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Há 82 anos, um navio alemão tentava salvar 937 judeus dos horrores do nazismo

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o transatlântico St. Louis partiu de Hamburgo em direção às Américas

Alexandre Carvalho Publicado em 31/01/2021, às 10h00 - Atualizado em 04/06/2021, às 09h15

St. Louis em Havana, em junho de 1939
St. Louis em Havana, em junho de 1939 - Domínio Público, via Wikimedia Commons

Em 1933, com ascensão de Hitlerao poder, uma onda antissemita começou a dar indícios do que vinha pela frente. Na época, o tirano foi responsável por criar leis que restrigiam os direitos da comunidade judaica.

Já em 1939, a situação dos judeus só piorou, o que levou muitas pessoas a procurarem refúgio em outros países livres do domínio nazista, como foi o caso dos 937 passageiros à bordo do transatlântico alemã St. Louis. 

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o navio partiu de Hamburgo rumo às Américas. Os judeus à bordo da embarcação, acreditavam que poderiam recomeçar em outro país e que, assim, estariam seguros do que mais tarde ficaria conhecido como Holocausto Judeu.

No entanto, após uma série de eventos infelizes, os passageiros do St. Louis não encontraram o que almejavam, e muitos deles tiveram um fim trágico.

Vidas inocentes

A menina de 10 anos veste uma saia xadrez, sandália do tipo melissa e sorri para a câmera, em preto e branco, acompanhada de oito familiares — incluindo uma garotinha mais nova, que talvez tenha a metade da sua idade, talvez seja sua irmã.

A alegria não está só no seu rosto, aliás: todos na foto aparentam sentimentos que ultrapassam o protocolar sorriso de retrato. Adivinham-se ali otimismo, tranquilidade e um certo alívio.

O cenário é o convés de um navio, à frente de um barco salva-vidas. Os homens vestem ternos brancos, a família parece ter dinheiro. O vento marítimo descabela uma mulher jovem, mais ao fundo.

Tudo indicaria uma viagem a passeio, um cruzeiro em família, não fosse a legenda que nos informa a identidade da nossa menina de 10 anos: “Meu nome é Lore Dublon. Em 1939, eu fugi do meu país à procura de segurança nos Estados Unidos. Mas não me deixaram entrar. Então fui assassinada em Golleschau”.

Outra foto em P&B mostra um menininho de 2 anos, bem protegido do frio, com casaco, gorro e cachecol. Ele pilota seu triciclo, observado pelos pais, num conjunto que tem sua harmonia quebrada pela legenda quase idêntica à anterior: “Meu nome é Werner Stein. Em 1939, eu fugi do meu país à procura de segurança nos Estados Unidos. Mas não me deixaram entrar. Então fui assassinado em Auschwitz”.

Golleschau pode não ser um nome tão conhecido, mas Auschwitz não deixa dúvidas: é de campos de concentração nazistas que estamos falando. Essas e outras fotos emprestadas do Museu do Memorial do Holocausto, dos EUA — estão publicadas no perfil “St. Louis Manifest”, que nasceu no Twitter em janeiro de 2017, no dia seguinte ao decreto do presidente Trump que barrava a entrada nos EUA de imigrantes vindos de alguns países muçulmanos: Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

Para criticar, por analogia, o veto migratório que recusa abrigo a gente que foge de guerras, Estados homicidas e intolerância, o educador e ativista judeu Russel Neiss dedicou esse perfil a outro evento histórico com o mesmo ponto de partida — e as mesmas consequências: a infeliz jornada do transatlântico MS St. Louis, que partiu de Hamburgo às vésperas da Segunda Guerra Mundial, rumo às Américas, levando a criança Lore Dublon, o bebê Werner Stein e mais 935 passageiros judeus, que fugiam do racismo e da truculência nazista.

Expulsos de casa

O genocídio conhecido como Holocausto, em que o governo alemão assassinou cerca de 6 milhões de judeus, só começou mesmo em 1941, quando as câmaras de gás entraram em ação.

