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Rapper Fabio Brazza fala sobre campanha que fez junto ao Sindicato dos Hospitais para combater a pandemia

“O rap foi pra mim um livro de história de um Brasil que, até então, ninguém tinha me contado", diz um dos principais nome do rap atual em entrevista ao site Aventuras na História

Fabio Previdelli Publicado em 02/05/2021, às 09h00

Foto do rapper e poeta Fabio Brazza
Foto do rapper e poeta Fabio Brazza - Divulgação/ Felipe Vieira

Apesar do país ter tido uma queda no número de vítimas da Covid-19 nos últimos dias, o Brasil atingiu, nessa semana, a triste marca de 400 mil mortes em decorrência de complicações causadas pelo novo coronavírus, conforme apurado pelo consórcio de imprensa com bases nos dados divulgados pelas secretarias de saúde.  

O número também representa outra negativa marca no país: 2021 já é o ano onde mais pessoas morreram de Covid-19 por aqui. Segundo dados do Conselho Nacional de Secretarias da Saúde (Conass), este ano a pandemia já vitimou 195.848 pessoas — contra 194.949 mortes em todo o ano passado.  

Para tentar frear esse crescimento e conscientizar as pessoas sobre a importância das medidas preventivas, o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp) lançou em 7 de abril, Dia Mundial da Saúde, a campanha ‘Conscientiza Sim’, na qual o rapper e poeta Fabio Brazza criou uma música inédita para essa importante tarefa. Confira!

   

“Com certeza é uma das minhas letras mais importantes", diz Brazza em entrevista exclusiva à equipe do site do Aventuras na História. “Recebi o convite do Sindicato dos Hospitais. Eu acho que eles queriam conversar com um público jovem, principalmente, que estava saindo muito e disseminando o vírus por aí. E pra isso decidiram por um rap”.   

Fabio conta que se sentiu feliz por ter sido chamado para a campanha, afinal, o intuito da música era a extensão de um trabalho que ele já vinha fazendo há anos dentro da música. “Quando me chamaram pra fazer um rap para tentar salvar vidas, já era algo que eu vinha fazendo, mas de outra maneira, como uma metáfora consciente”. 

O cantor diz que o convite foi uma honra e que vê a oportunidade como uma “carta de recruta”. “É como se eu tivesse sendo convocado para uma guerra, como um soldado indo para ajudar a combater esse inimigo que está nos matando e se eu puder, de alguma maneira, contribuir na luta com arte que eu tenho, tudo isso é uma grande honra”. 

“Somos herdeiros dos erros de ontem” 

Apesar do trabalho direcionado ao combate da Covid-19, a pandemia já se tornou assunto de outra música de Fabio Brazza.

Em “De Volta ao Passado”, canção que contou com a participação de Hélio Bentes, do Ponto de Equilíbrio, o rapper cita uma série de eventos históricos que gostaria de ter presenciado — “Marcharia ao lado de Luther King e Rosa Parks no Alabama” — ou evitado — “Se eu pudesse voltar ao passado tentaria impedir algum massacre. Chernobyl, Hiroshima, Nagasaki...”. 

Entre tudo isso, ele faz uma reflexão: “Somos herdeiros dos erros de ontem”. Mas se a sociedade já viveu as experiências mais incríveis ou horrendas que se possa imaginar, por que continuamos repetindo nossos erros? 

“Eu acho que a sociedade repete os erros do passado porque o ser humano não muda. Pode mudar a tecnologia, a época e até mesmo as peças, mas jogo é o mesmo. Quem controla o jogo ainda somos nós”, diz Brazza.  

“E por trás de cada ser humano existe a vaidade, a ganância, existem muitas emoções que nos movem para além da racionalidade, para apoiar além do bem ou do mal. Somos humanos demasiadamente humanos e assim sempre seremos, sempre estaremos sujeitos a todo esse tipo de. de erro na nossa história, por mais que a gente tente aprender com eles”, completa.  

No fim da canção, ele faz um importante questionamento: “E se eu pudesse voltar ao passado, ou melhor, e se esse já é o passado e alguém só tá esperando eu agir?” 

