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As rotas comerciais da Idade Média: Muito além do obscurantismo e do atraso

Diferentemente do que costumamos acreditar, os homens medievais possuíam longas rotas comerciais e mantinham contato com toda a Eurásia

André Nogueira Publicado em 03/07/2019, às 00h00

Mapa de rotas na Europa do século 12
Martin Jan Månsson

Costumamos relacionar o período medieval ao obscurantismo atrasado da irracionalidade e da ignorância, o combate ativo ao desenvolvimento e a proeminência do pensamento tosco e brutalmente religioso. Porém, é claro entre os medievalistas que, ao contrário do que nossa memória histórica remete, a Idade Média foi também marcada pelo desenvolvimento técnico e científico.

Não se limitando à prisão a terra e à economia de subsistência, o mundo medieval europeu é um momento de reais expansões comerciais e contato entre culturas do mundo europeu, asiático e norte-africano, sendo o fluxo de rotas nesse período um dos mais importantes desde a queda do Império Romano.

Mapa mais recente e completo das rotas eurasiáticas / Crédito: Martin Jan Månsson

 

Entender esse desenvolvimento comercial passa por perceber que, por mais que a Europa tenha passado por momentos de crise e recessão no século V, a partir de então, o desenvolvimento econômico do continente volta a crescer e acompanhar o comércio com os impérios em ascensão nos arredores da Europa, como foram o Turco-Otomano, o Muçulmano, a Índia — que passava por uma nova Era do Ouro — e a China, no extremo oriental asiático — e que passava por um processo de estabelecimento e difusão de sua cultura).

Diante dessa correlação entre os povos, os europeus irão desenvolver rotas comerciais muito importantes para o conhecimento dos medievais sobre o mundo e o comércio. Eles chegarão, por rotas marítimas que saem do sul asiático, às ilhas do Oceano Índico e à costa do Pacífico no Oriente, tendo como ponto central dessa dispersão de rotas o Oriente Médio — califados recém-instaurados irão mediar essas rotas.

Esse contato permitirá que os viajantes retornem à Europa com diversos produtos tidos como exóticos e itens de luxo que permitiram o enriquecimento de famílias no Ocidente europeu e criou diversos elementos de distinção social. A orla do Mediterrâneo e o contato direto com rotas no norte da África faziam parte da principal região de dinamismo econômica entre os europeus, principalmente, pois as rotas mais distantes levavam muito tempo para serem atravessadas. Serão estas rotas intrasaharianas que permitirão o desenvolvimento, por exemplo, do Império Malês e da expansão muçulmana pela África.

Iluminura representando a travessia da rota da seda / Crédito: Arquivo AH

 

Diz-se, em geral, que o ápice de expansão das rotas comerciais vai ocorrer próximo aos séculos 11 e 12, quando a expansão marítima dos escandinavos começa a se deteriorar e os grupos europeus, principalmente as Ligas Hanseáticas, os pioneiros portugueses e os centros comerciais em Flandres, Veneza e Castella. A época marca um dinâmico momento de expansão e fortalecimento da economia na Europa e euforia das inovações técnicas no continente.

O momento de desestabilização desse fluxo orgânico de rotas será o surgimento e a expansão do Império Mongol, no centro da Ásia. Os mongóis irão reduzir as capacidades de comercialização e transporte no centro do dinamismo econômico chinês, localizado em Pequim, prorrogando essa devastação até praticamente Viena, no leste europeu. Isso porque os exércitos mongóis eram de uma eficiência singular, expandindo e se estabilizando por grandes territórios em questão de dias.