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A saga do mosaico romano de Calígula que virou mesinha de centro

A relíquia histórica passou 45 anos sendo usada como apoio para xícaras de café e vasos de plantas

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 12/12/2021, às 09h00

Montagem com busto de Calígula à esquerda, e trecho de reportagem mostrando mesa citada à direita
Montagem com busto de Calígula à esquerda, e trecho de reportagem mostrando mesa citada à direita - Domínio Público/ Divulgação/ Youtube/ 60 minutes

Calígula foi um imperador romano que marcou a história ocidental, sendo lembrado principalmente por seus atos que ainda dividem opiniões, sendo que muitos desses foram atribuídos à sua suposta natureza insana. 

O soberano teria mandado executar pessoas a torto e a direito, dado um cargo político de alto escalão a seu cavalo, se declarado uma divindade e gastado as riquezas do reino em festas extravagantes e orgias, entre outras atitudes polêmicas.

Hoje, existem muitos historiadores que questionam a veracidade dos aspectos mais controversas da reputação de Calígula.

Algo que é confirmado a respeito do imperador, no entanto, é o fato que mandou construir uma série de navios luxuosos, que é onde algumas das festas citadas aconteceriam.

Estátua de Calígula / Crédito: Domínio Público

 

Artigos de museu

As ricas embarcações estavam afundadas no Lago Nemi, que fica localizado na Itália — possivelmente tendo sido naufragadas de propósito pelos inimigos de Calígula —, e foram trazidas à superfície por Mussolini na década de 20. O ditador italiano era um conhecido fã da personalidade romana. 

Os destroços dos navios e outros artefatos descobertos no corpo d'água chegaram a ficar expostos em um museu construído nas proximidades. O local, no entanto, não resistiu às décadas, tendo sido incendiado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.  

De forma inesperada, contudo, nem todas as relíquias inestimáveis retiradas do Lago Nemi foram consumidas pelas chamas. Houve um belo mosaico que sobreviveu. Porém isso apenas viraria conhecimento público em 2013, quando ele foi descoberto por acaso em uma localização improvável: no apartamento de uma senhora norte-americana. 

Uma chance em um milhão

Quem descobriu o mosaico do reinado de Calígula foiDario Del Bufalo, um especialista em antiguidades. Ele fez o achado de maneira inusitada, por conta de uma conversa que entreouviu durante a tarde de assinaturas de seu mais novo livro na cidade estadunidense de Nova York. O episódio foi repercutido pelo Smithsonian Magazine. 

Dario Del Bufalo / Crédito: Divulgação/ Youtube/ 60 minutes

 

Um rapaz e uma senhora folheavam um exemplar quando o primeiro comentou "Oh, Helen, olhe, é o seu mosaico". A segunda concordou. A despeito da natureza casual da interação, ela se referia a uma relíquia desaparecida há décadas. 

O interesse de Dario foi fisgado, e ele decidiu pedir para ver o tal mosaico, que, conforme estava prestes a descobrir, ficava no tampo da mesinha de centro da sala do apartamento de Helen Fioratti, que era dona de uma galeria de antiguidades, por isso tendo muito contato com objetos do passado. 

Ela não imaginava, porém, que a peça que havia ficado acoplada durante 45 anos na mesa onde tomava cafézinhos era da época do Império Romano, portanto, uma peça que pertencia a um museu, e não seu apartamento. 

A mesa em questão fora comprada de uma família aristocrática de italianos na década de 60. No período da transação, Helen não imaginava que os vendedores não eram os donos legítimos do objeto, de acordo com o que ela revelou em uma entrevista ao The Times em 2017. Então, a aficionada em arte apenas sabia que o artefato era muito bonito, e que deixou ela e o marido orgulhosos ao servir como decoração de sua sala. 

Conforme concluído por uma investigação repercutida pelo site Olhar Digital neste ano, o mosaico foi roubado do museu italiano na década de 40. Atualmente, ele voltou para sua terra natal, tendo sido devolvido ao governo da Itália em 2017. 

Um detalhe atencioso da parte de Dario é que ele decidiu dar uma cópia do artefato de presente para Helen para que a senhora não precisasse ficar sem o tampo de mesa que tanto gostava.