“Agora, mais do que nunca, a pandemia botou a gente para refletir sobre valores que até então a gente não estava muito atento ou que não queríamos olhar no espelho e enxergar que um pedaço desse mundo tem a nossa cara também”, diz Fabio

“Então, se a gente parar para pensar que esse vai ser o passado, que esse já é o passado de um futuro muito próximo, que mensagem que a gente quer deixar para os filhos do futuro?”, reflete o cantor.   

“É fácil fazer rap assim, vindo de onde eu vim” 

Brazza conta que sua paixão pelo rap se desenvolveu ao longa da vida, principalmente porque esse gênero musical juntava duas coisas que ele sempre gostou: o ritmo e a poesia. “Meu avô era poeta concreto, Ronaldo Azeredo. Eu cresci com muita influência poética da literatura, do samba — que meu avô gostava muito. Então, naturalmente, eu amava aquilo”. 

Ele ainda revela que nunca sonhou em viver de música, e que brincava de fazer rima e poesia desde muito cedo, tentando escrever igual aos autores e sambistas que seu avô lhe apresentou. Porém, tudo mudou quando o rap entrou em sua vida.  

“Aquilo era um prato cheio de tudo que eu gostava e principalmente da mensagem social, que era algo que eu já era tinha desde moleque, sempre fui muito rebelde desde cedo e também muito questionador. Então eu acabei me enxergando no rap, sabe? A história daquele jovem que quer mudar o mundo e lutar contra o sistema”, explica.  

“O rap foi pra mim um livro de história de um Brasil que, até então, ninguém tinha me contado. Ele me fez reconhecer meus privilégios e me fez querer sair da minha bolha e ver o que é o Brasil de verdade. O rap me fez resgatar minha consciência”, completa sobre a importância do movimento na pessoa que ele se tornou. 

Essa reflexão sobre seus privilégios e o resgate de sua consciência pode ser vista em muitas de suas músicas, como em “Inquilino da Dor”, onde diz: “É fácil fazer rap assim, vindo de onde eu vim. Se a televisão me fala sim, se a polícia não me faz um boletim. Se no fim, os caras que morrem confundido com bandidos nunca são iguais a mim”. 

Brazza acredita na importância do rap como uma forma de contar o passado daqueles que tiveram “suas histórias apagadas” ou “que nunca tiveram voz na sociedade”. Ele diz encontrar no rap uma forma de expressar toda essa luta e de transparecer toda sua rebeldia de questionar. 

“Hoje, o meu papel no rap é meio que uma ponte, um interlocutor da realidade que eu aprendi com os meus amigos do ‘lado de lá’, negros e da periferia, e contar para o pessoal ‘daqui’”, diz. “Então, quando eu estou falando de racismo, minha intenção não é ensinar o racismo para os negros, muito pelo contrário, longe disso, eu conto o que meus amigos contariam usando os privilégios que eu tenho do ‘lado de cá’”, explica. 

“Rap é tudo que o sistema não queria” 

Em “Armados de Poesia”, Fabio Brazza cita que o samba, no começo do movimento, já foi muito descriminado, principalmente por suas raízes negras. Hoje, com sua popularização, ele já é bem mais aceito. Processo esse que vê certa semelhança com o rap.  

“O rap, ainda hoje, possui todo esse preconceito porque ele denuncia, é como se fosse um cavalo de troia dentro de um sistema que a galera não quer mexer. Existe uma manutenção desse privilégio e o rap desabilita tudo isso, ele traz ideias que vão chocar com isso e as pessoas que não querem abrir mão. Elas vão achando desculpas”, diz.  

Para Fabio, o rap é muito mais que uma música, é uma evolução social que começou e que, agora, está em um momento muito importante.  “Tudo que o rap falou era calado, e aquela voz que começou a ser escutada com os Racionais, hoje tá ganhando força e protagonismo, não só na TV, mas no rádio também, enfim, conforme isso for acontecendo, a revolução vai sendo feita e isso vai incomodando as pessoas que querem conservar aquele status quo que oprimia essas pessoas. E aí vem o choque contra as ideias do Governo e quem apoia tudo isso”. 



Para o cantor, a origem do movimento vem contra tudo o que a sociedade prega hoje em dia, como o armamento da população ou um favorecimento a um grupo já privilegiado historicamente.

