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A repentina execução de Chang Song-thaek, o tio acusado de conspirar contra Kim Jong-un

Em 2013, o então general quatro estrelas foi anunciado morto, mas dessa vez quem noticiou o fato foi o próprio governo do país

André Nogueira Publicado em 13/02/2020, às 13h35

Chang Song-thaek em foto oficial
Chang Song-thaek em foto oficial - Wikimedia Commons

Em 2013, o canal oficial do governo norte-coreano KCNA surpreendeu o mundo ao anunciar que Chang Song-thaek, um dos líderes do governo do sobrinho Kim Jong-un, fora executado por alta traição.

Longe de ser uma das várias falsidades divulgadas pela mídia ocidental ou sul-coreana sobre o governo de Pyongyang, o caso era de uma informação oficial sobre uma possível sublevação no seio do comando da Coreia do norte.

A morte de Chang foi decretada após um tribunal militar que entrou em sessão para julgar se o político esteve envolvido em núcleos contrarrevolucionários que visavam à derrubada de Kim.

O veículo oficial do governo na televisão anunciou objetivamente: “Traidor Chang Song-thaek executado”, enquanto descreviam o insubordinado como “escória humana” e “pior que cachorro”. Pyongyang não divulgou os atos do processo, mas anunciou que os crimes cometidos foram “provados durante o julgamento e admitidos por ele”.

Song-thaek, além de membro importante do governo na época da execução, era casado com Kim Kyong-hui, irmã de Jong-il e, portanto, tia do atual presidente coreano Jong-un. A posição política e o nível do poder que Thaek tinha no governo são de difícil ponderação.

A que parece, durante o final do governo Kim Jong-il, ele teria assumido a importante posição de líder da Comissão Nacional de Defesa do país, o que o colocaria na linha de sucessão do poder até que Jong-un assumisse oficialmente.

Chang é levado por oficiais militares / Crédito: KCNA

 

Essa posição de Song-thaek pode ter sido fator motriz para uma possível agremiação de membros do governo a favor da saída de Kim Jong-un, dado que seu tio tinha ainda bastante capital político no interior do Partido dos Trabalhadores da Coreia e já teria assumido a liderança do país após a morte do presidente em 2011. Com isso, uma conspiração não seria improvável.

Chang Song-thaek também assumira uma posição perigosa para Kim no final do governo anterior, pois durante o funeral  de Jong-il, ele apareceu vestindo o uniforme de general portanto quatro estrelas no peito (o que significaria uma promoção de cargo). Kim Jong-un, por outro lado, já havia atingido a posição de Marechal, logo acima do cargo do tio. Na época, Chang era denominado "conselheiro político fundamental" do sobrinho.

Quando as acusações de traição de Chang foram comprovadas, uma grande conturbação se formou no Estado Coreano. Mesmo no interior do governo, o caso foi chocante, chegando a possibilitar uma desestabilização do governo Kim. Porém, a rápida ação e a contundência das decisões do judiciário reafirmaram o poder do Líder Supremo, melhorando sua credibilidade.

Chang era um nome de alta confiança de Kim Jong-il, na foto / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com a execução de Chang, foi aberto contra ele um processo de damnatio memoriae, conhecida artimanha política em que são aplicadas sanções contra a memória e a imagem pública de sua figura. Por isso, todas as suas fotos foram abruptamente retiradas da imprensa oficial do governo, sua presença foi removida digitalmente das fotos com dirigentes do país e possíveis monumentos e espaços em sua homenagem foram destruídos.


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