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A Sangue Frio: O brutal crime por trás da obra de Truman Capote

Entenda como Capote entrou na mente de dois criminosos evolvidos em um dos maiores assassinatos dos Estados Unidos

Alana Sousa Publicado em 26/08/2019, às 16h00

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- Crédito: Reprodução

Nos anos 60, Truman Capote, revolucionou a literatura com a obra A Sangue Frio. O livro, que narra desde o brutal assassinato de uma conhecida família de Kansas até a execução dos assassinos, é até hoje um marco na história do jornalismo investigativo e, referência para qualquer um que queira escrever um romance de não-ficção.

Em 15 de novembro de 1959, a respeitada família Clutter foi encontrada morta em sua fazenda na cidade de Holcomb, Kansas, nos Estados Unidos. Os quatro membros: o pai Herbert, de 48 anos; a mãe Bonnie, de 45 anos; a filha de 16 anos, Nancy, e o filho mais novo, Kenyon de 15 anos, foram amordaçados e baleados por Richard Eugene “Dick” Hickock e Perry Edward Smith.

O crime teve ampla cobertura da imprensa local, por se tratar de uma família conhecida e pela gravidade, até então, não explicada das ações. Assim que soube da notícia, Capote resolveu viajar até o Kansas para cobrir a história, levou consigo a também escritora, e amiga de infância, Nelle Harper Lee. Juntos entrevistaram os assassinos e revelaram detalhes da chacina.

Truman Capote / Crédito: Reprodução

 

O Crime

Dick Hickock e Perry Smith se conheceram na prisão onde ambos cumpriam pena por crimes anteriores. O colega de cela de Hickock, Floyd Wells, era um antigo trabalhador da fazenda de Herbert Clutter, e contava histórias sobre como a família mantinha um cofre com muito dinheiro dentro de casa.

Fantasiando com a possibilidade de ficar rico e começar uma nova vida no México, Hickock quando se encontrou em liberdade contatou o ex-colega de cela, Perry Smith, para contar-lhe sobre o plano. Smith aceitou e juntos foram de carro até a propriedade de Clutter.

Chegaram lá no dia 14 de novembro, mas passaram um tempo no carro decidindo qual seria o plano. Finalmente entraram na casa, já era madrugada e todos estavam dormindo. Acordaram toda a família para então, achar o desejado cofre.

Após descobrir que não havia nada além de um par de binóculos, um rádio portátil e 42 dólares, os criminosos amarraram as vítimas a fim de procurar algum dinheiro espalhado pela casa. Sem sucesso, e com medo de mais tarde serem identificados, assassinaram com tiros as quatro pessoas.

Smith confessou que Hickock matara as duas mulheres, mas se negou a assinar a confissão. Segundo Capote, ele queria assumir a responsabilidade por todos os assassinatos, pois tinha pena da mãe de Dick. Hickock, por sua vez, sempre manteve a versão de que Dick teria cometido todos os homicídios.

Família Clutter / Crédito: Reprodução

 

Na semana seguinte ao crime, já com o país em choque, os homicidas fugiram para o México. A investigação correu por algumas semanas, e só após a ligação de Floyd Wells a polícia pode identificar e começar uma busca pelos suspeitos.

Hickock e Dick foram presos em Las Vegas em 30 de dezembro de 1959. Ambos confessaram participação nas mortes e foram levados de volta para o Kansas para julgamento, que durou de 22 a 29 de março de 1960. Mesmo com uma tentativa de alegar insanidade no momento da atrocidade, o júri considerou os réus culpados e os condenou à morte — obrigatória para um crime brutal na época.

Hickock e Smith foram executados por enforcamento na Penitenciária Estadual do Kansas, em 14 de abril de 1965.

A Sangue Frio

O livro foi lançado em 1965, acompanhou Dick e Perry até o dia da execução. O lançamento foi um sucesso instantâneo e, hoje é o segundo livro de crime mais vendido na história.

A narrativa vai muito além da cobertura de um crime, com razões e consequência para a brutalidade. Capote consegue nos fazer imergir na história. Entendendo o que motivou o crime, e os diversos ângulos que ele engloba.

Dick e Perry após a condenação / Crédito: Reprodução

 

A complexa análise na vida dos assassinos mostra o que os levou até o momento crucial que mudou suas vidas. Capote permite que Dick Hickock e Perry Smith expressem suas visões e verdadeiramente expliquem o que aconteceu.

Existe uma linha tênue entre dar espaço para que um assassino conte sua versão e a romantização de uma situação tão sádica, que faz com que nós, leitores, em partes esqueçamos o assassinato em massa, e vejamos Dick e Perry como nada mais que dois homens comuns.