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'Sempre estivemos presentes na história de todos': A trajetória das pessoas com deficiência no Brasil

Com exclusividade ao site da AH, Emílio Figueira, autor da obra 'As Pessoas com Deficiência na História do Brasil', explicou as origens do capacitismo e suas implicações no mundo moderno

Pamela Malva Publicado em 24/08/2021, às 10h00

Retrato de Emílio Figueira
Retrato de Emílio Figueira - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Tudo começou com longos passeios em bibliotecas. Desde a juventude, Emílio Figueira estava acostumado a encontrar os mais distintos títulos espalhados pelas estantes, histórias sobre pessoas de diversas classes sociais e origens socioeconômicas.

Mas enquanto lia as lombadas que chamavam sua atenção, uma pergunta em especial surgia em sua mente. Por que, de todas aquelas obras, nenhuma falava sobre pessoas como ele? Por que era tão difícil encontrar livros sobre pessoas com deficiência (PCD)?

Foi desse questionamento que Emílio criou o livro ‘As Pessoas com Deficiência na História do Brasil’, que chegou à sua quarta edição em março deste ano. Segundo ele explicou em entrevista exclusiva ao site da Aventuras na História, ele decidiu que era a hora de pessoas com deficiência terem sua “história devidamente pesquisada e escrita”.

Fotografia de Emílio escrevendo / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

 

O começo de tudo

Nascido em São Paulo em “uma noite romântica de setembro de 1969”, como ele mesmo narra em seu site, Emílio tem paralisia cerebral e problemas de coordenação motora e na fala, condições causadas pela falta de oxigenação em seu cérebro durante o parto.

Tendo crescido no interior paulista com os avós, ele se apaixonou pelas artes e pela escrita ainda muito novo. Dos poemas compostos aos 7 anos, Emílio passou a produzir reportagens aos 16 e, quando chegou aos 18, formou-se em jornalismo técnico.

Não demorou até que sua paixão pela escrita encontrasse raízes na militância por questões referentes às pessoas com deficiência. Dessa união, nasceram muitos dos mais de 70 livros publicados pelo autor, que tem cinco pós-graduações e dois doutorados.

Uma grande obra

Foi assim que surgiu a obra 'As Pessoas com Deficiência na História do Brasil’. Lançado pela primeira vez em 2008, ela tem o objetivo de reforçar a teoria de que a maioria das pautas que envolvem pessoas com deficiência no país surgem de questões culturais.

“Muitos que hoje falam ou trabalham com inclusão podem acreditar que esse é um fenômeno novo”, narra Emílio, em entrevista ao site da AH. “Só que as pessoas com deficiência sempre existiram e passaram despercebidas ao longo de séculos.”

“Meu livro quer mostrar que temos uma história. Ou melhor, que sempre estivemos presentes na história de todos”, pontua o autor, jornalista, psicólogo e psicanalista. “E, a partir dela, mesmo sendo um clichê, podemos evitar erros e visões culturais do passado.”

 

Heranças antigas

Em suas produções, inclusive, Emílio faz questão de pontuar que a discrimição contra pessoas com deficiência — termo incorporado ao texto da “Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência”, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em 2005 — é mais antiga do que pensamos.

“Basicamente, ao longo dos séculos, as pessoas com deficiência sempre foram vistas ou como maldição ou como coitadinhos e incapazes, eternos dependentes de ajudas”, pontua. “Interessante notar que, no Velho Testamento, éramos associados à maldição e castigos divinos”, explica, citando um de seus livros que analisa as PCD na Bíblia.

“No Novo Testamento, com a vinda de Jesus, parece que a gente ganhou alma, mas passamos a ser fortemente associados à caridade, à piedade e ao assistencialismo”, analisa Emílio. “Essa imagem começou a mudar justamente com o novo conceito de Inclusão dos anos 1990 e com a Educação Inclusiva.”

Fotografia de Emílio escrevendo / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

 

Críticas modernas

Para o autor, contudo, ainda existem muitas críticas a serem feitas com relação às atuais pautas da comunidade PCD no Brasil. “Infelizmente estamos vivendo um momento de retrocesso com relação aos direitos já conquistados pela pessoa com deficiência”, narra.

“Precisamos de uma união nacional fortalecida para ganharmos mais representatividade social. Por exemplo, hoje quando meios de comunicação citam minorias, falam de pautas que acho fundamentais para a atualidade, mas, fora matérias específicas, as pessoas com deficiência raramente são citadas”, lamenta Emílio.

O problema é que, para o escritor, muito desse movimento nasceu com as próprias pessoas com deficiência. Segundo Figueira, existiu um momento, entre 1970 e 1980, que a comunidade PCD realmente reinvidicou e conquistou diversos direitos.

“Só que, dentro do movimento, começaram a surgir muitas discussões, com algumas representações achando que tinham mais direitos do que as outras”, explica. “Com isso, foi tudo rachando, cada representação seguindo caminhos e reinvindicações diferentes.”

Uma discussão urgente

Crítico de toda essa conjuntura, Emílio busca discutir, analisar e enaltecer pautas da comunidade PCD em todas as suas produções, da escrita ao audiovisual. Apaixonado pelo cinema, ele já produziu diversos roteiros e tem seu próprio canal no Youtube.

O carisma e a facilidade em escrever, contudo, não ofuscam as críticas urgentes de Emílio. Quando fala sobre a possível volta da Educação Especial e do deslocamento de rendas públicas para instituições especializadas, por exemplo, ele é categórico: “é inconstitucional, é discriminação, é capacitismo, é violação de direitos humanos”.

Com o sonho de tornar-se cronista e produzindo novos livros de romance, Emílio faz questão de pontuar que “sim, a volta da Educação Especial no Brasil é Capacitismo” e ainda explica o termo. “É a discriminação e o preconceito social contra essas pessoas, em uma sociedade em que a ausência de qualquer deficiência é visto como o normal, e pessoas com alguma deficiência são entendidas como exceções.”


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