“Ninguém quer ver seu privilégio acabar. Dói reconhecer seu privilégio e dói também ter que se descontruir. Pra mim foi um processo muito doloroso, mas o rap me ajudou nisso, brinco e digo que fui catequizado pelo rap, pelo samba”, reflete. 

“Não posso perder tempo falando da roupa que eu visto” 

Hoje, com a popularização do movimento, que já tem sua importância social e cultural mais reconhecida — visto que, desde 2018, o álbum “Sobrevivendo no Inferno” (1997) dos Racionais se tornou leitura obrigatória para quem deseja prestar vestibular para entrar na Unicamp —, Brazza acredita que é importante o rap falar de outras coisas, como o amor e participar da cultura do entretenimento, mas pondera, “apesar de achar que hoje em dia tudo isso está muito uma mesmice, que parece que já virou uma fórmula”. 

Para o rapper, essa nova vertente de Mc’s que escrevem letras com um viés mais de ostentação, faz parte de um empoderamento e de uma luta que há muito tempo lhes foi negada. “Eu entendo que em alguns casos não chega a ser uma apologia ao consumo, mas como se fosse a representação de uma resistência... Do tipo: ‘ó, tudo que vocês negaram pra gente, agora a gente tem’”. 

Porém, acredita que essa banalização pode ser muito perigosa, já que pode passar a ideia para um “moleque de periferia que vencer na vida é ter um tênis ‘xis’ ou tal marca de roupa”, explica. “Normalmente, quem são os donos desse mercado de roupa são outros brancos. Então o dinheiro que você tá gastando, de certa forma, tá sendo usado para manter esse privilégio". 

“Nisso, o rap que sempre questionou o sistema, de repente vira uma parte dessa engrenagem. Isso é tudo que o sistema quer, fazer você acreditar que se você precisa ter aquilo para ser um vencedor. Então você trabalha e compra, e assim que gira a máquina do capitalismo”, completa.   

Para Fabio, a principal mensagem que o rap tem que continuar fomentando são as pautas sociais. “Me desculpa quem tá fazendo música falando que usa a roupa tal e tudo mais, mas eu questiono tudo isso com as coisas que estão acontecendo. Como eu digo em Queima de Arquivo: ‘Se o corpo de Amarildo ainda não foi visto, não posso perder tempo falando da roupa que eu visto’. Não é hora pra isso”. 

“O que você faria se tivesse o Anel de Giges?” 

Uma de suas grandes virtudes na sua música, diz Brazza, é de usar a arte como transformação social e individual. “Eu fui transformado pela arte. Então eu canto minha verdade, canto os livros que eu li. As coisas que eu vi vão estar no cenário da minha música”. 

Um desses exemplos pode ser visto em diversas de suas letras, como, por exemplo, no hit ‘Anel de Giges’. Lançado em 2017, a música mistura o ritmo e poesia como uma imersão por dentro de um artefato mítico e mágico mencionado pelo filósofo Platão — que explica quem que possuir o anel tornaria-se invisível. 

Assim, o pensamento do filósofo foi transportada para toda a sonoridade e rimas do poeta: “Pensa bem antes de responder. Se ninguém pudesse te ver, o que será que iria acontecer? Afinal, você faz o bem por que é bom ou por que a moral diz que é o certo a se fazer?”. 

“Quando eu vejo quando eu consigo, num vídeo, um reconhecimento por cantar um rap falando de filosofia, que hoje tem mais de um milhão de views, pra mim é uma coisa sensacional”, diz Brazza.

"O meu avô fazia poesia e eu também cresci pensando que poesia era coisa de velho, e tudo mais. Ainda mais porque ele falava pra mim: ‘ih, viver de poesia no Brasil é impossível’”, recorda.  

Hoje, Ronaldo Azeredo, avô de Fabio Brazza, já não está mais entre nós, mas o rapper fica feliz por manter a herança de tudo que lhe foi ensinado. “Eu penso: ‘caramba, eu vivo de poesia poxa, eu conseguir popularizar a poesia, eu consegui fazer moleques ouvirem Fabio Brazza e também quererem ser poetas’”, comemora. 

“Então eu penso: ‘Pô vô, eu tô conseguindo manter seu legado. Tô mantendo a poesia viva’. Apesar de ser outro tipo de poesia, outro tipo de linguagem, mas que não deixa de ser a continuação de uma luta”, conclui. 


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