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Quênia: Olho por olho, dente por dente

O conflito étnico criou um cenário sombrio para o país justamente quando registrava a maior taxa de crescimento em 30 anos

Maurício Oliveira Publicado em 21/05/2019, às 21h00

Violência em Nairobi
Reprodução

Entre 2007 e 2008, a crise no Quênia ganhou destaque imediato na mídia brasileira por ter estourado justamente na véspera da corrida de São Silvestre, quando vários atletas quenianos estavam em São Paulo para disputar a tradicional prova de rua (e vencê-la, tanto no masculino, com Robert Cheruiyot, quanto no feminino, com Alice Timbilili).

A primeira noite de distúrbios, entre 30 e 31 de dezembro de 2007, resultou em mais de 100 mortes. O estopim foi a divulgação dos resultados da eleição presidencial ocorrida em 27 de dezembro. 

Em 2007, partidários do candidato derrotado, Raila Odinga, do Movimento Democrático Laranja (OMD), não aceitaram a reeleição do presidente Mwai Kibaki, do Partido da União Nacional (PNU), para um novo mandato de cinco anos. A margem ligeiramente superior a 200 mil votos foi contestada, principalmente porque Odinga liderava as pesquisas de opinião e, em certo momento da apuração, chegou a ter uma vantagem de cerca de 300 mil votos.

Raila Odinga / Crédito: Wikimedia Commons

 

A violência da primeira noite de confrontos deu início a uma sucessão de revides. Dois meses depois, o “olho por olho, dente por dente” já havia resultado em mais de mil mortes. Alguns episódios especialmente bárbaros chamaram a atenção da comunidade internacional, como o massacre de 19 pessoas a machadadas em Mombasa, segunda maior cidade do país – atrás apenas da capital, Nairóbi –, e a morte na cidade de Eldoret de 30 pessoas queimadas vivas dentro de uma igreja.

Em meados de janeiro, um herói nacional, o maratonista Wesley Nge-tich, 34 anos e três filhos, não resistiu ao ferimento causado por uma flecha envenenada que lhe atingiu o peito. Multiplicaram-se também os casos de abuso sexual contra mulheres. Pelo menos 300 mil famílias ligadas a um ou outro grupo tiveram de deixar os locais em que viviam para escapar da perseguição de seus rivais.

Mwai Kibaki / Crédito: Wikimedia Commons

 

Conflito tribal

Uma crise como essa sempre tem raízes mais profundas do que o episódio deflagrador. Por trás da disputa política, há um conflito tribal. Kibaki pertence à etnia dos quicuios, a mais numerosa do Quênia, que corresponde a 22% dos 37 milhões de habitantes do país. Com melhores índices de educação e maior poder aquisitivo, os quicuios ocupam cargos públicos e posições importantes na sociedade em proporção bem maior do que sua representatividade na população.

Dos 41 grupos étnicos existentes no país, apenas dois – as tribos Meru e Embu – são aliados dos quicuios. A coalizão foi apelidada pelos adversários de “Máfia do Monte Quênia”, referência à montanha em torno da qual se originam as três tribos. O presidente foi acusado de favorecê-las abertamente. Seu adversário era um rico empresário oriundo da tribo dos luos, etnia que corresponde a 13% da população. Quicuios e luos têm línguas próprias, embora o idioma oficial do país seja o suaíli, mistura de árabe e banto.

Os quicuios estavam no poder desde que o Quênia se tornou independente da Grã-Bretanha, em 1963. O primeiro partido político a representar a tribo, a União Africana Nacional do Quênia (Kanu), durante muitos anos foi único no país. Um outro partido chegou a ser fundado em 1966, o Kenya People’s Union (KPU), mas foi dissolvido depois que seus integrantes foram acusados de envolvimento no assassinato de um líder do Kanu, Tom Mboya.

A vocação do Quênia para ser controlado por ditadores manifestou-se desde o primeiro presidente, Jomo Kenyatta, que permaneceu no poder por 15 anos, até a morte, em 1978. Foi substituído pelo vice, Daniel Arap Moi, que conseguiu mudar a Constituição para permitir reeleições ilimitadas, o que de fato ocorreu nas quatro eleições seguintes.

Tentativas de romper o círculo vicioso eram duramente combatidas. No início dos anos 90, Moi foi acusado por observadores internacionais de violar direitos humanos ao reprimir manifestações que resultaram em dezenas de mortes. No final da mesma década, o Fundo Monetário Internacional (FMI) interrompeu a ajuda econômica ao país por considerar o governo incapaz de evitar a corrupção e o desvio de verbas.

