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A — nada heroica — era do Cangaço

Conhecidos pela brutalidade, os cangaceiros foram muito influentes no século 19, aterrorizando as populações locais

Caio Tortamano Publicado em 24/11/2019, às 17h20

O bando de Lampião
O bando de Lampião - Wikimedia Commons

Foram os cangaceiros que introduziram o sequestro em larga escala no Brasil. Faziam reféns em troca de dinheiro para financiar novos crimes. Caso não recebessem o resgate, torturavam e matavam as vítimas, a tiro ou punhaladas. A extorsão era outra fonte de renda. Mandavam cartas, nas quais exigiam quantias astronômicas para não invadir cidades, atear fogo em casas e derramar sangue inocente.

Lampião e seu bando em momento de distração / Crédito: Reprodução

 

Ofereciam salvo-condutos, com os quais garantiam proteção a quem lhes desse abrigo e cobertura, os chamados coiteiros. Sempre foram implacáveis com quem atravessava seu caminho: estupravam, castravam, aterrorizavam. Corrompiam oficiais militares e autoridades civis, de quem recebiam armas e munição. Um arsenal bélico sempre mais moderno e com maior poder de fogo que aquele utilizado pelas tropas que os combatiam.

“A violência é mais perversa e explícita onde está o maior contingente de população pobre e excluída. Antes o banditismo se dava no campo; hoje o crime organizado é mais evidente na periferia dos centros urbanos”, afirma a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora do livro A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão.

A professora aponta semelhanças entre os métodos dos cangaceiros e dos traficantes: “A maioria dos moradores das favelas de hoje não é composta por marginais. No sertão, os cangaceiros também eram minoria. Mas, nos dois casos, a população honesta e trabalhadora se vê submetida ao regime de terror imposto pelos bandidos, que ditam as regras e vivem à custa do medo coletivo”.

Além do medo, os cangaceiros exerciam fascínio entre os sertanejos. Entrar para o cangaço representava, para um jovem da caatinga, ascensão social. Significava o ingresso em uma comunidade de homens que se gabavam de sua audácia e coragem, indivíduos que trocavam a modorra da vida camponesa por um cotidiano repleto de aventuras e perigos.

Era uma via de acesso ao dinheiro rápido e sujo de sangue, conquistado a ferro e a fogo. “São evidentes as correlações de procedimentos entre cangaceiros de ontem e traficantes de hoje. A rigor, são velhos professores e modernos discípulos”, afirma o pesquisador do tema Melquíades Pinto Paiva, autor de Ecologia do Cangaço e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Dentre eles, quem obteve mais destaque foi Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião. Seu apelido vinha da lenda que dizia que os tiros de Virgulino eram tão rápidos que ele conseguia iluminar o lugar.

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião / Crédito: Wikimedia Commons

 

Mas o primeiro cangaceiro que se tem registro foi José Gomes, o Cabeleira. Nascido no interior de Pernambuco, Cabeleira agiu de forma assídua em sua região durante o século 18, mas o movimento só ganhou força no final do século 19. O período foi de muita violência e terror para os habitantes do sertão nordestino.

Muitos cangaceiros se aproveitavam da impunidade que recebiam de autoridades locais, que contratavam os cangaceiros para serviços de cobrança, uma relação contraditória, mas comum, no mundo do crime.

Um destes casos foi o de Inocêncio Vermelho, que atuava no Ceará apoiado pelo juiz do município de Jardim até morrer e dar lugar a João Calangro, líder dos “Calangos”, que matou 32 pessoas e fugiu para o Piauí sem deixar paradeiros.

Uma origem razoável para a formação dos grupos de bandidos foi a da relação existente entre os fazendeiros donos de terras e vaqueiros, que eram pagos para proteger os interesses e propriedades de seus patrões.

Com intensas disputas políticas, os atritos entre famílias ricas era recorrente e cada vez maior, obrigando os fazendeiros a formarem pequenos exércitos para defender as terras. Com o número crescente de gente armada no sertão nordestino, não demorou para que começassem a surgir grupos autônomos armados no mesmo local.


Para saber mais sobre o tema indicamos as obras a seguir:

Apagando o Lampião: Vida e Morte do rei do Cangaço, Frederico Pernambucano de Mello (2018)

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Lampião. Herói ou Bandido?, Antônio Amaury Corrêa de Araujo (2010)

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Lampião e Maria Bonita: Uma história de amor entre balas, Wagner Barreira (2018)

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Cangaços, Graciliano Ramos (2014)

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