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Matérias / Santo Graal

Santo Graal: A catedral que afirma ter o cálice usado por Jesus na Última Ceia

Usado por Jesus na Última Ceia para compartilhar com os apóstolos seu sangue, Santo Graal percorreu longo caminho até chegar à Catedral de Valência; mas ele é real?

Fabio Previdelli

por Fabio Previdelli

fprevidelli_colab@caras.com.br

Publicado em 06/06/2024, às 18h00

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O Santo Graal em exibição na Catedral de Valência - Getty Images
O Santo Graal em exibição na Catedral de Valência - Getty Images

Segundo o cristianismo, o Santo Cálice, ou Santo Graal, foi usado por Jesus na Última Ceia para compartilhar com os apóstolos seu sangue — que havia sido coletado por José de Arimateia durante a crucificação. 

"E, tomando o cálice e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados", descreve o Evangelho de Mateus (26:27-29). 

A Última Ceia, de Leonardo Da Vinci - Domínio Público - Wikimedia Commons

Os eventos da Última Ceia também são descritos pelos evangelhos de Marcos e Lucas; além do Apóstolo Paulo em I Coríntios. No entanto, com exceção do contexto da Última Ceia, a Bíblia não faz nenhuma menção ao cálice ou atribuiu qualquer significado ao objeto em si. Mas, afinal, o que aconteceu com o Santo Graal?

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As evidências do cálice

Localizada na Espanha, a Catedral de Valência alega abrigar uma relíquia que diz ser o Santo Cálice usado na Última Ceia — o objeto, ao menos, possui o tamanho ideal, é feito do mesmo material e tem uma história tida por muitos como convincente. 

Um dos símbolos mais conhecidos do cristianismo, o Santo Graal também é um dos objetos que mais gera mitos e mistérios dentro da religião. No entanto, ninguém sabe ao certo se existiu, mas a catedral espanhola alega ter o verdadeiro — assim como outros 200 pretendentes apenas na Europa. 

Falando à BBC, José Verdeguer, Curador do Patrimônio Histórico-Artístico da Catedral de Valência, reflete sobre a mitologia por trás do símbolo: "Sempre digo que [as evidências] são como galhos de uma árvore… Se você tiver apenas um pedaço de pau, ele quebra facilmente. Mas se você juntar 50, não poderá mais quebrá-los. Aqui há muitas discussões juntas e não é mais fácil destruí-las".

Altar da Catedral de Valência - Getty Images

O curador se escora na série de evidências que alguns acreditam comprovar a veracidade do cálice exposto na Capilla del Santo Cáliz. Vale ressaltar, porém, que o suposto Graal é formado por duas partes distintas: a taça propriamente, lavrada com pedra de ágata marrom-avermelhada e polida com mirra; e o relicário de ouro sobre a qual ela é colocada. 

Na década de 1960, estudos arqueológicos determinaram que o cálice havia sido feito a mão em algum momento entre os séculos 2 e 1 a.C.; em algum lugar entre a Palestina e o Egito — única região onde se encontra esse tipo de ágata. 

Dessa forma, a historiadora de arte e autor Ana Mafé investigou a outra peça e descobriu que datava de meados do século 11, sugerindo que os artesões da época sabiam da importância da suposta relíquia e fizeram um suporte para exibi-la. 

A pesquisadora também foi capaz de concluir que o cálice tem o mesmo tamanho e volume da tradicional taça judaica de kidush; assim como a que Jesus teria usado durante a Última Ceia. 

O caminho do Graal 

Outro ponto importante nesta história diz respeito ao caminho que o Santo Graal teria feito para chegar de Jerusalém até Valência. Para isso, Verdeguer recorre à crença cristã de que a Última Ceia aconteceu na casa de São Marcos, discípulo de São Pedro

Assim, quando São Marcos fugiu de Jerusalém no ano 70, por conta da invasão romana, a relíquia teria sido levada com ele. São Marcos se estabeleceu em Roma, onde a taça foi passada nas mãos de vários papas até chegar em Lourenço de Huesca, o São Lourenço, que a enviou para a Espanha para protegê-la de novas guerras. O cálice, finalmente, chegou em Valência, capital do Reino de Aragão, em meados de 1400.

O cálice ainda sumiu outras vezes por conta da guerra, mas voltou à Catedral de Valência e permanece lá desde 1939. Segundo a BBC, a relíquia só foi retirada do local para ser usada em missas celebradas pelo Papa João Paulo II e pelo Papa Bento XVI.

Atualmente, o Santo Graal está em exposição junto de outras relíquias da Catedral, o que inclui um suposto espinho da coroa usada por Jesus e até mesmo um pedaço da cruz que ele foi crucificado. 

Se existe algum cálice que, segundo a tradição, esteve nas mãos de Jesus, sem dúvida o único cálice que cumpre todos os requisitos quando submetido a uma análise científica que pode ser replicado em qualquer parte do mundo com os mesmos resultados é o Santo Cálice da Catedral de Valência", finaliza Mafé.

Debate

Os objetos hoje exibidos por igrejas, que seriam relacionados a trajetória de Jesus Cristo, dividem opiniões. Um exemplo famoso é a cruz que teria sido utilizada na crucificação de Jesus. Atualmente, inúmeros fragmentos se encontram ao redor do mundo. 

Candida Moss, que faz parte do Departamento de Teologia e Religião da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, disse à BBC que a história da Santa Cruz (Verdadeira Cruz) é baseada em registros de historiadores do passado, no entanto, a autenticidade da relíquia não foi confirmada por eles.

"Provavelmente esse pedaço de madeira não é a cruz em que Jesus foi crucificado", disse ela, "porque muitas coisas poderiam ter acontecido com ela. Por exemplo, que os romanos a reutilizaram para outra crucificação, em outro lugar e com outras pessoas".

Quem também contradiz a história da cruz é Joe Kickell. Pesquisador, ele englobou o Comitê para a Investigação Cética, em Nova York, e participou de um estudo que tinha como objetivo desvendar a origem do item. Em artigo, ele disse que não existem evidências que comprovem a autenticidade da cruz.

"Não há uma única evidência que sustenta que a cruz encontrada por Helena em Jerusalém, ou por qualquer outra pessoa, seja a verdadeira cruz em que Jesus morreu. A história da proveniência é ridícula. E seu caráter milagroso, também", publicou Kickell em artigo. 

Para Mark Goodacre, historiador, as relíquias, na realidade, compreendem mais um desejo do que autenticidade. "(Isso se deve ao) desejo de ter uma proximidade física com algo que acreditamos", disse ele à BBC.