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Quero que Vá Tudo pro Inferno: a música banida do repertório de Roberto Carlos após uma fase espiritual intensa

As superstições do rei, somadas ao seu TOC, o impediram de cantar um de seus maiores sucessos por mais de 30 anos

Wallacy Ferrari Publicado em 07/03/2020, às 08h00

Roberto Carlos em apresentação no México, em 2016
Roberto Carlos em apresentação no México, em 2016 - Getty Images

O que o rei tem de talentoso, tem de supersticioso; odeia a cor marrom e a roxa, não passa debaixo de escadas, só sai de um lugar pela mesma porta que entrou e não assina documentos em noites de lua minguante. Extremamente específicos, como seu pavor do número 13, que já foi motivo de diversas remarcações de datas de shows ao longo de sua extensa carreira.

As superstições e hábitos específicos foram justificados na década de 1970 quando o cantor revelou sofrer de transtorno obsessivo-compulsivo, que geravam impulsos sobre atividades com constância e repetição sobre suas culturas e hábitos. O problema é que, com a rotina de shows, o artista teve de abdicar do tratamento durante sua juventude, resultando em culturas extremamente excêntricas.

Um de seus maiores sucessos, o rock “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, também se tornou vítima de seus receios. Lançada pela primeira vez em 1965, alavancou a carreira de Roberto a nível nacional, sendo a faixa de abertura do disco “Jovem Guarda”. Composta pelo próprio cantor, a letra releva qualquer dificuldade de um relacionamento, inspirado na distância que sofria com sua então namorada, Magda Fonseca.

Single comercial lançado com a música / Créditos: Divulgação

 

A palavra “inferno”, repetida 10 vezes durante toda a canção, fez com que, no início da década de 1980, a música fosse banida de seu repertório. Roberto passava por uma fase espiritual intensa e, somada ao TOC, evitada pronunciar qualquer palavra relacionada a algo causador de algum empecilho, como “azar”, “mal” ou até mesmo, “inferno”, que estavam sempre presentes em seus álbuns.

Em uma coletiva de relançamento de suas obras em uma edição comemorativa, chegou até a editar a música para não ouvir o termo. Quando entrou para a entrevista, a música começou a ser reproduzida, mas no refrão, foi interrompida e substituída por uma gravação de Cid Moreira lendo um salmo bíblico.

O bloqueio com a obra era tamanho, que, além de ser retirada de seus shows, o cantor evitava pronunciar o título da canção, se referindo apenas como “Quero Que Vá” nas poucas vezes que foi perguntado. Uma delas, em 2004, disse a Folha de S. Paulo que tentava, por terapia, se recuperar das superstições causadas pelo TOC: “Com o tratamento, quem sabe eu não volte a cantar”.

A música só conseguiu ser reproduzida novamente no seu especial de fim de ano em 2016, quando, orgulhoso, o cantor afirmou que seu transtorno estava bem menos agressivo após doze anos de tratamento e que estava pronto para cantar novamente. Sorridente, fez um falso silêncio antes de concluir o refrão, mas levou a plateia ao delírio ao recitar: “E que tudo mais vá pro inferno!”.


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