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Sambaquis: 8 mil anos de mistério

Construídos camada por camada pelos primeiros povos conhecidos do Brasil, os sambaquis serviam de moradia, cemitério e palco de festas. Entretanto, sua história ainda é uma incógnita

Juan Torres e Joseane Pereira Publicado em 05/06/2019, às 09h31

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- Crédito: Reprodução

Eles se elevam na paisagem como simples colinas à beira-mar, mas ainda guardam segredos que desafiam os estudiosos. Não são acidentes da natureza. São construções frutos de um trabalho de formiga executado durante anos, que podia passar de geração em geração.

Esses montes, que parecem dunas cobertas de grama, foram feitos com pequeníssimos fragmentos, principalmente conchas, em pedacinhos, em lascas, inteiras, depositadas umas sobre as outras num esforço obstinado e caprichoso.

São os sambaquis, nome formado por Tamba, que em tupi significa concha, e Ki, amontoado. A maioria mede até 6 metros, mas, em Santa Catarina, já foram encontrados alguns com 30 e até 70 metros, a mesma altura do vão central da ponte Rio-Niterói e bem maior que a Estátua da Liberdade (46 metros).

Às conchas, somavam-se areia, ossos de peixes, restos de fogueira e ferramentas, e também os corpos dos mortos da comunidade. Esses materiais iam formando camadas e constituindo plataformas elevadas que, hoje, são um extraordinário registro dos grupos pré-históricos que viveram há cerca de 8 mil anos no Brasil. 

Pioneiros no território

Exímios conhecedores do mar, eles ocuparam uma grande parte do litoral e foram senhores desse espaço até a chegada dos Tupis à região, por volta de 2 mil anos atrás. O que permite que arqueólogos no século 21 se debrucem (na verdade, escalem) sobre os costumes desses povos é, exatamente, a forma enigmática como eles construíam esses morros. 

A quantidade de conchas nesses sítios é tamanha que, até meados da década de 80, pensava-se que vinha delas o alimento preferido pelos seus habitantes. Hoje, sabe-se que os sambaquieiros podiam até aproveitar como tira-gosto os berbigões, ostras e mexilhões encontrados na praia, mas seu prato principal era mesmo o peixe.

Sambaqui do Ipuã em Laguna, SC / Créditos: Hilton Lebarbenchon

 

O surgimento das colinas artificiais não foi casual e nem efeito do mero descarte de resíduos alimentares, como se acreditou durante muito tempo. Atualmente, os estudiosos concordam que sua construção tinha um propósito. 

O desafio, agora, é conseguir decifrar que propósito era esse. As pesquisas ainda não chegaram a uma conclusão, mas levantam várias hipóteses. Os sambaquis podem ter sido um tipo de cemitério, ou um ambiente misto loteado em áreas destinadas a diferentes funções, ou, ainda, podem ter servido a rituais e como altivo símbolo de status.

Ao subir em um sambaqui, é possível ter uma visão muito ampla do ambiente, o que também pode ter servido como auxílio às populações sambaquieiras.

A partir do sul do país, os sambaquis estão presentes numa faixa contínua, desde o balneário de Torres (RS) até Cabo Frio (RJ). Desse ponto em diante, os registros passam a ser pontuais, no litoral baiano, Piauí, Maranhão e Pará. Mas outros podem existir.

"É muito provável que existam sambaquis no Espírito Santo e no restante do Nordeste, mas há pouquíssima pesquisa nessas regiões", afirma Maria Dulce Gaspar, professora do departamento de Antropologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das principais especialistas no assunto no Brasil.

Segundo ela, há dez anos existiam cerca de mil sítios cadastrados no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Mas, para obter o número real, podemos multiplicar esse número por cinco, seis ou sete. Eu não me surpreenderia se fosse multiplicado por dez", diz.