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Renato Russo 'previu' a morte de Kurt Cobain: "Esse vai embora rapidinho"

O 'Trovador Solitário' relatou que seu estilo de vida era idêntico ao do líder do Nirvana, detalhando passagens obscuras

Wallacy Ferrari Publicado em 20/03/2022, às 08h00

Renato Russo (esq.) e Kurt Cobain (dir.) em montagem
Renato Russo (esq.) e Kurt Cobain (dir.) em montagem - Wikimedia Commons / Divulgação / Julie Kramer

Em 30 de março de 1994, o vocalista da Legião Urbana, Renato Russo, estava na reta final da produção de seu primeiro álbum solo, o "The Stonewall Celebration Concert", que lançava para auxiliar a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, promovida pelo sociólogo Herbert de Souza e que Renato fez questão de destinar parte dos royalities.

Na ocasião, uma entrevista do músico gravada naquele mês ia ao ar pelo MTV No Ar, adaptação brasileiro do que era o MTV News na época. Em extensa conversa, o cantor abordou as dificuldades de turnê, as inspirações para o álbum, passagens com a banda e um fator em específico sobre sua vida pessoal: os abusos de drogas e álcool.

Assumindo fazer parte do programa dos “12 Passos” dos Alcoólicos Anônimos, a repórter que conduz a entrevista indaga Renato sobre Kurt Cobain, que no início daquele mês, já havia sofrido de uma comentada overdose em Roma, na Itália, que resultaria no cancelamento da turnê do álbum ‘In Utero’, do Nirvana. O brasileiro rapidamente interrompe e faz um desabafo sobre o futuro do astro norte-americano.

Tragédia anunciada

Abruptamente, Russo brinca da situação comparando suas passagens anteriores de impulsividade e excessos: “Esse vai embora rapidinho! Kurt, por favor, Kurt! Eu era do mesmo jeito… era exatamente do mesmo jeito. [...] O Kurt, tadinho, tomando roupinol, champagne e plumba! Ih, eu já passei por tudo isso!”.

Na fala, ele reconhece que a depressão, expressa publicamente pelo líder da banda de Seattle, também é motivada pela interferência química das drogas e do álcool, mas deve ser tratada com sensibilidade, visto que também há dificuldade no enfrentamento destas questões em meio a desmotivação.

Eu gostaria que o Kurt Cobain ficasse numa boa, mas dá para perceber que ele é um cara que tá com muita dor. E muita, muita dor. E, de repente, cria-se esse circo em volta [sobre a interferência da imprensa], que no começo é até divertido e tudo, mas eu já passei por isso e eu acho que isso não é necessário”, acrescenta.

Ao ser perguntado sobre o fato de Kurt ser jovem, Renato diz que “tem gente que não aprende e morre”, citando grandes nomes como Jim Morrison, Janis Joplin e Sid Vicious, mas existem outras pessoas que aprendem, como John Lennon, Lou Reed e, em especial, Eric Clapton, que enaltece afirmando que é “colega dos 12 Passos”.

Dito e feito

A tragédia se concretizou em 5 de abril de 1994, seis dias depois da entrevista de Renato se concretizar, com Kurt sendo encontrado morto no sótão de sua residência. Aos 27 anos, Cobain se suicidava, deixando para trás uma geração de fãs, a esposa Courtney Lovee uma filha, com quase dois anos de idade.

'Caminho de Kurt Cobain'

Ainda naquele ano, Renato teve outra oportunidade para falar sobre os vícios em entrevista ao talk-show de Jô Soares, citando que voltaria a excursionar com o Legião Urbana pelo país e só pôde retornar aos palcos devido ao êxito na recuperação, acrescentando que "estava indo pelo caminho de Kurt Cobain", chamando atenção do apresentador.

acrescenta que "não lhe entrava na cabeça" a morte de um rapaz jovem e "super talentoso" era motivada tão repentinamente pelo abuso de drogas. O cantor enalteceu que, apesar do uso, deve ser reconhecido como doença conforme a Organização Mundial da Saúde classificou em 1965.