Mas isso não significa que judeus já não viessem sendo mortos e perseguidos na Alemanha nazista. Com a ascensão de Hitler ao poder, em 1933, seu ódio pela comunidade judaica foi aos poucos virando política de Estado, com uma sequência de leis que cancelavam os direitos dos judeus e, na prática, tornavam sua existência inviável sob qualquer perspectiva.

Em sua autobiografia, a judia alemã Renate Breslow conta como sua infância foi afetada pelo crescente antissemitismo no país — que vinha do governo, mas que obteve uma adesão eufórica de grande parte da população.

Em 1935, o Parlamento aprovou uma lei segundo a qual os não judeus estavam proibidos de fazer qualquer compra em lojas de judeus — uma restrição que arruinou
a vida financeira de Renate.

Outra lei racista proibiu que crianças judias frequentassem escolas públicas — o que fez com que a pequena, que estava na primeira série, se visse privada de educação formal e de todas as amizades de infância.

Mas nada traumatizaria tanto a sua família quanto a onda de violência antissemita nos dias 9 e 10 de novembro de 1938: a Kristallnacht. A “Noite dos Cristais” recebeu esse nome como uma referência aos cacos de vidro — das vidraças dos estabelecimentos comerciais de judeus — que cobriram as ruas da Alemanha após esse pogrom — termo iídiche que significa uma série de pilhagens, agressões e assassinatos contra uma minoria.

O linchamento em massa foi instigado por membros do Partido Nazista e pela milícia paramilitar que apoiava o governo (a SA). As lojas dos judeus foram destruídas, não antes que suas mercadorias fossem saqueadas.

Centenas de sinagogas foram incendiadas — os bombeiros foram instruídos a apenas impedir que o fogo se alastrasse para edificações vizinhas. Mais de 90 judeus foram assassinados covardemente nesses dois dias.

“Depois da Kristallnacht, não havia um judeu na Alemanha que não quisesse fugir do país”, lembrou, numa palestra em 2013, a mesma Renate Breslow, agora uma senhorinha, vivendo confortavelmente na Pensilvânia, EUA.

Se ela sobreviveu ao nazismo para contar sua história ao mundo, foi porque seus pais decidiram fazer o que o bom senso mandava: ir para longe de
Hitler.

Ela só não imaginava que a estratégia de sua família, e de centenas de outras que embarcaram no transatlântico St. Louis, no dia 13 de maio de 1939, fosse virar uma aventura marcada pelo fracasso da solidariedade.

Quanto mais longe, melhor

Com o avanço frenético da violência contra a comunidade judaica na Alemanha, o início de 1939 viu uma procura desesperada de judeus por novos lares. Um destino que parecia convidativo eram os Estados Unidos, que tinha o Oceano Atlântico separando sua população dos nazistas — e onde havia comunidades de judeus desde os tempos em que o país ainda era colônia dos ingleses.

Nos anos 1930, eles tinham importância política na cidade de Nova York e apoiavam o New Deal, a série de reformas estruturais do presidente Franklin D. Roosevelt.

Em 1939, os EUA tinham até um judeu na Suprema Corte. Parecia, sim, um lugar seguro.
Para entrar nos EUA, no entanto, não era tão fácil. Havia cotas de imigração, e a fila para se estabelecer no país podia levar de um a cinco anos.

Os judeus alemães, com os nazistas nos calcanhares, não tinham esse tempo todo. Então muitos concluíram que uma temporada na vizinha Cuba seria ideal para refazer a vida enquanto lidavam com a burocracia americana.

No fim do século 19, negociantes judeus vindos dos EUA começaram a residir na ilha caribenha, atraídos pelas oportunidades ligadas à importação e exportação de açúcar e tabaco.

Já os imigrantes europeus passaram a chegar nos anos 1920, formando uma comunidade de 24 mil judeus, muitos deles trabalhando na indústria de tecido. Parte significativa dessas pessoas estava usando a terra dos charutos como trampolim para uma estadia definitiva nos EUA, mas o Ato de Imigração americano, de 1924, criando cotas que restringiam a entrada de refugiados europeus e asiáticos, acabou mudando os planos dessas famílias, que se resignaram a fixar residência em Cuba mesmo.

