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Após 4 décadas de luto, a rainha Vitória organizou seu próprio funeral — que incluía uma lista bizarra

Depois da morte do príncipe Alberto, a monarca pensou em todos os detalhes do momento que marcaria o fim de uma das figuras mais importantes do século 19

Fabio Previdelli Publicado em 08/12/2019, às 13h20

Rainha Vitória
Rainha Vitória - Getty Images

A vida, ou melhor dizendo, a morte, sempre foi um assunto recorrente durante o período vitoriano. Afinal, uma razão bastante óbvia para isso é que a expectativa de vida era muito menor naquela época. Era praticamente um privilégio chegar aos 45 anos durante o século 19.

O príncipe Alberto, marido da rainha Vitória, quase atingiu tal façanha, mas o vigoroso homem sucumbiu à febre e morreu aos 42 anos. O triste episódio, que ocorreu em uma noite fria de dezembro de 1861 no Castelo de Windsor, definiria o resto dos dias da rainha Vitória como monarca da Grã-Bretanha.

Vitória passou a usar preto até o fim de sua própria vida, quatro décadas depois. A monarca morreu em 22 de janeiro de 1901 na Osborne House, na ilha de Wight, e seu funeral, que encerrou a época que levou seu nome, é uma história por si só.

Uma vez que a rainha percebeu que seu tempo estava acabando, ela teria chamado seu médico pessoal, o Dr. James Reid, que a atendeu durante os últimos 15 anos de vida. Além de cuidar da saúde de Vitória, o médico acabou se tornando um confidente.

No final da vida da soberana, Reid assumiria a grande responsabilidade de conduzir tudo o que havia sido planejado por ela para quando chegasse o momento em que seu coração pulsasse pela última vez.

Como é de se imaginar, essas instruções, que haviam sido detalhadas em 12 páginas, foram mantidas em segredo por um longo tempo. Em primeiro lugar, porque os filhos da própria rainha teriam denunciado rapidamente o que estava escrito em suas instruções. Assim, o documento foi escondido e só ressurgiu anos depois nos arquivos da família de Reid.

Príncipe Alberto e Rainha Vitória quatro anos após o casamento, em 1854 / Crédito: Getty Images

 

O Dr. Reid assegurou que as instruções foram totalmente implementadas, incluindo uma lista de itens bizarros que deveriam ir no caixão junto com o corpo da rainha. A abundância de flores, reunidas e trazidas de todo o Reino Unido e do exterior, teria ajudado alguns desses itens a passarem despercebidos.

Mas o que exatamente a monarca mais antigo da Grã-Bretanha na época queria esconder?

Segundo o livro The Private Life of Victoria: Queen, Empress, Mother of the Nation, entre os itens que tinham um grande valor sentimental para a rainha está um molde de gesso da mão do príncipe Alberto. Por si só, essa peculiar recordação já parece estranha, mas um fato que deixa tudo isso ainda mais bizarro é que a rainha dormiu com ele durante anos após a morte de Alberto.

A fase de luto de Vitória parece ter perdurado por muito tempo, entre as observações escritas por ela, incluem pedidos aos criados de que todas as manhãs trouxessem água quente e o conjunto de barbear que pertencia ao príncipe, como se ele ainda estivesse lá. Esta prática estranha supostamente durou anos.

A rainha também exigiu um funeral totalmente branco. Isso incluiria cavalos brancos para as procissões militares que foram organizadas para levar seu caixão, com roupas de luto correspondentes e tudo mais.

Ainda mais notavelmente, a viúva queria descansar com o véu branco que usava no dia do casamento em 1840. Tal desejo contrastava inteiramente com as roupas pelas quais a rainha optou após a morte de seu falecido marido, mas isso não o tornava menos simbólico.

Rainha Vitória / Crédito: Getty Images

 

A rainha Vitória foi pioneira no vestido de noiva branco, estabelecendo a tendência para as próximas gerações — antes disso, as noivas usavam cores diferentes para as cerimônias de casamento. A monarca definitivamente estava apegada às suas roupas de noiva. Ela queria o véu em seu caixão para sugerir a castidade de sua juventude e para honrar o relacionamento mais significativo, e satisfatório, que viveu em sua vida.

No caixão, a soberana também pediu uma capa que a princesa Alice havia bordado para o pai. Além de ser uma das nove crianças que foram fruto da relação de Vitória e Alberto, Alice, que era sua terceira filha, estabeleceu um vínculo especial com seus progenitores. Dizem que ela cuidou de Alberto durante sua doença, oferecendo apoio até seus momentos finais. E que ela também se dispôs a estar com sua mãe depois da dolorosa perda de seu pai.

Desde que a rainha entrou em luto, Alice passou a ser, por um bom tempo, sua assistente pessoal, substituindo a mãe em muitos deveres reais. Analisando por essa perspectiva, é completamente compreensível a importância da capa bordada. Outro fato que contribui com esse apego emocional é que a princesa Alice também foi a primeira de seus filhos a falecer, com apenas 35 anos.

A peça tornou-se um item de preservação de memória da filha favorita da rainha e de seu cônjuge amoroso. Em suas mãos pálidas e sem vida. Vitória usava uma quantidade excessiva de joias, algo que os críticos associaram às práticas ocultistas (a presença da capa bordada de Alberto e de seu roupão no caixão também estariam ligadas a esse viés).

Mas duas entre as joias se destacam em importância: o anel de casamento da rainha Vitória e um segundo anel colocado no mesmo dedo que lhe foi dado por seu suposto amante, John Brown.

Aqui começa a parte em que a rainha provavelmente mais precisou da ajuda do Dr. Reid. Brown era um servo da família real da Escócia e teria confortado a rainha após a morte do príncipe Alberto.

Ilustração de Guardas Reais em volta do corpo da Rainha Vitória / Crédito: Getty Images

 

Para muitos membros da família real, essa escandalosa relação não foi vista com bons olhos. O estreito relacionamento que se desenvolveu entre a rainha e seu servo não foi aprovado a tal ponto que seu filho e sucessor do trono, Eduardo VII, fez questão de descartar todas as recordações associadas a John Brown — provavelmente o mesmo aconteceu com o servo indiano Abdul Karim, com quem Vitória se aproximou após a morte de Brown.

Graças ao Dr. Reid, a rainha Vitória ainda carregava uma mecha do cabelo de John Brown e uma foto dele em seu túmulo. Muitos desses itens sentimentais chegaram ao caixão momentos antes de serem selados. Mas apenas um pedido da rainha não foi realizado: que uma escultura em tamanho real dela fosse transferida para o mausoléu na propriedade de Frogmore, que abrigava uma escultura de Alberto, assim como seus restos mortais.

O mausoléu e as esculturas foram encomendados logo após a morte do príncipe. Enquanto a escultura de Alberto foi erguida no mausoléu, a que representava sua esposa foi mantida em Windsor até o momento certo para seu uso.

Desde que quatro décadas se passaram entre as duas mortes, a escultura de Vitória foi perdida e adicionada ao mausoléu apenas alguns meses depois, quando ela finalmente ressurgiu.

O caixão da rainah Vitória sendo carregado para a capela de São Jorge, em Windsor / Crédito: Getty Images

 

O corpo da rainha não foi exposto para uma cerimônia pública, mesmo que a pessoa mais famosa do século 19 tivesse acabado de morrer. O último "amigo" que a monarca exigiu ver foi seu cão pomerano, Turi. O animal de estimação real tornou-se a última alma viva a ouvir a respiração da rainha.


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