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A saga de Edgar Feuchtwanger, o judeu que era vizinho de Hitler

Feuchtwanger viu Adolf Hitler se mudar para a mesma rua em que ele e sua família moravam

Giovanna de Matteo Publicado em 02/12/2020, às 17h35

Edgar Feuchtwanger durante a infância
Edgar Feuchtwanger durante a infância - Arquivo Pessoal

Edgar Feuchtwanger é um judeu alemão que quando tinha apenas 5 anos de idade viu o seu maior inimigo, Adolf Hitler, se mudar para a mesma rua em que ele e sua família moravam.

Atualmente o homem trabalha como historiador e é autor de vários livros onde conta sua história de vida como o vizinho judeu de Hitler. Em reportagem à BBC ano de 2012, ele relembrou como lidou com as dificuldade de viver ao lado do líder nazista em parte de sua infância.

Um dos primeiros problemas que percebeu a respeito da mudança do Füher para a sua rua foi quando sua mãe explicou para ele, que ainda era muito criança, que estavam recebendo cada vez menos leite, mesmo que o bairro em que cresceu fizesse parte de uma área nobre de Munique, pois "o leiteiro deixava muitas garrafas" na casa de Hitler.

Na entrevista ele recorda a primeira vez que viu o nazista caminhando pela rua. Na época ele estava em um passeio com sua babá, e tinha apenas oito anos quando viu aquela figura vestido com um casado e um chapéu, deixando o prédio em que morava, ainda no começo da década de 1930.

"Ele olhou diretamente para mim. Acho que não sorriu", contou ele, que ainda lembra que algumas pessoas que estavam na rua pararam e lhe fizeram a saudação "heil Hitler". Ele também explicou que sabia quem era o ditador, apesar da idade, e que não se apavorou diante da presença de Adolf. 

O judeu, que tinha 88 anos quando concedeu a entrevista à BBC, explicou o sentimento que tinha ao saber que o tirano morava na mesma rua: "Falo sobre como vivi na mesma rua que Hitler como se não fosse grande coisa... É difícil pensar que pessoas que você viu quase diariamente foram responsáveis por virar o mundo de cabeça para baixo."

Foto de Edgar Feuchtwanger criança/ Crédito: Divulgação/Arquivo pessoal

 

Feuchtwanger também revelou que quando se dirigia até a escola, costumava cruzar com o prédio onde estava o intrigante apartamento do Füher, o que resultava em grande curiosidade.

"Hitler vinha a Munique nos finais de semana. Sabíamos que ele estava em casa quando podíamos ver os carros estacionados do lado de fora". Geralmente sua chegada era anunciada pelos cantos dos pneus dos carros, que vinham com ele em um comboio de três, com direito a guarda-costas. 

Os simpatizantes então corriam para suas janelas, varandas ou para a rua para poderem saudar o austríaco. Ele também lembra dos obstáculos que encontrou na escola: atividades pedagógicas para aprender a desenhar suásticas ou listar os "inimigos da Alemanha" eram comuns nos espaços educacionais.

Não demorou muito tempo para que o garoto percebesse as ameaças crescentes sobre os judeus, e também de todos aqueles que ousavam pisar nos calos e desafiar as ideias propagadas pelo fundador do nazismo.

Da metade da década de 30 para frente a perseguição e violência contra esses grupos aumentou, e acabou ficando cada vez mais difícil para a família dividir a mesma rua que Hitler.

O irmão mais velho de seu pai, Lion Feuchtwanger, por exemplo, ficou famoso por atuar em peças de teatro que eram totalmente contra a política nazista da época. Como consequência, depois de uma viagem, decidiu se refugiar em outro país.  

O judeu também relembrou que seus pais acreditavam que poderiam não ser alvos diretos do nazismo. No entanto, no dia 10 de novembro de 1938, a casa deles foi invadida por oficiais da Gestapo. Os agentes, contou Edgar, foram bem recebidos pela mãe dele, que temia um possível ataque, mas seu pai foi levado para investigação.

Diante do medo que tomava a Alemanha no período, mais uma surpresa para Edgar e seus familiares. A Gestapo voltou para sua casa, mas dessa vez estavam equipados com caixas, que serviram para coletar alguns dos livros da gigante biblioteca da família. 

Refugiados

Após as visitas insólitas, a vida do menino acabou por mudar por completo. Ele não poderia mais sair de sua casa, e perdera o direito de estudar e frequentar a escola, passando a ter a companhia apenas de familiares próximos.

Passou-se então cerca de seis semanas até que a família descobrisse que seu pai e um de seus tios foram transferidos para o campo de concentração de Dachau, que ficava perto de Munique.

Um dia, no entanto, o pai de Edgar foi liberado e voltou para casa doente. Para que não acontecesse nada parecido novamente, a família decidiu deixar o país, que já estava muito perigoso para judeus viverem tranquilamente.

Finalmente, com a ajuda de familiares que já haviam fugido da Alemanha, eles conseguiram vistos para se mudarem para a Grã-Bretanha.

Mesmo após o fim da Segunda Guerra, seus pais não voltaram nunca mais para a Alemanha. Edgar, por sua vez, só visitara uma vez Munique depois de ter saído de lá, em uma viagem na década de 50.


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