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Ramsés II, o Grande

Filho e neto de generais, ele foi criado para vencer. Lutou contra hititas, núbios e assírios. Por suas mãos, o Egito se tornaria um império

quinta 17 maio, 2018
Ramses II
Ramses II Foto:Renato Alarcão

A entrada da cidade está coberta de cadáveres. Desesperado, o sacerdote queima resina em um fogareiro, num ritual de magia, pedindo socorro aos deuses enquanto chora pelos mortos. Não funciona. O poderoso Exército egípcio parece invencível. Acaba de romper a machadadas as portas da fortaleza, o último baluarte de resistência de Biblos, a capital do reino de Amurru (no atual Líbano), aliado dos hititas.

A conquista de Biblos, em 1285 a.C., é um marco na história. Sob o comando de Ramsés II, o Egito está para se tornar o maior império do mundo antigo. Poderoso e rico, o país se tornará uma potência militar, conquistará territórios dos hititas ao norte, dos assírios a leste e dos núbios ao sul, até atingir seu tamanho máximo. Trará escravos, novas matérias-primas e tecnologia. Será o apogeu econômico e cultural do Egito.

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Garoto bom de briga

Filho e neto de guerreiros, Ramsés II assumiu o poder com 25 anos, em 1290 a.C., e lançou-se em um esforço militar inédito. Em sua primeira campanha militar, com apenas 10 anos, participou da retomada do litoral do Líbano ao lado do pai, Sethi I. Logo nos primeiros anos de governo, Ramsés II levantou uma rede de fortificações perto das fronteiras. Engolidas pelo tempo durante três milênios, essas cidadelas estão voltando à luz.

Representação de Ramsés II durante a infância Wikimedia Commons

Arqueólogos americanos já descobriram 11 fortalezas na península do Sinai, entre o Egito e a Palestina. Segundo o arqueólogo Peter Brand, da Universidade de Mênfis, no Egito, elas provam que a intenção do faraó não era apenas a de se defender de invasões, mas criar uma espécie de via militar por onde poderia deslocar de forma rápida e segura grandes contingentes de soldados. “Havia poços de captação e canais de distribuição de água. Encontramos armazéns e vestígios de alimentos como cevada, rabanete, alho e carne de boi, antílope e gazela, além de favos de mel, tâmaras, figos, leite e vinho. E grande quantidade de estábulos, o que também indica o movimento de tropas no local”, afirma Brand.

Outro ponto fundamental foi a profissionalização do Exército. “Os militares passaram a ganhar como nunca, com os generais recebendo terras no Egito equivalentes ao território conquistado”, afirma o historiador francês Pierre Monet. “Com tal rede de fortificações e com soldados bem alimentados e muito bem pagos, era natural que Ramsés tivesse planos mais ambiciosos.”

Capital azul-turquesa

Fruto dessa ambição foi a criação da nova capital do Egito, que ele batizou de Pi-Ramsés. “Um guerreiro deveria ficar próximo de seus exércitos, por isso Ramsés II mandou construir sua capital perto do delta do Nilo, quase na fronteira com a Palestina. Seu novo endereço passou a abrigar toda a corte egípcia e a nata de seus comandantes e generais. As outras capitais oficiais, Mênfis, Heliópolis e Tebas, continuaram exercendo o papel de centros políticos e religiosos”, diz a historiadora francesa Bernardette Menu.

Ramsés II durante a batalha de Qadesh Wikimedia Commons

As ruínas de Pi-Ramsés, descobertas no início dos anos 80, revelaram uma imagem fabulosa da capital. A cidade, toda decorada em azul-turquesa, era esplendorosa, como relata um antigo papiro datado de cerca de 1200 a.C., assinado por um escriba chamado Pabasa: “A capital é extremamente próspera. Seus campos abundam com todo tipo de produto; seus canais são repletos de peixes e suas pradarias são de pastagens verdejantes”. Mas o que mais surpreendeu os arqueólogos foi a estrutura militar montada por seu governante. “Havia um sofisticado complexo industrial especializado na produção de armas e carros de guerra. Não sabemos ainda qual era o tamanho do Exército de Ramsés, mas agora temos certeza de que foi o maior da Antiguidade”, diz Brand. Artesãos, ferreiros, criadores de animais, todos eram empregados dessa indústria bélica. “Eles faziam carros de batalha, lanças de cobre, espadas e dardos. É possível que também fabricassem barcos.”

Quando punha para funcionar sua azeitada máquina de guerra, Ramsés raramente era derrotado. Confiantes, cerca de 30 mil soldados egípcios chegaram, em abril de 1274 a.C., à planície de Beirute, no Líbano. Um dos confrontos mais famosos do mundo antigo, a batalha de Qadesh, estava para começar. A cidade demarcava os limites entre os impérios egípcio e hitita, que ia do norte da Palestina até a atual Turquia. O conflito entre as duas nações mais poderosas da época durou 15 anos e resultou numa matança até então nunca vista.

