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Das ratazanas ao desgaste fisico e mental: a saga dos veteranos de 1918

Não era possível saber por que ele lutava. O fato é que o inimigo de todos os veteranos eram ratazanas e marcas físicas e mentais

Márcio Scalércio Publicado em 05/07/2020, às 09h00

Para os veteranos, a paz conquistada era apenas um intervalo para uma nova guerra
Para os veteranos, a paz conquistada era apenas um intervalo para uma nova guerra - Getty Images

O veterano de 1918 não sabia se a Grande Guerra terminaria naquele ano, e muito menos se atrevia a apostar se ele próprio sobreviveria mais um dia, uma semana ou mesmo mais um mês. Certamente tratava-se de um especialista naquele tipo de aposta, a da sobrevivência. Em 1918, depois de tantos anos de guerra, uma guerra que merecia o adjetivo de “Grande”, pois parecia que iria durar para sempre, naquela altura, praticamente só restaram os sobreviventes, isto é, os especialistas.

O veterano de 1918 se espalhava pelos vários exércitos. Era o Fritz, o Tommy, o Pierre, o Mustafá, o Marcello, o Ahmed, o N’ingate. O Ivã, que pensara ter escapado daquele interminável inferno em 1917, malgrado seu, devia desde então tentar sobreviver à sua própria guerra civil. Lutava pela revolução ou contra a revolução. Mas, em todo caso, ainda lutava. Não mais contra o Fritz ou o Mustafá. Era Ivã brigando contra Ivã, como acontece nas guerras civis.

O veterano de 1918 podia ser, inesperadamente, pulverizado por uma bala de canhão, por um balaço de atirador de elite. Enquanto nada disso acontecia, no serviço nas trincheiras, procurava um canto quente para dormir, não perder a hora da sopa, catar um belo naco de pão, lutar contra as infestações de piolhos no verão e contra o frio no inverno. Seu pelotão participava da caça contra as ratazanas, infinitas e gordotas de todas as carnes, incluindo a humana, que encontravam nas paisagens assoladas pela guerra. Isto posto, depois de morto, o veterano de 1918 perigava servir de refeição das ratazanas gordotas, as inimigas de todos os veteranos em cada um dos diferentes exércitos.

Em 1918, não era de bom alvitre indagar aos veteranos por que lutavam. O veterano de 1918 resmungava e praguejava. Reclamava de seus líderes políticos que longe do front clamavam por bravura, pela defesa da pátria e bradavam que Deus estava com eles. Após a retórica do heroísmo não compartilhado e das bravatas divinas, o Executivo e o Legislativo se esbaldavam nos cafés e lupanares do baixo meretrício. Quanto a Deus, ele nada tinha a ver com aquilo. A Grande Guerra era um teatro constante na lista do livre-arbítrio humano. Os sacerdotes, os popes, os mulás, os rabinos e os capelães faziam o que podiam pelo conforto espiritual dos soldados, mas seu chefe supremo, Deus, lavara suas mãos fazia tempo.

O veterano de 1918 resmungava contra seus generais. Nos palácios confortáveis que lhes serviam de quartel, a quilômetros do front, planejavam ofensivas custosas e assassinas. Logo depois, após examinarem os números de cada desastre, as horrendas listas de baixas, os generais mordiam a fronha em camas quentinhas. O veterano de 1918 praguejava contra tudo – e todos. Xingava o clima, o inimigo, a comida, os piolhos, as ordens do dia, todos os santos e a legião de demônios. Não estava lá mais nem pela pátria, nem em defesa da cultura ou da civilização. Simplesmente estava lá, naquela guerra sem fim, como bem descreve a letra de uma canção entoada por soldados ingleses em 1918: “We are here because we are here. We are here because we are here”.

A letra era essa e não podia ser mais eloquente. 

Cena do filme 1917 (2019) / Crédito: Divulgação/Universal Studios

 

Nas breves licenças, quando era permitido visitar seu lugar de origem, o veterano de 1918 não reconhecia mais sua casa, sua família, sequer seus amigos. A conversa mole dos civis só lhe causava irritação. Sua namorada se encantara com outro. Seu cachorro fugira ou havia morrido. Ele estranhava a própria cama. Sentia-se incomodado com os carinhos da mãe, das irmãs e da avó. Se fosse aliviar seus desejos com as meninas da vida, as moças alegres das casas da luz vermelha, era atarantado com os panfletos do governo alertando sobre as doenças venéreas, sem contar as perseguições da polícia militar. Para o veterano de 1918, até o prazer era regulamentado, interferido, xeretado, enquadrado. 

Caso resolvesse dar um pulinho na igreja, quem sabe, uma ajuda divina não fazia mal a ninguém, o veterano de 1918 poderia deparar-se com uma das paredes laterais da igreja, onde estavam listados os nomes e às vezes os retratos de colegas que tombaram em anos anteriores. Lá estavam veteranos de 15, 16 e 17. Os que morreram em 1914 nem sequer tiveram tempo para se tornarem veteranos. Lembrava-se de alguns deles. De outros não. O veterano de 1918 tinha muito com o que se preocupar, sua cabeça estava tomada pelo desejo de sobreviver, restando escasso espaço para a memória.

Mas o tempo da licença durava pouco, e logo o veterano de 1918 retornava para aquilo que havia se tornado o seu lugar, o front. De volta aos sons, aos cheiros, à umidade e à tensão que jamais permitia um alento. Se reaproximando da morte que lhe oferecia um sombrio abraço. O veterano de 1918 reencontrava seus camaradas, atualizava-se das novidades: fulano morreu, sicrano foi para o hospital – que sorte a dele –, Rex, o vira-lata da companhia, eliminara 70 ratazanas: era o novo campeão do regimento. Todos paparicavam aquele cão, que sabia como ninguém sumir durante bombardeios. Depois, quando as coisas se acalmavam, reaparecia empoeirado e lambendo as partes. Afinal, Rex também era um veterano de 1918.

Quando finalmente veio a paz, o armistício, o cessar-fogo, o veterano de 1918 percebeu que, no fim das contas, cumprira seu mais importante dever. Não era com a vitória ou com a pátria imaculada. Seu dever era sobreviver. A paz por seu lado, quer a dos vencedores, quer a dos vencidos, conforme ele perceberia com o tempo, não cumpriria as promessas acenadas pelos líderes que incentivaram aquela guerra. A paz conquistada seria nada mais nada menos do que um intervalo para uma nova guerra. Era uma paz de decepções.

O veterano de 1918, durante essa paz de intervalo, poderia ter feito muitas coisas. Talvez, decepcionado com tudo e com todos, aderisse às marchas dos camisas negras ou dos camisas pardas. Não nos esqueçamos que tanto Mussolini quanto Hitler eram veteranos de 1918. Ou então desejasse seguir a bandeira vermelha da União Soviética, que conclamava os trabalhadores do mundo inteiro a que se unissem e arrebatassem o poder. Podia até ser que não sentisse atração pela política, desejasse uma vida pacata, o que não quer dizer que mesmo isso lhe seria permitido. No pós-guerra, é digno de nota, que as filas dos desempregados não paravam de crescer. Finalmente, a mais triste das hipóteses: após sobreviver aos desastres da guerra, acabasse fulminado pela gripe espanhola. Sofrer tanto, padecer tanto, para no final morrer de gripe. 

Independentemente de seu destino, porém, uma única coisa jamais deixaria de ser, até o seu último suspiro, por cada minuto de sua vida: nunca perderia as marcas físicas e mentais que fizeram dele um veterano de 1918.


Por Márcio Scalércio - Professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio


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