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Raptados pelo circo: a saga dos irmãos albinos George e Willie Muse

Arrancados dos pais aos 6 e 9 anos, os jovens cresceram na estrada e foram tratados como aberrações

Pamela Malva Publicado em 20/05/2020, às 08h00

Willie, o showman Al G Barnes e George, respectivamente
Willie, o showman Al G Barnes e George, respectivamente - Divulgação

Em um dia comum de outubro de 1927, Harriett Muse viu uma cena que nunca mais pensou que presenciaria: seu dois filhos, George e Willie, juntos, vivos e bem. Ela não colocava os olhos nos meninos há 13 anos e não poderia estar mais emocionada.

A mulher irrompeu entre a multidão que se formava em torno dos jovens. “Aí está nossa querida mãe”, teria dito George ao seu irmão “ela não está morta!” Os dois largaram os instrumentos que tocavam e correram até os braços saudosos da mãe.

Anos antes do encontro emocionante, George e Willie desapareceram de sua cidade natal, em Virgínia, e foram transformados em atrações de circo. Ao lado de mulheres barbadas, gigantes, anões e outras 1,6 mil pessoas, foram chamados de Eko e Iko.

George e Willie, já no circo / Crédito: Divulgação

O começo de uma saga

Duas histórias principais sobre o sequestro dos irmãos Muse são consideradas por entusiastas. A primeira delas trata de um sequestro, pura e simplesmente. Segundo essa teoria, os meninos teriam sido capturados por um caçador de aberrações.

Aos 6 e 9 anos, respectivamente, George e Willie estavam trabalhando em um campo de tabaco quando foram vistos por James Herman "Candy" Shelton, em 1899. Os meninos moravam Condado de Franklin, em Virgínia, com os pais.

Naquela época, Candy buscava por atrações tão atrativas quando os gêmeos siameses da Tailândia, ou os irmãos anões do circo de P.T. Barnum. Por isso, imaginou ter encontrado seu pote de ouro quando viu as duas crianças albinas.

Uma segunda teoria acredita que a própria Harriett teria entregado seus filhos ao circo, a fim de poupá-los da sociedade racista e segregacionista que se instalava nos Estados Unidos. Os dois, então, teriam sido sequestrados por Candy.

A vida na estrada

Logo que chegaram ao circo Ringling Brothers, George e Willie receberam os apelidos de Eko e Iko e foram descritos como canibais do Equador com cabeças de ovelhas. Também foram tratados como homens-macaco e ministros de Daomé.

Incrivelmente sensíveis à luz, os irmãos albinos eram obrigados a deixar que seus dreadlocks crescessem. Em apresentações, tinham seus cabelos puxados pelo público branco curioso e preconceituoso.

As apresentações de George e Willie eram extremamente lucrativas e um espectador chegava a pagar US $ 30 por uma foto com os dois. Os irmãos, é claro, nunca viram a cor do dinheiro que ganhavam no circo.

Retrato de George e Willie / Crédito: Divulgação

 

Um fenômeno

Por anos, os irmãos Muse eram considerados uma enorme atração. Eles eram diferentes de todos os outros negros tratados como aberrações e conquistavam o público com sua pele clara e músicas alegres — pelo menos para aqueles que assistiam aos shows.

Nesse momento, jornais e tablóides já diziam que John Ringling, dono do circo, havia encontrado George e Willie flutuando na costa de Madagascar. Pouco sabiam os espectadores intolerantes que aqueles homens enjaulados eram seus conterrâneos.

Os dois irmãos seguiram se apresentando por anos a fio. Vestiam as roupas que eram obrigados a vestir e viajavam pelo país, ganhando um dinheiro que nunca poderiam aproveitar por conta própria.

O começo de uma luta

Naquele dia em outubro de 1927, quando reencontraram sua mãe, os dois homens já estavam mais do que acostumados com a vida do circo. Haviam sido sequestrados, mas já fazia muito tempo e não tinham mais para onde ir.

George e Willie ao lado de seus pais / Crédito: Divulgação

 

Quando colocou os olhos nos seus meninos, no entanto, Harriett decidiu que deveria fazer alguma coisa por eles. Trabalhando como doméstica e lavadeira em Roanoke, na Virgínia, ela descobriu, apesar de analfabeta, que seus filhos estavam na cidade.

Tratou de encontrar George e Willie e, daquele dia em diante, lutou pela liberdade dos jovens. Procurou embasamento legal e ergueu seu punho flamejante até seus últimos dias. Conseguiu até mesmo uma quantia das apresentações dos meninos e comprou uma casa onde eles pudessem morar quando estivessem livres.

Harriett, no entanto, morreu antes que pudesse assistir a justiça acontecendo, em 1942. George e Willie continuaram se apresentando nos Estados Unidos e no exterior, até se aposentarem, em meados de 1950.

Por fim, os irmãos tornaram-se proprietários da casa que sua mãe comprou e por lá tiveram suas próprias famílias, sendo reconhecidos como dois dos poucos negros donos de terras afro-americanas. George, então, morreu em meados de 1972, enquanto Willie viveu intensamente até os 108 anos, falecendo apenas em 2001.


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