Busto de Ramsés II no Museu Britânico, em Londres Divulgação

Depois desse início de governo fulminante, Ramsés usufruiu cerca de 50 anos de paz – seu reinado todo durou 67 anos. Teve tempo e cabeça para usar a fortuna que conquistou na construção de um legado único em obras e na documentação de seus feitos. Depois de sua morte, o Egito nunca mais foi o mesmo. Pouco mais de 150 anos depois, experimentava um amargo declínio. Nem a tumba do mais poderoso faraó de todos os tempos escapou da decadência. Assaltada por ladrões menos de dois séculos depois de seu funeral, sobrou dela apenas a múmia do temível soberano.

Saiba mais

Pharaoh Triumphant, The Life and Time of Ramesses II, Kenneth Kitchen, Aris & Philips, 1982 - Referência sobre a importância política de Ramsés

Ramsés II, o Soberano dos Soberanos, Bernadette Menu, Gallimard, 1998 - História ilustrada da época de Ramsés II, rica em informações sobre seu papel como militar e como construtor

O Egito no Tempo de Ramsés, Pierre Monet, Companhia das Letras, 1989 - Detalhes da vida cotidiana no reinado do faraó

Deuses, Faraós e o Poder: Legitimidade e Imagem do Deus Dinástico e do Monarca do Antigo Egito – 1550-1070 a.C., Júlio Gralha, Produções Editoriais, 2002 - Faz um estudo da legitimação do poder do faraó a partir de seus feitos grandiosos

Entrevista Com Gente Morta

Júlio Gralha*

Ele viveu até os 90 anos (67 deles governando o Egito), venceu batalhas, construiu uma capital. E ainda manteve oito mulheres oficiais e uma centena de amantes

O reinado de Ramsés II é como as pirâmides – um símbolo da opulência egípcia. Tudo em sua vida é grandioso. Desafiou Qadesh, cidade que demarcava o limite entre os impérios egípcio e hitita, e enfrentou “sozinho” 2.500 bigas inimigas. Fundou uma nova capital, cobriu seu país e a Núbia de monumentos e estabeleceu uma paz de 50 anos. Teve oito rainhas – das quais Nefertari era a preferida –, mais de cem esposas secundárias e concubinas e quase 200 filhos. A seguir, ele fala sobre seus feitos.

HISTÓRIA – O que de fato aconteceu na batalha de Qadesh?

RAMSÉS – Ainda é difícil falar dessas coisas, mesmo 3281 anos depois... Foi na primavera de 1274 a.C. Eu acreditava numa vitória fácil sobre os hititas. Assim, logo de início, consolidaria os feitos de meu pai, Sethi I. Mas as coisas não saíram como eu queria. Estava perto do acampamento egípcio liderando a coluna de Amon, uma das quatro que levei, quando uma nuvem de hititas furou a coluna e atacou o campo. Foi o terror! Invoquei Amon-Rá, meu deus. Com ele, enfrentei sozinho as milhares de bigas hititas.

Desculpe, Ramsés, mas realmente Amon-Rá interveio? Fala sério...

Tenho que confessar que uma tropa de elite surgiu, vinda de Amurru, e manteve nossa posição até que outra coluna, a Seth, chegasse e nos salvasse. Não perdi nem ganhei, e ainda consegui um tratado de paz duradouro com os hititas. E mais: uma nova esposa para meu harém. Imagine onde iria minha reputação se eu chegasse ao Egito dizendo que tinha tomado uma surra dos hititas...

Ouvimos falar de suas centenas de mulheres e filhos. É tudo verdade?

Claro! Tanto que construí uma tumba para meus filhos, que aqueles seres horrendos, os tais egiptólogos, encontraram e chamaram de KV5. Até agora eles descobriram 130 câmaras e acham que pode haver 200. Só que não vou dizer quantas eram. Agora que abriram a tumba, que trabalhem até encontrar.

Nefertari era sua rainha favorita?

Nefertari, Nefertari... Eu a amava profundamente. Construí um templo para ela perto do meu, em Abu Simbel. Só para ela fiz isso. Era meu braço direito. Você sabia que ela foi atuante nas relações diplomáticas entre o Egito e Hatti, o país dos hititas na Turquia? Grande mulher.

Qual é o segredo de sua longevidade? Afinal, foram 90 anos numa época em que poucos chegavam aos 35.

Esse é um segredo que vai morrer comigo (risos). Talvez a opulenta e atlética vida que tive possa ter influenciado. Talvez tenha sido uma dádiva do meu pai Amon-Rá. Talvez por eu ter uma família numerosa. Quem sabe?

E essa história do Êxodo dos hebreus? Foi no seu reinado?

Li na internet do Museu do Cairo que não se discute religião, futebol e política. Posso dizer o que ouço nos corredores.

Gostaria de ouvir assim mesmo.

Os pesquisadores não acreditam nisso. No meu tempo não tínhamos nem um nome para os hebreus. Diversos grupos do Retennu (atual Palestina) eram chamados de apiru. Só por volta de 1100 a.C. meu filho Merenptah escreveu pela primeira vez o nome Isr numa estela, quando conquistou a região. O nome foi traduzido como Israel depois.

* Júlio Gralha é mestre em Egito antigo pela Universidade Federal Fluminense

Carla Aranha


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