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A Revolta de Stonewall: O início da luta pelos direitos LGBTQI+

Uma série de manifestações contra a invasão policial ao Bar Stonewall Inn e pelos direitos LGBTQI+ foi um importante marco dessa luta social

André Nogueira Publicado em 28/06/2019, às 08h00 - Atualizado às 20h00

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- Reprodução

Hoje em dia, estamos acostumados com a existência de Paradas do Orgulho LGBTQI+, mesmo que ainda haja muito para se lutar em prol da igualdade e da aceitação da sociedade em relação a esses atos. Porém, nos anos 1960, em plena Revolução Sexual, isso era pouco percebido pela sociedade. Até que, em 28 de junho de 1969, um grande marco deu luz à luta na rua pelos direitos LGBTQI+: as Rebeliões de Stonewall.

Uma série de manifestações e brigas de rua tiveram início no bar Stonewall Inn, no bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Numa época em que a homossexualidade começava a ser legalizada pelos EUA — até 1962, era completamente proibida —, a luta contra o sistema judiciário e policial estadunidense exigiu muita coragem e, principalmente, muito orgulho dessas camadas oprimidas da sociedade. Nessa época, eram raros os estabelecimentos dedicados ao público LGBTQI+ e os poucos lugares disponíveis costumavam ser reprimidos duramente pela polícia, institucionalmente homofóbica.

Em 1969, o Stonewall Inn era o único remanescente desses lugares em Nova York. Para existir, os donos do lugar pagavam altas taxas de propina à polícia. Como único espaço livre para ser gay, lésbica, trans, bi, etc, o Stonewall era um lugar bastante precário, mas livre. Era um dos poucos lugares de NY em que homens dançavam e se travestiam — o que era proibido.

Motim de Stonewall / Crédito: Getty Images

 

Mesmo assim, a polícia vivia batendo na porta do Stonewall, prendendo funcionários e agredindo clientes. Em uma dessas batidas, na madrugada do dia 28 de junho, quatro policiais invadiram o bar. Estourou uma grande revolta contra toda a situação de homofobia e transfobia comuns no mundo todo.

No bar, havia 200 pessoas que não permitiram a continuidade dos abusos policiais. As luzes foram apagadas e o som desligado. Era sinal da entrada da polícia! Todos que estavam "vestidos de mulher" foram separados para terem seu sexo conferido. No entanto, no clima de confronto, as pessoas se recusaram a se submeter aos policiais. A corporação, então, decidiu que mandaria todos para a delegacia. A partir daí, a revolta não era mais barrável.

Mulher é agredida por policiais / Crédito: Reprodução

 

Nem deu tempo da primeira viatura de reforço chegar — a revolta estava instaurada com sucesso. Mais de 2.000 pessoas já estavam nos arredores do bar, se acumulando mais e mais, aumentando a tensão no local. Os manifestantes gritavam Poder Gay! e cantavam músicas de protesto. Os policiais, claro, reagiram com violência.

Uma mulher começou a ser agredida e pediu ajuda, que veio em peso: a manifestação começou a atirar tudo o que podiam contra as viaturas e os policiais que abusavam do poder. A violência se instaurou na rua Christopher. Quem estava detido dentro do bar também começou a atirar coisas para fora, contra os policiais, além de atearem fogo em lixos. O local pegou fogo, o que, somado à violenta invasão dos policiais, destruiu o estabelecimento.

Muitos foram presos, ao mesmo tempo em que a credibilidade da polícia diminuía pelas agressões e também pela zombaria dos manifestantes, que humilhavam seus agressores, sem baixar a cabeça. Chagavam mais reforços policiais e de bombeiros, mas a situação já estava fadada: às 4h da manhã, a rua havia sido esvaziada e o bar destruído, mas o recado de resistência e exigência de mudança já tinha sido dado com bastante clareza. E não acabava ali.

O Stonewall hoje, relocalizado / Crédito: Wikimedia Commons

 

Na noite seguinte, milhares de LGBTQI+ voltaram ao local da luta, que tinha sido destruído, para manifestarem suas sexualidades nas vias públicas. Aos montes, gays, lésbicas, bis, travestis e transexuais se beijavam, dançavam e cantavam, ocupando diversas ruas nos arredores do bairro. O Stonewall Inn, mesmo em ruínas, abriu suas portas e mais um ato ocorreu espontaneamente lá. De novo, a polícia foi ao local e deu início a uma batalha que virou a noite. E assim aconteceu nas cinco noites que se seguiram, até que a rebelião foi plenamente contida, à força.

Não podemos esquecer que os anos 1960 foram foco de diversas dessas revoltas em nome dos direitos civis: junto aos movimentos negros e às ondas feministas, os LGBTQI+ também levantaram forças em nome da mudança social. Depois de Stonewall, não havia mais como fingir que essa não era uma questão e a voz LGBTQI+ se tornou central nas lutas pela igualdade. Em poucos meses, todas as grandes cidades dos EUA tinham manifestações pelos direitos dessa comunidade. No dia 28 de junho do ano seguinte, usando a revolta como marco, foi marcada a Primeira Marcha do Orgulho Gay dos EUA.