Retrato de refugiadas judias no porto de Havana, em 1939 / Crédito: Domínio Público, via Wikimedia Commons

 

Considerada a questão logística e burocrática, seria para Havana, então, que os passageiros do St. Louis rumariam, partindo de Hamburgo. Alguns tinham até familiares que já moravam em Cuba há anos. Só podia ser um lugar seguro.

Idílio no Oceano

Os nazistas não estavam muito preocupados em segurar seus judeus — pelo contrário, a fuga em massa facilitava a limpeza étnica hitlerista. Mas isso não queria dizer que os nazis fossem deixar o êxodo sair barato.

Autorizações de partida eram vendidas por fortunas. Sem expectativa de voltar à companhia do Führer, não foram poucos os judeus que venderam tudo o que tinham. Esses eram os “sortudos” — os que possuíam algo para negociar.

Os que não podiam comprar sua ida tiveram de lidar diariamente com a fúria nazista – o que quase sempre significava a morte. A bordo do St. Louis, no entanto, estavam os que podiam. A maioria dos passageiros era de judeus de posses.

Tanto que a embarcação era um luxuoso transatlântico, com oito deques, piscina para adultos e crianças. No navio, judeus que haviam perdido todos os seus direitos na Alemanha tiveram semanas de renascimento.

“Eles nem podiam comprar jornais, não podiam se sentar nos bancos das praças... tinham uma vida muito limitada em seu país, mesmo que alguns deles fossem ricos”, explica o jornalista cubano Armando Lucas Correa, autor de A Garota Alemã, romance histórico baseado na viagem do St. Louis.

“Dentro do navio, eles tiveram suas vidas de volta.” O dia a dia em alto-mar era de jantares refinados, música e atendimento cordial. Foi nesse clima de paz e grandes expectativas que a menina Lore Dublon foi fotografada, sorrindo, com sua família.

E foi no deque do St. Louis que Renate Breslow contava os dias para reencontrar seu pai, que já estava em Havana. Mas o idílio estava prestes a terminar.

Primeira rejeição 

O pai de Renate estava tão ansioso pela chegada de sua esposa e filha que passou a noite no porto de Havana. Assim que o St. Louis se aproximou da cidade, ele arrumou um barquinho para chegar perto do navio e acenar para a parte da sua família que estava a bordo.

Trocaram sorrisos e gritos de felicidade, enquanto a tripulação preparava o desembarque. Os demais passageiros também já estavam com suas bagagens arrumadas quando veio o balde de água fria. Havia algum problema burocrático, e o desembarque ainda não estava autorizado.

“Quando chegamos a Havana, a imigração subiu ao navio. Eles foram muito educados e gentis. Mas aprendi minha primeira e única palavra em espanhol: ‘mañana’ [‘amanhã’]. Tudo ficava para amanhã”, contou o sobrevivente Gerald Granston, em depoimento à BBC, quando já era um octogenário, em 2017.

Na época em que cruzou o Atlântico fugindo dos nazistas, esse alemão era um menino de 6 anos, que experimentou o horror extremo a bordo daquele navio. De fato, o que os passageiros mais ouviam é que a questão se resolveria no dia seguinte, e no seguinte, e no outro... O imbróglio era este: os viajantes subiram a bordo do St. Louis com autorizações emitidas pelo diretor-geral de Imigração cubano, Manuel Benitez.

Só que a iminente chegada de quase mil judeus havia enfurecido a opinião pública no país latino-americano. Cuba já havia admitido 2.500 judeus europeus, e muitos achavam um disparate ter mais estrangeiros que iriam competir com a mão de obra nacional pelos poucos empregos à disposição — vale lembrar que, em 1939, Cuba ainda sofria as consequências do crash da bolsa americana, que arrasara as economias do planeta dez anos antes.

Então uma manifestação antissemita juntou 40 mil pessoas contra o acolhimento dos refugiados. E o governo cubano desfez o acordo. Só puderam desembarcar 22 judeus alemães, porque já tinham vistos de entrada para os EUA.

Quando os mais de 900 restantes descobriram a proibição, um misto de frustração e pânico tomou conta do navio. O menino viu à sua frente um adulto cortar os pulsos e se atirar no mar, desesperado. “Se fechar meus olhos, ainda posso ouvir seus gritos e ver o sangue”, ele disse à BBC.

