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Leia a entrevista exclusiva com Rosa Parks, concedida dias antes de a ativista falecer

Há 63 anos, ela deu início ao movimento civil pelo direito dos negros nos Estados Unidos ao se recusar a ceder o lugar no ônibus para um branco

sexta 30 novembro, 2018
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Ná década de 1960, nos estados americanos do Sul, como o Alabama, os negros eram cidadãos de segunda classe. Não podiam votar, eram proibidos de entrar em certos clubes, lojas e igrejas e, no transporte público, tinham que dar preferência aos brancos.

Em 1º de dezembro de 1955, essa discriminação foi posta em xeque por uma costureira negra de 42 anos. Cansada e com dores nos pés depois de um dia de trabalho, Rosa ­Par­ks se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco.

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A regra era que havia duas seções, de brancos e negros, brancos na frente, negros atrás. Mas, se houvesse um único branco em pé, o motorista movia para trás a placa que indicava o limite das seções. Mandando os negros mais à frente saltarem para trás ou ficarem de pé. Rosa disse não.

Parks em um ônibus de Montgomery em 21 de dezembro de 1956, data em que a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou ser ilegal qualquer segregação racial no sistema de transporte público de Montgomery Wikimedia Commons

E foi presa. Ao saber da notícia, Martin Luther King Jr. e outros líderes da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People) transformaram o caso de Rosa no estopim da luta contra a desigualdade racial que ficaria conhecida como o Movimento pelos Direitos Civis.

No dia seguinte, os negros de Montgomery iniciaram um boicote aos ônibus, sob a liderança do quase desconhecido pastor de 26 anos. Foram necessários 382 dias até que, em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarasse inconstitucional a segregação racial nos transportes públicos do país.


Entrevista com Rosa Parks

A entrevista a seguir foi concedida dias antes de sua morte, em 24 de outubro de 2005, de causas naturais. É bem possivelmente a última vez em que falou com brasileiros e talvez até mesmo sua última entrevista no mundo. É possível vê-la fazendo planos para o aniversário de 50 anos, em 1º de dezembro de 2005, que ela nunca chegou a ver.

Vão se passar 50 anos desde o dia em que a senhora se negou a dar o lugar para um homem branco num ônibus de Montgomery. O que mudou na vida do negro americano neste meio século?

Rosa Parks - As relações raciais melhoraram muito. Quando aconteceu o incidente do ônibus, a escravidão já tinha terminado havia quase um século [a abolição nos Estados Unidos aconteceu no dia 6 de dezembro de 1865], mas os negros ainda não podiam frequentar os mesmos restaurantes que os brancos, as mesmas escolas, os mesmos mercados... Nem mesmo votar ou sentar nos mesmos assentos do ônibus. Vivíamos uma segregação racial legalizada e andávamos de cabeça baixa. Os brancos pensavam que eram superiores e não houve um único dia em que eu não tenha me sentido humilhada. Hoje, temos os mesmos direitos que eles. Mas ainda há muita desigualdade e injustiça. O caminho é longo.

Eu não imaginava que ficaria envolvida até o pescoço no Movimento Pelos Direitos Civis e muito menos que meu ato naquele dia teria um impacto tão grande. Mas já ansiava e lutava por mudanças há muito tempo. Em 1943, entrei ao lado do meu marido para a National Association for the Advancement of Colored People [NAACP, entidade de defesa dos direitos dos negros] de Montgomery. A segregação nos ônibus era uma questão freqüente na NAACP. Nós éramos maioria, o sistema de ônibus dependia da gente. E obedecíamos às regras deles sem questionar.

Anos antes do incidente que deu origem ao boicote, eu tive problemas com o mesmo motorista [todos os passageiros negros eram obrigados a entrar pela porta da frente para pagar a passagem, sair do ônibus e entrar de novo por trás. Não era raro o motorista ir embora antes que todos tivessem entrado. Rosa não quis descer certa vez e foi expulsa depois de discutir com o motorista]. Mas nada aconteceu daquela vez. Em 1955, estávamos mais unidos e conseguimos chamar a atenção de todos para a minha prisão, a nossa situação e, claro, para o boicote. O incidente não foi planejado, mas já era esperado por causa de toda a tensão que havia entre negros e brancos na época.

Quais são as lembranças que a senhora tem dos 381 dias de boicote?

