Rádio fantasma: A Voz do Brasil

Como surgiu e por que se manteve por 82 anos o programa de rádio menos ouvido do país

Álvaro Oppermann Publicado em 22/07/2017, às 10h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h35

Informando e irritando desde 1935
Informando e irritando desde 1935 - Shutterstock

Depois dos acordes de abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, o locutor alagoano Luiz Jatobá inspirou, impostou a voz e ressoou: "Senhores ouvintes, muito boa noite". Na noite de 22 de julho de 1935, nascia o mais antigo programa da rádio brasileira, A Voz do Brasil. Criado pelo então presidente Getúlio Vargas, ele surgiu como Programa Nacional, foi rebatizado em 1938 para Hora do Brasil (quando a transmissão se tornou obrigatória). Mas, apesar de manter à risca a trilha sonora e o horário fixo, o programa guarda muito pouco do formato idealizado por Vargas. 

De início, esperava-se que, além de notícias sobre o poder executivo (só em 1962 incluiria o legislativo), também fomentasse a devoção cívica e o gosto pela boa música. Na grade de programação, havia peças de radioteatro sobre momentos relevantes da história brasileira, como a abolição da escravatura e a proclamação da República. "No mundo inteiro, na década de 1930, o rádio serviu de instrumento de comunicação governamental e de propaganda ideológica", diz José Salvador Faro, professor de Comunicação Social da Umesp e da PUC. A popularidade, no entanto, nunca foi o forte do programa. Durante a década de 1940, a Era de Ouro do rádio nacional, A Hora do Brasil ganhou a alcunha de "o Fala Sozinho". Em vão, o governo realizava enquetes de opinião no Rio de Janeiro, então capital federal, tentando demonstrar sua alta audiência. 

Fãs na política 

Além de Getúlio, outro ex-presidente tinha particular afeição pelo programa: Jânio Quadros. Dizem que ele chegou a transferir a produção do Rio de Janeiro para Brasília, em 1961, só para poder passar bilhetinhos aos editores e incluir notícias de última hora. Foi na capital federal que, em 1962, o programa ganhou seu famoso bordão: "Em Brasília, 19 horas". Durante a Ditadura Militar, no entanto, A Voz do Brasil sofreu uma marcação cerrada dos censores oficiais, e viveu sua fase mais difícil. 

Por causa de seus baixos índices de audiência (cerca de 5% do total), desde a década de 1990, diversas rádios ganharam o direito provisório de reproduzir o programa em horários alternativos. Porém seus defensores ressaltam que ele ainda cumpre uma importante função social. "As rádios das grandes cidades não têm interesse em levar informações para locais distantes", diz Eduardo Tramarim, da Rádio Câmara. Em 2003, o programa sofreu modificações para se adequar à geração internet. O som da abertura ganhou um tom mais pop, e recebe o ouvinte com a saudação "Sete horas em Brasília". Mas não acabou ai, anos depois a saudação voltou a ser "Em Brasília, dezenove horas", marcado por uma linguagem mais informal e a abertura com uma música clássica. 

A ultima alteração sofrida foi em 2016, quando o então presidente Michel Temer editou uma MP autorizando as rádios a flexibilizarem o horário entre 19h e 22h do programa durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, a regra também valeu para emissoras que não transmitiram o evento.