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A saga de Adauto Freire da Cruz, vítima da ditadura que morreu numa abordagem policial

No ano de 1974, o militante estava em um ônibus quando sofreu uma abordagem policial violenta

Giovanna Gomes Publicado em 10/01/2021, às 10h00 - Atualizado às 12h15

Adauto em registro pessoal
Adauto em registro pessoal - Divulgação

Em 1974, Adauto Freireda cruz utilizava o nome Celestino Alves da Silva quando foi alvo de uma batida policial no Rio de Janeiro. Em um trágico episódio, sofreu um infarto que provocou sua morte. Cidadão nascido na Paraíba, ele lutava contra a ditadura militar.

De acordo com o relatório da Comissão da Verdade, Adauto nasceu em 15 de fevereiro de 1924 na cidade de Bananeiras, Paraíba e começou a trabalhar aos 12 anos de idade, em uma indústria de artefatos de couro. Desde então exerceu diversas outras funções ao longo dos anos.

O contato com o marxismo no ano de 1946 foi o grande divisor de águas em sua vida, de modo que, no ano seguinte, tornou-se membro do Partido Comunista do Brasil (PCB), do qual fez parte por 15 anos.

Freire participava ativamente na defesa das causas do partido. Ele chegou até mesmo a ser preso em três ocasiões durante o período por motivos de greves, panfletagem na porta de uma fábrica, afinal, naquela época o ato era entendido como 'panfletagem comunista'.

"Os primeiros contatos com a literatura marxista e com o PCB aconteceram em 1946; passou todo este ano até o final de 1947 como simpatizante quando foi recrutado; após dois meses foi estruturado em Campina Grande, passando a ter vida ativa e celular no partido. Ocupou vários cargos de direção: secretário sindical da célula de Rio Tinto/PB até chegar a ser membro do Comitê Estadual do PCB em João Pessoa", explica o arquivo da Comissão (que você pode ler aqui). 

Adauto foi uma das vítimas da ditadura / Crédito: Divulgação

 

Já em 1961, Freire viajou até Cuba com o objetivo de realizar treinamento de guerrilha. No ano seguinte, desligou-se do PCB e tornou-se membro da Direção Nacional das Ligas Camponesas, da qual tornou-se líder em 1964. E foi nesse período que sua vida mudou drasticamente.

Foi com o golpe militar ocorrido no mesmo ano que Adauto passou a viver com uma nova identidade: Celestino Alves da Silva. Com a situação do país, acabou se mudando para o Rio de Janeiro junto a Delzuíte da Costa Silva, terceira esposa, com quem se casou usando o nome Celestino, afinal aquele período representava uma grande ameaça para ele. Como consequência, o relatório explica que todos os documentos dos descendentes do casal passaram a constar a identidade falsa.

No dia 13 de maio de 1979, estavam os dois indo para casa de ônibus quando o veículo foi parado em uma blitz. Na ação, os policiais pediram os documentos de todos os passageiros e foi assim que Adauto se viu em uma situação complicada. 

Uma vez que havia trocado de nome, Freire não tinha documentos em mãos na hora que fora solicitado. A única maneira de se identificar seria através da certidão de casamento que a esposa carregava na bolsa. Contudo, nem tempo para isso tiveram. 

Protestos populares pela anistia dos presos políticos / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tudo piorou quando os policiais perceberam o conteúdo dos panfletos em prol da anistia que Adauto e sua esposa levavam consigo.

"Enquanto Delzuíte tentava abrir a bolsa um policial armado a empurrou brutalmente tomando-lhe os panfletos. Adauto observava tudo, mas reagiu ao vê-la sendo agredida pelos policiais. Golpearam-no com socos no estômago. O casal foi retirado do ônibus, à força. Nesse momento, Adauto ficou roxo e asfixiado até desfalecer com um infarto fulminante", explica o relatório da comissão. 

Após o ato brutal, as autoridades sumiram do local. Por sorte, o casal contou com a ajuda de um automóvel, que levou Cruz até à casa de Saúde São José. Todavia, era tarde. Infelizmente, o médico confirmou o óbito do militante como 'infarto fulminante do miocárdio'. 

A luta 

Com a aprovação da lei 9.140/95, que tratava acerca dos mortos e desaparecidos durante a ditadura, Delzuíte passou a buscar uma indenização.

Contudo, de acordo com os membros da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), a relação da morte de Adauto com a repressão não havia ficado clara, de modo que o pedido foi negado.

Entrega do Relatório da Comissão Nacional da Verdade à Presidenta Dilma Rousseff / Crédito: Wikimedia Commons

 

A solicitação somente foi aceita com a criação da Comissão Nacional da Verdade, no ano de 2011. Além disso, a Comissão ainda recomendou que o nome verdadeiro do militante fosse inserido na certidão de óbito e na documentação familiar. 

Embora a melancólica morte de Freire tenha sido resultado de um infarto, assim como apontam os registros médicos, o documento da Comissão explica que: "é certo que o brutal espancamento produziu este infarto fulminante. Portanto, ele é um dos reconhecidos como morto político do Brasil". 

A alteração no atestado de óbito constando a real causa da morte foi realizada no ano de 2018 durante o I Encontro de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, em Brasília.

Conforme registrado pelo projeto Vozes do Silêncio,Delzuíte pôde finalmente mudar os demais documentos da família. “Finalmente posso pronunciar sem nenhum medo esse nome tão lindo – Adauto –, que eu amo tanto”, disse ela durante o evento.


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