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Vítima da terrível Gripe Espanhola: a insana trajetória do presidente Rodrigues Alves

Com uma saúde já bastante debilitada, o político não sobreviveu ao cruel episódio que matou mais de 30 milhões de pessoas

Pamela Malva Publicado em 03/08/2020, às 17h12

Obra de Jonas de Barros ao pintar Rodrigues Alves, em 1903
Obra de Jonas de Barros ao pintar Rodrigues Alves, em 1903 - Divulgação/Centro de Memória de São Paulo

Poucos meses antes do final da Primeira Guerra Mundial, um soldado norte-americano se queixou de fortes dores de cabeça. Em treinamento no estado do Kansas, o militar logo se tornaria o primeiro paciente já registado com a terrível Gripe Espanhola.

No dia 4 de março de 1918, o jovem não resistiu aos sintomas da enfermidade e seu atestado de óbito foi rotulado com uma doença que, até então, era desconhecida. Não demorou muito, entretanto, que outros países registrassem as mesmas condições.

Pacientes na França, Bélgica e Alemanha demonstraram ter os mesmos sintomas e, em maio, um festival religioso na Espanha causou um surto da doença — a gripe, inclusive, foi nomeada a partir do episódio. Logo, o Brasil entrou para as estatísticas.

Vindo de Lisboa, o navio Demerara passou pelos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, infectado centenas de pessoas. Uma delas, bastante respeitada pelo povo, foi Francisco de Paula Rodrigues Alves, o quinto presidente da República.

Enfermeiras carregando macas das vítimas da Gripe Espanhola / Crédito: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos

 

Nos braços de Morfeu

Nascido na Fazenda do Pinheiro Velho, em Guaratinguetá, Francisco era o terceiro filho de comerciantes e fazendeiros. Seu pai, vindo de Viana do Castelo, uma cidade portuguesa, construiu a família com as poucas moedas que tinha no bolso, em 1832.

Em meados de 1870, já sonhando com a vida de político, o jovem formou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Rodrigues Alves retornou para sua cidade natal e foi nomeado promotor interino, sendo efetivado logo em seguida.

Três anos mais tarde, após desempenhar o cargo de juiz, ele desempenhou seu primeiro mandato como deputado da província. Aquele era o começo da trajetória política de um homem bastante reservado, conhecido como ‘Morfeu’ ou ‘Soneca’ por sua cômica reputação de dorminhoco.

Pintura de Rodrigues Alves / Crédito: Wikimedia Commons

 

Opiniões políticas

Quando jovem, Rodrigues Alves entrou para algumas associações, sendo a mais expressiva delas conhecida como Burschenschaft, uma sociedade secreta no Largo de São Francisco. Lá, ele ainda ofereceu apoio jurídico aos escravizados do estado.

Na associação Fraternidade Primeira, o jovem conheceu e se tornou amigo de grandes personalidades, como Joaquim Nabuco, Castro Alves Ruy Barbosa e Afonso Pena. Bastante político, ele adorava discursos e se dava bem com os colegas.

Já casado com Ana Guilhermina de Oliveira Borges, Rodrigues Alves foi introduzido à sociedade política de Guaratinguetá por Francisco de Assis e Oliveira Borges. Avô de Ana, o visconde ainda era líder do Partido Conservador da província.

Retrato de Rodrigues Alves em jornal da época / Crédito: Wikimedia Commons

 

Trajetória nos palanques

Com um nome reconhecido entre as rodas mais exclusivas da cidade, Rodrigues Alves passou a colecionar postos políticos. Entre 1879 e 1918, seu nome estampou a porta dos gabinetes de senador, deputado, ministro da fazenda e presidente de São Paulo.

Foi apenas em 1902 que Rodrigues Alves finalmente chegou ao maior posto do país: o de Presidente da República. Seu mandato, no entanto, foi marcado por diversas polêmicas e controvérsias. Naquele momento, por exemplo, nasceu a Revolta da Vacina

A administração do presidente ainda ficou conhecida pela anexação do Acre no território nacional e por uma forte crise econômica, causada pela baixa nos preços do café. Em 1906, ao fim de seu mandato, Francisco mal imaginava que seria eleito novamente.

Fotografia de Rodrigues Alves / Crédito: Wikimedia Commons

 

Felicidade dura pouco

No dia 1º de março de 1918, o político foi escolhido para representar o povo brasileiro mais uma vez. Ele tinha a confiança de seu público votante e sua condecoração estava marcada para dali alguns meses, mais especificamente em novembro daquele ano.

Com fortes dores de cabeça, todavia, o presidente já havia sido diagnosticado com anemia e tinha constantes recaídas quando contraiu a terrível Gripe Espanhola, em outubro de 1918. A cerimônia de posse, que estava tão próxima, teve de ser adiada.

Em novembro daquele ano, o estado de saúde do presidente sem posse se deteriorou. Já bastante debilitado, viúvo de sua esposa e com duas filhas, Rodrigues Alves morreu, vítima da doença estrangeira, no dia 16 de janeiro de 1919.


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