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Barbara Mackle: A herdeira enterrada viva por três dias

Em um sequestro, a estudante de 20 anos passou 83 horas debaixo do solo. Foi resgatada a tempo, desidratada e com 10 quilos a menos

sexta 15 junho, 2018
Barbara Mackle ficou enterrada debaixo do solo durante três dias
Barbara Mackle ficou enterrada debaixo do solo durante três dias Foto:Reprodução

O que era um dia normal para a garota Barbara Jane Mackle, estudante de 20 anos da Universidade Emory, em Atlanta, terminou em pesadelo. Filha do milionário Robert F. Mackle, um dos donos da Deltona Corporation, uma das maiores empresas de construção dos Estados Unidos, ela passaria três dias dentro de um caixão enterrado no subsolo – de onde sairia com vida.

Faltava pouco para o Natal de 1968 quando a gripe de Hong Kong atacou grande parte dos estudantes da universidade. Entre eles, estava Barbara. Sua mãe, Jane Mackle, dirigiu da casa da família, em Coral Gables, na Flórida, para buscar a filha em Atlanta e cuidar dela em casa. Na volta, as duas decidiram passar a noite em um pequeno hotel na cidade de Decatur, na Georgia.

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Já era tarde quando alguém bateu na porta do quarto de hotel. Uma voz masculina disse que Stewart Woodward, então namorado de Barbara, havia sofrido um acidente de carro. Ao abrir a porta, Jane Mackle deu de cara com um homem vestido de policial apontando uma arma – era Gary Steven Krist, de 23 anos. Ao lado dele, disfarçada de homem, estava Ruth Eisemann-Schier, de 26 anos. Eles fizeram Jane desmaiar, usando clorofórmio, e depois a amarraram e amordaçaram. Em seguida, ameaçaram Barbara com a pistola e a obrigaram a entrar em um carro azul.

Barbara em 1968, ao lado do pai e do irmão Reprodução

Gary Krist dirigiu cerca de 30 quilômetros em direção a uma floresta, em uma região isolada da cidade. Então, ele e Ruth forçaram Barbara a entrar em uma caixa feita de fibra de vidro, que eles haviam colocado em um buraco no solo. Dentro do caixão, os sequestradores deixaram comida, água misturada a sedativos, um cobertor, um pequeno ventilador e uma lanterna. Antes de parafusar a tampa do caixão e enterrar a garota viva, Krist colocou um papel sobre Barbara e tirou uma foto dela mostrando o que estava escrito: kidnapped (“sequestrada”).

Anos depois, Barbara se lembraria daquele momento, em que a terra ia caindo sobre o caixão: “Eu gritava e gritava. O som da terra foi ficando mais e mais longe. Finalmente, eu não conseguia ouvir mais nada. Gritei por um longo tempo depois disso”, escreveu no livro 83 Hours Till Dawn (83 Horas Até o Amanhecer), publicado em 1971.

No mesmo dia, o telefone tocou na casa da família Mackle. Uma voz deu as instruções: Barbara estava enterrada viva e iria sufocar até a morte, a não ser que Robert e Jane Mackle desembolsassem a quantia de 500 mil dólares – o equivalente a 3,5 milhões de dólares atualmente. Robert deveria colocar o dinheiro em uma maleta e ir sozinho até o local combinado. Se a família estivesse de acordo com os termos, colocaria um anúncio no jornal Miami Herald. Assim foi feito. Na manhã seguinte, lia-se as inocentes palavras nos classificados: "Amada, por favor, venha para casa. Nós pagaremos todas as despesas e encontraremos você em qualquer lugar, a qualquer hora."

Gary Krist, condenado à prisão perpétua Reprodução

Em uma nova ligação, dois dias depois, os sequestradores informaram o local onde Robert deixaria o dinheiro. O pai de Barbara fez tudo o que havia sido combinado. Mas a movimentação na área chamou a atenção de um morador, que alertou a polícia. Os agentes entraram em ação a tempo de ver os sequestradores fugirem com a maleta.

Próximo ao local, a polícia encontrou um Volvo azul. Dentro dele, havia uma foto Polaroid de Barbara Mackle, usando as mesmas roupas da noite em que foi vista pela última vez e segurando o papel com a palavra kidnapped.

Enquanto isso, Robert Mackle, desesperado para encontrar o local onde a filha havia sido enterrada, deu uma declaração pública para os sequestradores, garantindo que ele havia feito sua parte e que não havia chamado a polícia. Em resposta, Krist ligou para a casa dos Mackle e deu a localização aproximada de Barbara.

Ruth Eisemann-Schier, presa 79 dias depois de Krist Reprodução

Mais de 100 agentes do FBI foram acionados para ajudar a encontrar a garota. Eles procuraram por pistas e chamaram por Barbara durante horas, até que um deles ouviu uma leve batida vinda do solo. Imediatamente, todos começaram a cavar com as próprias mãos. Cerca de 12 minutos depois, Barbara Mackle foi tirada do caixão, fraca e 10 quilos mais magra, mas ilesa.

Gary Krist foi encontrado pilotando um barco na costa da Flórida – com ele, a maior parte do dinheiro do resgate. Ele foi preso e condenado à prisão perpétua, mas solto 10 anos depois. Ruth Eisemann-Schier foi para a cadeia 79 dias depois, em Norman, Oklahoma. Condenada a sete anos de prisão, foi solta depois de quatro e deportada para Honduras, seu país natal.

Em 83 Hours ‘Til Dawn, Barbara conta como conseguiu sobreviver por três dias debaixo da terra. Segundo ela, tentava se manter calma com pensamentos positivos, boas lembranças e a ideia de passar o Natal com sua família. Mas ela também teve momentos sombrios. “Três ou quatro vezes, eu pensei: 'esse vai ser o meu caixão'. Eu pensava em quem iria me encontrar. Quem, quando e como. Talvez um fazendeiro ou alguém que estaria construindo algo. Em dez anos? Vinte anos?".

Letícia Yazbek


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