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Relógios parados e cachimbo fumado pela metade: A casa abandonada que parou no tempo

Uma fotógrafa visitou a residência na Irlanda do Norte em 2017 e documentou antigos objetos intactos, como fotografias e um jornal que noticiava o naufrágio do Titanic

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 12/02/2021, às 08h00 - Atualizado em 13/02/2021, às 01h29

Foto de Rebecca Brownlie da casa abandonada
Foto de Rebecca Brownlie da casa abandonada - Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

Como seria se uma casa simplesmente parasse no tempo? A fotógrafa e arquivista Rebecca Browlie não precisou nem imaginar. Quando ela visitou uma antiga residência em uma fazenda abandonada perto da cidade de Cookstown, no interior da Irlanda do Norte, foi isso que ela viu.

“Eu preciso admitir que quando eu vi o exterior da casa eu não tinha certeza que seria uma visita legal”, confessou ao The Belfast Telegraph em 2020, quando as fotografias da casa ganharam relevância internacional. “Mas assim que eu abri a porta, fiquei impressionada. Ela era praticamente um museu histórico.”

Crédito: Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

 

A casa teria paralisado no século 20, mostrando o local como ele possivelmente era naquela época: mobílias, objetos, jornais e até mesmo um cachimbo fumado pela metade estavam intactos naquele ambiente.

Browlie tirou fotos do exterior e interior da moradia e as publicou em seu site 'Abandoned NI', onde mostra ao público fotografias de lugares abandonados, como foi o caso da casa de Cookstown. O domicílio foi demolido após as visitas da fotógrafa, que aconteceram entre dezembro de 2017 e abril de 2018.

Parada no tempo

Crédito: Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

 

O local ficou vazio depois que o último dos três irmãos que ali moravam morreu. Todos os objetos encontrados pertenciam a ele, um homem que é identificado apenas como “Dessie”, que acabou não se livrando dos itens antigos de sua família, segundo o Daily Mail. O que se sabe dele é que Dessie era um fazendeiro e, segundo Browlie, um “cozinheiro fabuloso”.

“Entre muitas coisas, ele era um cozinheiro fabuloso, muitos amigos ainda falam sobre seu famoso pão de soda que ele cozinhava no fogão original. Ele era um fazendeiro vigoroso, ordenhando vacas para produzir leite e manteiga”, disse a arquivista.

Existiam diversos indícios que demonstravam que a casa tinha sido esquecida no tempo. O mais clássico de todos estava presente: inúmeros relógios parados estavam no interior da residência.

Crédito: Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

 

“Uma vez que dei uma volta por cada sala e dei uma olhada adequada, fiquei impressionado com os itens históricos que foram deixados aqui. Este foi literalmente o diamante bruto”, contou.

No local, ela identificou ainda um óculos, latas de comida fechadas, livros, revistas, fotografias da época e jornais — tudo completamente empoeirado. Os últimos itens eram ainda mais interessantes, pois mostravam a data de quando foram publicados.

Uma das publicações era o Mid Ulster Mail de 1917, ano impresso em sua capa. Outras notícias importantes da época também puderam ser lidas na casa. O naufrágio do Titanic de 1912 estava estampado em um dos jornais, e outros datavam de 1811.

Crédito: Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

 

Seus sapatos, por exemplo, estavam ao lado de sua cama, e um cachimbo fumado pela metade preenchia a mesa da casa, repleta de outros objetos, inclusive uma xícara que parecia ter sido colocada por ele pouco antes de deixar o local.

“O plano era derrubar a casa e construir uma nova, mas todos os interessados ​​queriam que eu gravasse a casa de Dessie antes que fosse demolida”, explicou a fotógrafa. “A casa era um chalé indefinido de um andar e meio, então eu não estava esperando muito quando fui lá em uma manhã de domingo de inverno com a neve no chão”.

Crédito: Divulgação/Daily Mail/Rebecca Brownlie

 

Ela não poderia estar mais errada: Browlie se surpreendeu tanto com a casa que resolveu resgatar alguns objetos mais notáveis da casa e colocá-los em exibição. A arquivista realizou uma exibição com os itens no armazém de Riddel, localizado em Belfast, na Irlanda do Norte.

“Casas como esta são a razão pela qual adoro fotografar e documentar esses edifícios”, afirmou. “Há tantos lugares em todo o país exatamente como este permanecendo intocados e logo eles também irão embora e não teremos nenhum registro de que eles tenham estado lá”.

Conforme repercutido pelo portal de notícias UOL, relatos indicam que Dessie, o último morador, acabou se mudando para um lar de idosos em 2015, contudo, veio à óbito dois anos depois.


**Errata: A reportagem errou ao não mencionar que os itens presentes na residência eram de antigos familiares, além do ano da morte do último morador.