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Rei João: a morte por disenteria que mudou o rumo da Inglaterra

A doença, além de vitimar o inglês, também acabou ceifando a vida de outros monarcas; atualmente, a disenteria acaba sendo extremamente nociva para as crianças

Gabriel Fagundes Publicado em 19/03/2020, às 14h00

O rei João não trava cordialmente seus aliados e era considerado um predador sexual das mulheres
O rei João não trava cordialmente seus aliados e era considerado um predador sexual das mulheres - Wikimedia Commons

Faz 804 anos desde que um dos mais rejeitados monarcas, o rei João, veio a falecer de disenteria (diarreia intensa que ocasiona sangramento e óbito). Por isso, seu desprestigiado império veio se encerrar num banheiro, no castelo Newark, em outubro de 1216.

João não era bem visto por conta de detalhes de sua biografia ter recebido um alarde bem negativo, como o de ter sido considerado um predador sexual das mulheres e filhas dos nobres, além de ser abusivo com os aliados e rivais. Destempero e atitudes que irritaram profundamente a elite.

"Ele não apenas matou, ele foi sádico. Ele assassinou pessoas usando a fome. E não apenas cavaleiros inimigos, mas certa vez a mulher e o filho de um rival." Também "ele foi um completo idiota", diz Marc Morris, autor do livro King John: Treachery, Tyranny and the Road to Magna Carta (Rei João: Traição, Tirania e o Caminho para a Magna Carta).

O papa Inocêncio III ficou tão desapontado que o excomungou e ordenou o fechamento de igrejas na Inglaterra. Medida que rumou o país a uma guerra civil e, sucessivamente, ao estabelecimento tanto da Magna Carta quanto à dedicatória do trono ao príncipe Luis, da França.

O pontíficie Inocêncio III que reprovou os comportamentos de João / Crédito: Wikimedia Commons

 

Contudo, nos momentos de batalha João foi desfalecendo e ficando enfermo após percorrer a região central da Inglaterra, onde parou em Newark e posteriormente morreu. Há diversos ruídos sobre a verdadeira causa de sua morte, os rumores vão desde a ingestão de pêssegos verdes, consumir muita cerveja, até ter sido intoxicado com o veneno de sapo.

"João estava em uma marcha, lutando uma guerra, sob uma grande tensão. Ele estava provavelmente exausto fisica e emocionalmente e as condições de vida durante uma marcha são primitivas, não importa quem você seja”, esclarece Iona McCleery, especialista em medicina medieval da Universidade de Leeds.

Também coloca: "Dizer que João morreu devido a excessos é uma forma de criticar sua personalidade. Isso implica destemperança, gula e imprudência”. Agora, se ele foi “envenenado mostra que ele era odiado. Qualquer que seja a verdade, aqueles que escreveram a história não tinham nada de bom a dizer sobre ele”.

John em uma caça ao veado / Crédito: Wikimedia Commons

 

Porém, depois que foi proclamado o óbito do monarca a guerra civil cessou, e o príncipe Luis acabou sendo expulso da Inglaterra. O equilíbrio voltou e a Magna Carta foi vigorada. Entretanto, a disenteria retornaria para o infortúnio de outros reis ingleses, e Eduardo I foi mais um afetado pelo mal. Conhecido como Longshanks ou "martelo da Escócia", faleceu no momento em que se dirigia para iniciar uma nova guerra contra o rei da Escócia, Robert the Bruce, em 1307.

Henrique V também foi vitimado pela mesma adversidade, herói de Agincourt, no período da campanha militar na França em 1422. Em decorrência Henrique VI foi coroado a rei aos nove meses de idade e, quando adulto, mostrou-se inapto para a função na custosa Idade Média. Nisso, a França foi mergulhada em rebeliões que deram origem à Guerra das Rosas, onde dividiu a Inglaterra até 1485.

Todavia a morte de João foi a que ganhou protagonismo na história do país. Marc Morris pontua: "Muitos reis do passado podem ser considerados cruéis pelos padrões atuais, mas João era cruel, covarde e um fracassado. Ao morrer naquele momento significou que a Magna Carta, que ele havia (assinado e depois) rejeitado, pôde ser reinstituída". Sendo ela o fundamento dos direitos individuais na jurisprudência europeia e americana.

Embora a disenteria tenha um ar retrógado, ela ainda é muito nociva até para os países em desenvolvimento. Segundo o que informa a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que cerca de 900 mil pessoas não sobrevivem aos seus efeitos todos os anos, sendo a maioria das vítimas crianças pequenas.


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