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Rainha Vitória: Há 182 anos tinha início um dos mais longos reinados da História

Desbancada apenas por sua tataraneta, Elizabeth II, Vitória permaneceu no trono por 64 anos

Raphaela de Campos Melo Publicado em 20/06/2019, às 06h00

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Wikimedia Commons

 “Estou cada dia mais convencida de que nós, mulheres, se queremos ser boas, femininas, amáveis e agradáveis na intimidade, não somos feitas para reinar.” Difícil acreditar que esta afirmação partiu da mulher que esteve à frente do segundo mais longo reinado da história do Reino Unido, de 1837 a 1901 (64 anos), desbancado apenas por sua tataraneta, a rainha Elizabeth II, no trono desde 1952 (67 anos).

Símbolo do imperialismo britânico no século 19, apoiadora da expansão territorial inglesa e do fortalecimento da burguesia industrial, a rainha Vitória eternizou a imagem de soberana sólida, digna e confiável. No entanto, um olhar mais acurado revela uma mulher marcada por perdas, contradições e transtornos emocionais. Austera, deprimida, autoritária e autocentrada, Vitória fazia o que queria na medida do possível. Os outros que se adaptassem às suas vontades – que, por sinal, passavam longe das concessões. Se por um lado defendia o ideal de mulher doce e maleável, tão valorizado em seu tempo, por outro, era incapaz de conter o ímpeto explosivo e impositivo, o gênio forte e destemido.

Para a historiadora e biógrafa francesa Anka Muhlstein, autora do livro Vitória (ed. Companhia das Letras), a Era Vitoriana transcorreu sob a égide dos bons costumes e da rígida moral cristã, em boa medida refletida pela imagem pública da rainha, vista como a sofrida “viúva de Windsor”, sempre trajando vestidos pretos, fiel ao seu amado Albert até o último suspiro. No entanto, segundo Anka, este não passava de um retrato “bem insípido de sua verdadeira personalidade”.

Vitória aos quatro anos / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Falamos de uma mulher liderando um dos maiores impérios mundiais num momento em que as mulheres não têm direito ao voto, não têm direito de participação política. Haja vista as leis de 1832, Reform Act, e 1835, Municipal Corporations Act, que baniram explicitamente as mulheres da possibilidade de direito ao voto. É uma dubiedade muito grande”, opina Raquel Gryszczenko Alves Gomes, professora de história contemporânea na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.Acusada de ser contrária à emancipação feminina, a soberana se dividiu entre a teoria e a prática.

Disparou: “Que a mulher permaneça o que Deus queria que fosse: um apoio para o homem, com deveres e uma vocação completamente diferentes”. Mas também se deu ao direito de desfrutar de certas liberdades, como o uso de clorofórmio em seu último trabalho de parto. De acordo com a mentalidade vigente, tal gesto levava à “degeneração moral”, uma vez que a dor do parto era compreendida como o castigo divino pelas transgressões e pelo pecado. “Imagine quantas mulheres passaram a se sentir autorizadas para ao menos tentar solicitar o uso do clorofórmio ao darem à luz?”, questiona a docente.

Grande amor

A trajetória da rainha certamente se divide entre antes e depois de apaixonar-se por seu primo, Albert de Saxe-Coburgo, com quem se casou em 1840. Questionada pelo arcebispo de Canterbury se desejava prometer obediência ao marido, ela soltou um convicto sim! Albert era seu “anjo bem-amado”, a encarnação da beleza, da civilidade, dos ideais elevados e da inteligência. Sua obsessão.

Os filhos não tardam a chegar. Tiveram cinco meninas e quatro meninos num intervalo de 17 anos. A cada gestação, Vitória foi se afastando dos afazeres monárquicos – bastão que, em pouco tempo, bem se encaixou nas mãos do príncipe, que tinha acesso livre aos papéis enviados pelos ministros. “Vitória admite a superioridade intelectual do marido e lhe dá cada vez mais peso no domínio político”, conta a biógrafa Anka Muhlstein.

Vitória em sua coroação / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em pouco tempo o casal se converteu em modelo de família para os ingleses, com seus hábitos simples e puritanos. No entanto, na intimidade, Vitória se exasperava com a maternidade. Ficava furiosa, deprimida, insatisfeita com o corpo e impaciente com as crias que não paravam de chegar, “roubando”, inclusive, a atenção e o afeto de Albert, por quem sentia um ciúme doentio. A dependência em relação ao marido era tamanha, a ponto de necessitar que ele aprovasse seus vestidos. Era seu único e declarado objeto de amor, nas palavras da rainha, “pai, protetor, guia, conselheiro para tudo, esposo...”.

Nove meses após a morte da mãe, em dezembro de 1861, seu amado Albert sucumbe a uma febre e em 15 dias está morto. Tinha 42 anos. Vitória desmorona. Prematuramente viúva, adentra um período de abatimento, reclusão e distanciamento das atividades políticas. O poder passa então, irrestritamente, para as mãos dos ministros. “O pobre bebê de 8 meses, privado do pai, tornou-se a viúva de 42 anos esmagada, de coração irremediavelmente partido. O mundo desapareceu para mim”, ela cravou em seu diário.

A rainha escritora

Desde nova, Vitória cultivou um hábito que se intensificou após a viuvez: escrevia em seus diários. Questões de Estado, diplomáticas, familiares, paixões e opiniões. Nada ficava de fora. Mas boa parte dos escritos foi destruída após sua morte, pois os filhos consideraram certas passagens inadequadas ou ofensivas demais (renderiam mais de 700 volumes).

Se, por um lado, a soberana se recolheu por um tempo, evitando aparições públicas, por outro se mostrou por meio de seus escritos. Em 1868, publicou extratos dos seus diários privados num volume intitulado Leaves from the Journal of Our Life in the Highlands sobre as temporadas que passou na Escócia com o marido, Albert, e posteriormente com o braço direito, o escocês John Brown – seu suposto amante, segundo os fofoqueiros da época.

Com desenhos de sua autoria, a obra foi best-seller instantâneo: 20 mil exemplares vendidos. Mas a classe política e seus filhos acharam a iniciativa um equívoco e uma exposição desnecessária e constrangedora. Ela reagiu com fúria. Alegou que o sucesso não decorria da curiosidade do povo, e sim da empatia que este sentia em relação à sua pessoa e ao seu estilo de vida simples, familiar e de boas relações com seus funcionários.

“Vitória foi um ser humano passional, de enorme excentricidade, e, ao contrário do que dizem, facilmente capaz de se divertir”, atesta Andrew Norman Wilson, escritor e biógrafo inglês que passou anos lendo seus diários. Também não manifestava preconceito racial ou de classe, tão comum naquela época. Tinha uma alma indomável.