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Reconquista: A queda do Islã na Península Ibérica

Por quase 800 anos, portugueses e espanhois lutaram com os mouros. A ocupação deixou marcas definitivas

Cristiano Dias Publicado em 02/01/2019, às 11h00

Reconquista
Reprodução

O Sol nem havia se levantado e o calor já anunciava outro dia quente. O verão na Andaluzia sempre foi seco e interminável. De seu acampamento, às margens do rio Guadalete, Tariq Ibn Ziyad, um oficial muçulmano a serviço do governador de Tânger, viu surgir no horizonte uma multidão de soldados. Cerca de 40 mil homens do exército cristão visigodo comandado por Rodrigo, duque da Bética e homem-chave do maior reino germânico do Ocidente, se aproximavam. Era 19 de julho de 711 e seus milhares de soldados em breve travariam uma batalha que mudaria para sempre a história da península Ibérica.

A visão de Tariq mostrava-se aterradora. Os visigodos pareciam monstros. Enfiados em gigantescas armaduras e enfileirados disciplinadamente ao longo das colinas, somavam mais de dois cavaleiros para cada guerreiro árabe, que não empunhava nada além da espada e de sua fé no Corão. A seu favor, tinha uma tropa descansada, que entraria em combate contra um inimigo que marchara por dois meses para a batalha. Tariq sabia disso e não permitiu que os cristãos descansassem.

Ainda pela manhã, deu a ordem de ataque. O que se viu a seguir foi uma lenta carnificina. Em menos de uma semana, os árabes, mais leves e ágeis, passaram pelo fio da espada a nata do exército visigodo. Ao fim de cada dia, havia tantos corpos pelo campo de batalha que ficava impossível identificar os mortos. O banho de sangue foi interrompido quando as tropas cristãs perceberam que seu líder desaparecera, provavelmente entre os milhares de cadáveres. Sem Rodrigo, a Batalha de Guadalete terminou com suas tropas fugindo apavoradas.

Antes do término do ano, os árabes conquistariam Córdoba e a capital, Toledo, sem encontrar maiores resistências. Em 712, caiu Sevilha. No ano seguinte, foi a vez de Huelva, Faro, Beja e Mérida. Em 714, Burgos, Leão, Viseu, Évora, Santarém, Coimbra e Lisboa. Em 716, Braga, Porto e toda a Catalunha estavam sob o domínio de Alá. Em pouco tempo, os muçulmanos varreram a península Ibérica. Cada vez mais confinados ao norte, os cristãos tentavam sobreviver à onda de ataques.

Do outro lado, animados pela facilidade das vitórias, os mouros passaram a lutar além dos Pirineus, em território francês. Finalmente, em 732, foram vencidos em Poitiers pelo franco Carlos Martel. Mas, se a derrota impediu o avanço do islã ao norte da Europa, não significou o fim de sua influência no sul. Até 737 os árabes tomariam Arles, Avignon, Lyon e o vale do Ródano e ficariam na península e parte da Europa por um longo período.

Herdeiros de Maomé

 


Mouros vs. Cristãos  / Francisco de Paula Van Halen

Maomé morreu em 632, depois de unificar os povos da península Arábica. Como foi possível transformar um pais de nômades na maior potência do planeta em pouco mais de 100 anos? Os historiadores concordam que o fator principal para a expansão fulminante foi a decadência dos grandes impérios – bizantino, persa e romano –, já pulverizados em vários reinos germânicos. “Em todos esses lugares, a peste e a fome dizimavam populações inteiras, que recebiam os árabes como salvadores da pátria”, diz Albert Hourani, autor de Uma História dos Povos Árabes.

“Quando chegaram à Espanha, os árabes encontraram o reino visigodo no caos. Entre 707 e 709, houve uma seca sem precedentes, que arrasou as colheitas e espalhou a fome. Além disso, a enorme colônia judaica estava sendo perseguida. Assim, camponeses e judeus receberam os mouros de braços abertos”, afirma o historiador espanhol José Manuel González Vesga, autor de Breve Historia de España (sem tradução).

Depois de serem recebidos como libertadores, era hora de botar ordem na casa, o que demorou outro meio século. De 711 a 756, o poder árabe na península Ibérica foi exercido por dezenas de emires, a maioria escolhida pelos árabes instalados na península. Na prática, isso significava que o poder central, por mais poderoso que fosse, perdia a força com a longa distância.

Não foi à toa que, a partir de 1031, com o desmembramento do califado, os cristãos começaram a ganhar terreno na península Ibérica. Com exceção de Barcelona, retomada em 801, e Porto e Braga, em 868, todas as outras grandes vitórias cristãs ocorreram após a queda do califa de Córdoba. Como Coimbra, recuperada em 1064. Madrid, em 1083. Toledo, em 1085. Zaragoza, em 1118. Sevilha, em 1248.

Granada, última fronteira


A rendição de Granada / Francisco Padilla Ortiz

Apesar das vitórias, os cristãos demoraram mais 200 anos para terminar o serviço. Só conseguiram depois de resolver as divergências internas. Em 1469, Fernando de Aragão se casou com Isabel de Castela, e a coroa espanhola foi unificada. A situação dos árabes estava insustentável. Eles se confinava na cidade de Granada. Era pouco provável que conseguissem suportar a pressão de uma Espanha unida.

Depois de uma longa trégua, a guerra recomeçou em 1482, com as tropas de Fernando conquistando pequenas localidades próximas à última capital árabe da península. Em 1490, o rei armou seu acampamento nos arredores de Granada. Em seguida, ordenou a de-vastação de vários campos cultivados perto de suas muralhas e esperou o inverno chegar. Fernando sabia que seria muito arriscado lançar um ataque contra as 1.030 torres que protegiam Granada. Daí veio a ideia de cortar os suprimentos e fazer com que a fome se incumbisse de derrotar o inimigo.

Percebendo que os espanhois não atacariam, Abu Boabdil Abdullah, rei dos mouros, ordenou uma série de ataques provocativos para fustigar uma reação dos soldados de Fernando. Mandou que fossem arremessadas lanças no acampamento espanhol com insultos amarrados na ponta. Como nada dava certo, orientou seus homens a desafiar individualmente os cavaleiros de Fernando para duelos. Durante algum tempo, os espanhois perderam boa parte dos homens nesses combates, até que Fernando proibiu sua tropa de aceitá-los.

Em julho de 1491, um acidente quase matou a família real espanhola. A noite, a rainha Isabel deixou que um lampião caísse e queimasse sua tenda. O vento espalhou o fogo e logo o acampamento inteiro estava em chamas. Os árabes tentaram se aproveitar do caos nas linhas inimigas, atacando com a infantaria. O resultado foi desastroso para o rei mouro, Boabdil. Com boa parte de seu exército fora de combate e apenas 300 cavalos vivos – dos 7 mil iniciais –, ele viu Fernando avançar em direção à muralha.

Os espanhois cortaram toda a comunicação da cidade e impediam a chegada de reforços. Sem comida, não existia outra saída senão a rendição. Em 25 de novembro, assinaram-se os termos. Os mouros teriam direito a manter sua fé e quem quisesse ganharia uma passagem de volta para a África. Em troca, a cidade deveria ser entregue. Em 2 de janeiro de 1492, Fernando e Isabel marcharam triunfantes pelas ruas do último bastião árabe na Espanha.