O que fazer, então? Já que o atalho para o território americano estava bloqueado, ficou decidido que iriam direto para seu alvo principal. Afinal, não eram os EUA a terra das oportunidades?

O 'não' de Roosevelt

Em 1939, a cota de imigrantes nos EUA provenientes da Alemanha e Áustria era de 27.370 pessoas — e já estava preenchida. Então, quando o transatlântico St. Louis se aproximou de Miami, o governo americano se viu diante da seguinte questão: por que aceitaria aqueles refugiados se havia tantos aguardando a vez? A resposta poderia ser: porque, se eles tivessem de voltar para a Alemanha, seriam mortos imediatamente.

Aceitá-los era uma questão de benevolência, não de burocracia. Só que os motivos da ocasião iam muito além dos trâmites imigratórios. A Grande Depressão dos anos 1930 abriu a caixa de pandora do pior da natureza humana.

A América, na ressaca de pagar a conta da abundância dos loucos anos 1920, estava disposta a tudo para proteger seus empregos, e esse tudo incluía isolacionismo, xenofobia e — sempre ele — antissemitismo.

Uma pesquisa na revista Fortune indicava que, na época, 83% da população era contra a flexibilização das cotas de imigrantes. E o presidente Roosevelt estava num momento em que precisava mais do que nunca agradar a seu público interno: ele concorria à reeleição.

Aceitar aqueles judeus, rejeitados por seus eleitores, era dar munição a adversários políticos. Então ele disse não. “America first”, poderia ter emendado, antecipando o bordão de Donald Trump.

Logo em seguida, também consultado, o Canadá seguiu seu irmão do Sul, e negou abrigo aos refugiados. Um oficial da Imigração canadense na época, questionado sobre quantos judeus poderiam ser admitidos no país, respondeu assim: “Nenhum já é além da conta”.

Quatro destinos

Sem porto seguro em Cuba nem na América do Norte, só restava aos judeus retornar para a Europa. Mas para onde? A Alemanha não era opção.

Organizações judaicas intervieram e passaram a negociar com alguns países. Conseguiram vistos para que os passageiros se estabelecessem em quatro: Bélgica, Holanda, França e Inglaterra.

O navio enfim atracou em Antuérpia, no começo de junho, de onde os judeus foram encaminhados para seus diferentes destinos — com todo o significado que a palavra “destino” pode ter.

Grande parte dos passageiros preferia a França, por uma questão de admirar a cultura francesa. Os que falavam inglês acharam que teriam maior facilidade na Inglaterra. Mas, de maneira geral, a divisão foi equilibrada.

Esta, entretanto, é uma história sem final feliz para muitos desses viajantes – como as legendas daquelas fotos de Twitter já davam a entender. A Segunda Guerra Mundial começou três meses após o desembarque do St. Louis e, entre os dias 10 e 28 de maio do ano seguinte, os nazistas ocuparam a França, a Holanda e a Bélgica.

Dos passageiros do navio que haviam sido encaminhados para esses países, 255 morreram — a maioria em campos de concentração. Mais feliz foi o destino da bebê Eva Safler, registrada no deque do transatlântico. A criança, então aos 9 meses de vida, está no colo da mãe, que olha para baixo, relutante em posar para a foto.

Uma postura que contrasta com a do marido, sorridente ao lado de uma boia em que se lê “St. Louis – Hamburg”. Além do desembaraço diante da câmera, dele sabemos que teve uma decisão que salvaria sua família.

Ao ser questionado sobre o país para o qual preferia ir, das quatro possibilidades europeias, o homem escolheu a Inglaterra. Disse que queria viver num país onde houvesse água separando-o da Alemanha nazista.

Dos 288 passageiros do St. Louis admitidos na Inglaterra, quase todos — 287 — sobreviveram à Segunda Guerra. Os nazistas nunca ocuparam o território inglês.

E Eva Safler está viva até hoje, dando a volta ao mundo para contar a história dessa odisseia marítima — uma lição sobre o individualismo que marca as políticas das nações mais poderosas do planeta.


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