, em 1971. "Nós acreditávamos no mito Beatles tanto quanto o público. E éramos tão apaixonados quanto ele. Mas chegou o dia em que quatro pessoas decidiram recuperar sua individualidade depois de submersas em um mito. Sei que muita gente ficou chateada com o fim da banda, mas todo circo um dia acaba. Os Beatles eram um monumento que deveria mudar ou deixar de existir. No caso, ele deixou de existir. Na verdade, nosso melhor tempo veio antes do sucesso, quando tocávamos horas a fio em clubes. Meu número favorito era Baby Let’s Play House, do Elvis."

Durante quase todo aquele tempo, John se mostrou um iconoclasta. Era como se, uma vez tomada a decisão, ele quisesse acabar com o Beatle dentro dele da forma mais rápida e absurda possível. Ele não queria ser "um dos quatro deuses no palco". E, em vez disso, convidou a imprensa para a sua lua de mel, "em prol da paz mundial". Em seguida, sem se importar com o ridículo generalizado, apareceu nu com Yoko em um álbum de música eletrônica chamado Two Virgins, antes de ir atrás de uma nova polêmica com uma série de litografias eróticas protagonizadas por Yoko e, às vezes, ele próprio.Na época, Yoko foi publicamente culpada pelo fim dos Beatles. É certo que poderia ter feito sua parte com mais tato, mas ela só foi um de muitos catalisadores. E John, como percebi depois, era obcecado pela artista sensual e misteriosa, tão ou mais excêntrica que ele.

Capa do disco Two Virgins Reprodução

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O John Lennon que gravei era muito engraçado e, ironicamente, sempre se fazia de vítima de suas próprias histórias. "Você viu na Time que George (Harrison) é um filósofo? E há outro artigo que quero mandar para o Pseuds Corner (da revista Private Eye) - anonimamente, claro - falando como Paul é um grande músico. Um é filósofo, e o outro, um grande músico. E eu sou o quê?" "O doido?", sugiro. "É, eu sou o doido. Que se ferrem todos." Hoje, ele faria sucesso em shows de stand-up comedy, debochando de si mesmo.

Certa vez, contando sobre uma música favorita dele, You Can’t Do That, Lennon finge angústia e admite que ela virou lado B porque Can’t Buy Me Love, de McCartney, "era boa para caramba". Sim, ele competia com Paul e, quando a relação entre os dois foi para o saco, partiu para os insultos - fato exemplificado em verso de How Do You Sleep, no álbum Imagine: "Você devia ter aprendido algo nesses anos todos". Paul só conseguiu ficar ofendido e, meses depois, em Nova York, até John admitia arrependimento: "Fui duro com ele". Mas como sempre dizia: "Foram as palavras que saíram da minha boca naquela hora".

Na verdade, ele sempre soube que Paul era bom, mesmo sem gostar de tudo o que ele fazia. "Só convidei duas pessoas para trabalhar comigo na vida", gabou-se ele de suas qualidades de caça-talentos. "Uma foi Paul McCartney, e a outra, Yoko Ono. Nada mal, não acha?" Eu me lembro de um comentarista de revista underground ironizar Let It Be, achando que John concordaria. Ele não concordou. "Paul e eu éramos os Beatles", ele dizia em particular. "Nós compúnhamos as músicas." E, ao falar da dívida para com o jovem McCartney, era generoso: "Eu compunha pouco no começo, menos que Paul. Ele tocava muito bem guitarra e me ensinou muita coisa nela".

John não era um deus

Aqueles que têm John como um deus deveriam refletir sobre isso: ele admitia de bom grado que devia muito a Paul. Gostava especialmente de For No One. "Todas as semiclássicas dele são boas." E desqualificava muitas de suas próprias composições. "I Am the Walrus não queria dizer nada", afirmava, jogando no lixo o trabalho de uma geração de fãs que tentaram entender suas letras. Sempre detestou Yes It Is e não achava que cantou muito bem Lucy in the Sky with Diamonds.

Também admite que ele e Paul davam suas composições ruins para George e Ringo (Star) cantarem. Mas foi It’s Only Love, do álbum Help!, que mais atraiu sua ira. "Quase não conseguia cantá-la. É a música que eu queria nunca ter composto." É interessante notar que - e isso é algo que só percebi escutando as fitas -, por mais que John criticasse publicamente Paul, nas conversas comigo, ele nunca atacou John. Pelo contrário. "Em Abbey Road, eu queria ter feito harmonias com John, como de costume. Acho que ele teria gostado. Mas tive vergonha de pedir."

John Lennon e Paul Mccartney bem antes da discórdia Reprodução

Eu sempre quis estar presente nos dias mais felizes dos Beatles, mas meu papel foi cobrir o último ato da sua carreira e observar o desentendimento com John. Não só com ele, mas principalmente com ele. Tenho certeza de que, quando pediu o divórcio dos Beatles, não sabia o quanto seria complicado e caro para todos. Em outubro de 1971, porém, começou a ter uma ideia. Foi quando me pediu para sugerir a Paul que eles tentassem resolver pelo menos uma de suas diferenças sem que os empresários de ambos entrassem na história. Dei o recado, mas os advogados acabaram resolvendo tudo.

Mas o que mais me marcou nas entrevistas foi a sua vitalidade e o seu jeito inglês cara de pau e irônico de falar. Muito generoso, ele dizia: "Não consigo pensar em dinheiro. Ele vem e vai. Sempre quis ser um milionário excêntrico. Agora, eu sou".

Em 1970, também gravei um John assombrosamente profético: "Não vou desperdiçar minha vida como tenho feito, a toda velocidade. Tenho que aprender a não fazer isso. Não quero morrer aos 40". Ele tinha 40 anos e dois meses quando foi assassinato por um fã louco em Nova York, em 8 de dezembro de 1980. Eu tinha uma entrevista marcada com ele no dia seguinte para o jornal Sunday Times.

Confira a última performance pública da banda no telhado da Apple Records.

Ray Connolly

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