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Sarah Baartman, a mulher africana que virou uma atração de circo

Durante seus curtos 26 anos de vida, a jovem foi exibida em museus europeus como uma aberração que fugia do comum

Pamela Malva Publicado em 11/05/2020, às 11h40 - Atualizado às 11h46

Ilustração de Sarah Baartman, a mulher que virou uma atração
Ilustração de Sarah Baartman, a mulher que virou uma atração - Wikimedia Commons

No passado, tudo e qualquer coisa que fugisse do padrão europeu era considerado uma aberração. Exatamente por isso, diversas pessoas consideradas incomuns foram exploradas por freak shows e exposições degradantes.

De mulheres cobertas por pêlos até o menor dos homens, africanos e sul-americanos, por exemplo, eram constantemente subjugados. Em verdadeiras famílias de circo, muitos eram carregados de um continente ao outro, a fim de arrecadar dinheiro.

Esse foi o caso de Sarah, ou Saartjie, Baartman. Dona de um corpo que fugia muito aos padrões impostos na época, a mulher africana era considerada uma atração e, por esse motivo, viveu uma vida inteira exposta em museus europeus.

Ilustração de Sarah já sendo exibida / Crédito: Divulgação

Jovem e explorada

Pouco se sabe sobre a origem de Sarah — mesmo que ela fosse constantemente analisada por burgueses europeus. Acredita-se que a jovem tenha nascido na Província Oriental do Cabo, na África do Sul, em meados de 1789.

Filha de uma mãe simples e de um pai criador de gado, Sarah se viu órfã desde muito pequena. Sozinha no mundo, ela encontrou um namorado gentil, com quem teve um filho. O homem, entretanto, foi morto por um colono holandês e o bebê não sobreviveu.

Mais uma vez, Sarah percebeu que deveria atirar-se ao mundo e, assim, começou a trabalhar como doméstica. Foi apenas em outubro de 1810 que tudo mudou. Apesar de analfabeta, ela teria assinado um contrato com William Dunlop e Hendrik Cesars.

Originais da inglaterra, os dois homens — donos da casa onde ela trabalhava — convenceram Sarah a viajar até a Inglaterra para participar de um espetáculo. Sem muitas perspectivas na África do Sul, a jovem aceitou.

Uma vida nos palanques

Inicialmente, os homens teriam se surpreendido com o corpo da jovem doméstica. Acometida por uma condição genética específica, Sarah tinha nádegas protuberantes, bem maiores que as vistas na Europa, devido à acumulação de gordura em seu corpo.

Assim, ela foi exposta aos curiosos no Piccadilly Circus, em Londres. Isso porque, segundo Rachel Holmes, autora de A Vênus Hotentote: vida e morte de Saartjle Baartman, “nádegas grandes estavam na moda na época, e muitas pessoas invejavam o que ela tinha naturalmente”.

No espetáculo londrino, Sarah era vestida com roupas justas da cor de sua pele, decoradas com plumas coloridas e, em quase todos os momentos, fumava cachimbo. Por vezes, era levada até a casa de clientes abastados que pagavam por demonstrações privadas e, dessa forma, podiam tocar em seu corpo.

Em pouco tempo, ela recebeu o nome de Vênus Hotentote. Na época, o termo era usado pelos holandeses para caracterizar os khoikhois e os san, membros dos khoisans, um importante grupo africano.

Busca por justiça

Ilustração de Sarah em exposição / Crédito: Wikimedia Commons

Pouco antes de Sarah viajar para a Europa, o império britânico já tinha abolido o tráfico de escravos, em 1807, mas não a escravidão. Por esse motivo, muitos pensadores modernos questionam as condições de trabalho que Sarah era submetida.

Naquela época, os empresários da jovem africana foram processador por detê-la contra sua vontade. Com o testemunho de Sarah, no entanto, os dois foram inocentados. "Ainda não se sabe se Baartman foi forçada, ou se atuou por livre arbítrio”, explicou o historiador Christer Petley, da Universidade de Southampton, na Inglaterra.

Com o tempo, todavia, o show de Sarah começou a perder a influência entre o público inglês e, assim, ela foi mandada para uma turnê pela Grã-Bretanha e Irlanda. Em 1814, foi para Paris ao lado de seu empresário Hendrik Cesars.

O homem, contudo, voltou para a África do Sul, deixando Sarah nas mãos de um exibidor de animais. Sob os cuidados do novo empresário, ela fumava e bebia constantemente e, segundo alguns biógrafos, foi prostituída.

Após uma vida de exploração, Sarah morreu em dezembro de 1815, aos 26 anos. Acredita-se que tenha sido vítima de pneumonia, sífilis ou alcoolismo. Seu cadáver e órgãos íntimos continuaram a ser expostos em Paris até 1974.

Os restos de Sarah apenas voltaram para sua cidade natal depois de um pedido oficial de Nelson Mandela, em 2002. Ela foi enterrada em agosto do mesmo ano, cerca de 192 anos após assinar o contrato que a levaria para a Europa.


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