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Tortura, raptos e violações: as acusações contra Uday al-Tikriti, filho de Saddam Hussein

Após a morte do tirano, graves acusações contra Uday foram feitas por um doppelganger

Pamela Malva Publicado em 07/09/2020, às 09h00

Uday al-Tikriti em filmagem
Uday al-Tikriti em filmagem - Wikimedia Commons

Entre 1979 e 2003, Saddam Hussein mandou e desmandou no Iraque e, a partir do regime, ganhou sua reputação de ditador sanguinário. Por isso, quando seu governo chegou ao fim, muitos suspiraram de alívio.

O sadismo e a tirania, no entanto, não acabaram nem mesmo depois de sua morte, em 2006. Isso porque todos os traços cruéis de Saddam passaram para seu filho, Uday Saddam Hussein, como se estivesse no DNA.

Capaz dos piores crimes, Uday, por exemplo, sequestrava meninas na porta das escolas para, depois, estuprá-las e torturá-las de forma hedionda. Por mais que pareça enredo de filme de terror, essa, por muito tempo, foi a narrativa da história de Latif Yahia, o homem que foi forçado a viver com Uday.

Latif nasceu quatro dias antes do filho de Saddam, em 1969. Os dois frequentaram a mesma escola e tiveram seus destinos cruzados mais tarde, quando Uday fez uma proposta indecorosa ao antigo colega de classe.

Após anos e mais anos de puro terror, Latif colocou todo seu sofrimento em palavras e descreveu cada crueldade do tirano em um livro, que virou o filme The Devil's Double (O Dublê do Diabo, em português). Na obra, ele narra como tudo começou.

A família Saddam, com Uday em pé ao centro / Crédito: Wikimedia Commons

 

Proposta indecente

Em meados de 1980, Latif servia ao exército iraquiano quando foi convocado até o Palácio Presidencial. Uma vez na residência, ele ficou cara a cara com Uday. Em entrevista à BBC Brasil, Latif lembra: “Ele me perguntou: 'O que você acharia de ser filho de Saddam Hussein'?''.

Da forma mais patriótica que pôde, como o soldado que era, Latif respondeu que todos eram filhos de Saddam Hussein. Nesse momento, Uday retrucou: “Não, quero que você seja o meu fiday (aquele que se sacrifica pelo outro, ou um dublê), quero que você seja Uday Hussein”.

“Se você disser não, você fica à vontade para voltar ao seu Exército. O Iraque é um país livre”, o filho de Saddam disse, assim que Latif perguntou o que aconteceria caso ele negasse o emprego. Latif ficou aliviado. Sentimento esse que passou logo que Uday se retirou.

Rapidamente, os capangas de Uday capturaram Latif e o jogaram no porta-malas de um carro. Ele foi mantido em uma cela por dias, até que o tirano reapareceu e perguntou se o antigo colega aceitaria o emprego. “Ou quer que eu traga as duas irmãs?”, ameaçou. “Respondi que aceitava”, contou Latif.

Latif Yahia, o dublê de Uday / Crédito: Wikimedia Commons

 

Oportunidade única

Assim que aceitou o pedido de Uday, Latif foi submetido a várias cirurgias plásticas, em 1987. “Eu tinha que ser igual a ele em tudo”, conta. Ele teve de cortar laços com sua família e abdicar de sua identidade, além de testemunhar o pior lado de Uday.

Latif era obrigado assistir às sessões de estupros e torturas — sem contar os momentos em que ele próprio era o torturado. Ele, no entanto, nunca permitiu que um limite em especial fosse ultrapassado. “Certa vez, Uday me pediu que eu matasse um homem”, conta. “Eu me neguei e cortei meus pulsos ali mesmo. Desde então, ele nunca mais me pediu para fazer algo assim.”

Enquanto trabalhava como dublê, Latif sabia de todos os empregos do filho de Saddam. Uday chegou a ser presidente do Sindicato dos Jornalistas do Iraque, dono de um jornal e de uma estação de TV, líder do Comitê Olímpico e líder da Federação de Futebol do país.

Latif já caracterizado como Uday / Crédito: Wikimedia Commons

 

Aviso prévio

Em 1991, Latif viu sua chance de fugir das garras do tirano e conseguir sua liberdade. Ele escapou, chegou ao norte do Iraque e foi resgatado pela CIA. A família dele, entretanto, não teve a mesma sorte: “Minha família foi presa. E Uday matou meu pai em 1995”. Atitude essa que Saddam repudiou fortemente, pedindo desculpas à família de Latif.

O alívio em vida só veio realmente em 2003, quando o tirano foi morto durante uma operação militar americana. Por dentro, entretanto, Latif nunca conseguiu seguir em frente. “Consegui fugir há 20 anos, mas, desde então, nunca mais fui capaz de dormir uma só noite”, lamenta.


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