A pressão internacional levou Moi a restabelecer o pluripartidarismo e abrir mão de concorrer à reeleição em 2002. Mwai Kibaki foi eleito com 62% dos votos. Sua gestão começou bem. Ao criar leis contra a corrupção e afastar juízes envolvidos em escândalos, ele reconquistou a confiança do FMI no final de 2003. Mas não escapou da tentação de permanecer no poder, como seus antecessores. Em 2005, ao tentar mudar a Constituição para concentrar mais poderes, o presidente encontrou resistência até entre aliados, o que o levou a demitir vários ministros.

No início de 2006, um grande escândalo de corrupção no governo causou nova suspensão da ajuda financeira internacional. Alguns observadores estrangeiros registraram indícios de irregularidades, a maioria relacionada à precariedade do sistema de votação e à demora na contagem dos votos. Além disso, o risco de manipulação dos eleitores era naturalmente alto em um país com 74% de analfabetismo.

Oposição ao governo em revolta / Crédito: Getty Images

 

Não se poderia assegurar, em função de tudo isso, que o resultado de uma recontagem ou de uma eventual nova eleição seriam aceitos pelo lado perdedor, já que o precedente teria sido aberto. O único caminho possível parecia ser o da conciliação, com o estabelecimento de um governo conjunto. A hipótese ganhou força com os insistentes pedidos internacionais para que o conflito chegasse ao fim e intervenções como a do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que viajou ao Quênia para intermediar a negociação.Annan mostrou-se pouco otimista, estimando que seria necessário pelo menos um ano para que as coisas voltassem ao prumo.

Triste ironia

O mais irônico é que as coisas estavam indo bem para o país, ao menos em comparação com a maior parte dos vizinhos africanos. A taxa de crescimento econômico chegou a 6% em 2006, maior índice dos últimos 30 anos, graças à exportação de produtos como café, chá e cana-de-açúcar e ao crescimento do turismo. Do ponto de vista político, o país parecia estar se afastando de turbulências, ao contrário dos vizinhos Congo, Somália e Sudão.

Quênia no mundo / Crédito: Wikimedia Commons

 

A imprensa atuava com relativa liberdade e 2 548 candidatos puderam concorrer às eleições para o Parlamento, composto por 224 membros (a casa acumula as funções que a Câmara dos Deputados e o Senado têm no Brasil). Kibaki baseou sua campanha nos bons resultados econômicos alcançados durante seu governo, enquanto Odinga bateu na tecla de que era preciso pôr fim ao favorecimento dos quicuios para que os frutos do crescimento fossem mais bem distribuídos entre as diversas tribos do país.

A economia do Quênia foi atingida de diversas formas pelos conflitos, com prejuízos estimados em 500 milhões de dólares nos dois primeiros meses. As multinacionais instaladas no país retiraram seus funcionários e o bloqueio de estradas e ferrovias tornou caótico um sistema logístico que já não era dos melhores. O pior de tudo, entretanto, pode ser a debandada dos turistas — o Quênia havia se tornado um destino bastante procurado em função das belas praias no Oceano Índico e dos safáris que permitem aos visitantes acompanhar espetáculos de natureza selvagem, como a migração de zebras e gnus.

No início de fevereiro, autoridades apelaram a turistas estrangeiros que não cancelassem seus planos de visitar o país, alegando que a violência estava controlada e limitada a pequenas áreas. O ministro da Informação, Samuel Poghisio, disse à Agência Reuters que a imprensa internacional exagerava na cobertura dos fatos e que o mundo estava vendo a crise no Quênia com lentes de aumento.

Laços sentimentais

O desenrolar da crise no Quênia interessava de forma especial ao pré-candidato democrata da época, ao governo dos Estados Unidos Barack Obama – não por razões de política internacional, mas por uma questão muito pessoal. Ele tem vários parentes na região de Kogelo, onde seu pai nasceu e a avó, Sarah Obama, 97 anos, vive até hoje, na mesma casa que pertence à família há décadas.

Obama visitou-a em duas ocasiões, em 1987 e 1992. Sua família paterna é da etnia luo, a mesma do líder de oposição, Raila Odinga. Barack foi batizado com o mesmo nome do pai, que conheceu Ann Dunham, típica representante das famílias brancas de classe média dos Estados Unidos, quando ambos estudaram na Universidade de Manoa, no Havaí, no final dos anos 50. O casal separou-se quando Barack tinha dois anos. O pai decidiu voltar ao Quênia, onde morreu em um acidente de carro, em 1982. Ann, mãe de Barack, morreu em 1995, vítima de câncer no ovário.