A cada dia, eu sentia nosso povo mais unido. Martin Luther King Jr. [porta-voz do movimento] comoveu o país com a nossa causa e, apesar da resistência dos brancos, eu não tinha dúvida de que venceríamos. Nós tínhamos outras opções, como ir a pé ou de carona para o trabalho. Já o sistema de transporte não, pois poucos brancos andavam de ônibus. Sem os negros, os prejuízos foram enormes. Eu perdi meu emprego pouco depois do início do boicote e passei a trabalhar em casa, me dedicando totalmente à luta pelos direitos civis. Para todo o nosso povo, foi um período difícil, mas cheio de esperança.

Mas os problemas dos negros não acabaram junto com o fim do boicote. Em 1957, a senhora teve que se mudar para Detroit com seu marido, por causa das constantes ameaças de morte em Montgomery. Quando a senhora acha que a luta vai acabar?

Enquanto existir gente que não acredita em liberdade e justiça para todos, meu trabalho não terá terminado.

Como é o trabalho do Instituto Rosa & Raymond Parks para o Autodesenvolvimento?

Temos uma pequena equipe e muitos voluntários maravilhosos. Desde 1987, trabalhamos com mais de 6 mil crianças e jovens entre 11 e 17 anos. São pessoas de diferentes etnias e origens. O programa Pathways to Freedom [“Caminhos para a Liberdade”], por exemplo, reúne jovens do mundo inteiro no verão. Nosso trabalho é fazer com que cada um descubra o que há de melhor em si mesmo.

Aos 92 anos, a senhora continua participando de eventos do Instituto. Essa luta nunca a cansou?

Nunca. Tenho um amor verdadeiro pela minha causa, o que não me deixa cansar. Dediquei 17 anos da minha vida ao Instituto. Há três anos me aposentei, porque tinha certeza de que meu projeto seguiria firme com as pessoas que estão lá. Mas, sempre que posso, participo de encontros com jovens do Instituto. Acho que é importante para eles conhecerem de perto minha história. São sempre encontros emocionantes.

Ônibus de Montgomery em que Rosa Parks recusou-se a ceder seu lugar a uma pessoa branca Wikimedia Commons

A senhora recebe os jovens na sua casa, em Detroit?

Minha casa era a sede do Instituto em 1987, quando eu e Elaine [Elaine Eason Steele, amiga de Rosa Parks há mais de 40 anos] o fundamos. No ano seguinte, ele passou para a Cadillac Square, também em Detroit. Mas minha casa até hoje é um local de reuniões para jovens e idosos.

Um estudo da Universidade de Harvard, o Civil Rights Project (“Projeto sobre Direitos Civis”), revelou que as escolas americanas estão sofrendo uma nova segregação racial desde o “Caso Dowell”, de 1991, quando a Suprema Corte americana autorizou a volta do zoneamento das escolas por bairros. Em dez anos, a integração de negros nas escolas de maioria branca caiu 10%. Como a senhora vê esse fenômeno?

Com um desgosto terrível. É um pesadelo ver crianças crescendo separadas por raças.

O que a senhora acha dos jovens que participam de organizações racistas espalhadas por todo o seu país – e pelo mundo –, como os neo-nazistas e os seguidores da Ku Klux Kan?

Eles não sabem que quem sente ódio está destruindo tanto o outro quanto a si mesmo. Mas eu estou conscientede que sempre vai haver sofrimento no mundo e pessoas que escolhem odiar. Por isso é importante ouvir a voz da paz. Eu acho que nós perdemos gerações quando não enchemos os corações dos jovens de paz e de objetivos positivos.

A senhora ainda anda de ônibus?

Parei de andar de ônibus em 1999, mas aquele foi meu principal meio de locomoção durante muitos e muitos anos depois do boicote.

Relatório policial sobre o caso de Parks, 1955 Wikimedia Commons

Quais são os planos para a comemoração dos 50 anos de aniversário do boicote?

Teremos muitas festas. O Instituto Rosa & Raymond Parks vai comemorar a data de minha prisão, o início e o fim do boicote, meu aniversário de 93 anos... O calendário de festas estará no nosso site em breve.

Qual a imagem que a senhora tem de Martin Luther King Jr.?

A de um homem forte, carismático e determinado a dar a vida pelos seus ideais. Eu não estaria dando esta entrevista agora se meu caminho não tivesse cruzado com o de Martin Luther King no episódio do ônibus.

Entre os políticos e artistas negros que estão em evidência hoje, há alguém que a senhora admire pela luta contra o racismo nos Estados Unidos?

São muitos e, infelizmente, nem todos são conhecidos da grande mídia. É melhor nem começar a listar. Estou com 92 anos e, você sabe, a chance de a memória falhar e eu esquecer alguém é grande.

Adriana Maximiliano


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