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Serra Pelada: As duras leis do tenente Curió

Segundo os relatos dos garimpeiros, as censuras impostas pelo tenente Curió eram explícitas e inapeláveis. Ou mantinham total obediência ao interventor ou seriam expulsos aos pontapés

M.R. Terci Publicado em 19/07/2019, às 05h00

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Major Curió / Crédito: Reprodução

Apenas três meses após a descoberta da jazida, cerca de 25 mil homens se revezavam no trabalho diário e extenuante de carregar 40 quilos de barro nas costas, subindo escadas de cordas perigosíssimas, conhecidas como adeus-mamãe, nas altas encostas de Serra Pelada.

Tal fluxo de trabalhadores sobrecarregou os órgãos municipais da pequena cidade de Marabá. Alegando impossibilidade de gerir aquele mundo de gente, solicitaram ajuda do governo federal. O primeiro órgão a chegar à Serra Pelada foi uma subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, encarregada de prover infraestrutura de garimpo em troca do monopólio de compra do ouro.

Ao final do primeiro semestre de 1980, mais 30 mil garimpeiros já se haviam deslocado para a área.  Já se registravam incontáveis distúrbios envolvendo garimpeiros temerosos com os boatos de fechamento da jazida.

O governo, então, engrossou o tom, enviando um interventor juntamente com um grande destacamento de policiais federais e civis. Numa chegada triunfante, o tenente Sebastião Rodrigues de Moura, homem de confiança do presidente, conhecido pela sua atuação no combate da Guerrilha do Araguaia, desceu de um helicóptero e, de imediato, fez valer sua autoridade, impondo, à ferro e fogo, ordem no garimpo.

Tal foi o impacto desse personagem, que a partir desse ponto, os anais de Serra Pelada se confundem com os relatos creditados ao tenente Moura, que mais tarde seria conhecido pela alcunha de Curió. Segundo os relatos dos garimpeiros, as censuras impostas pelo tenente Curió eram explícitas e inapeláveis. Ou mantinham total obediência ao interventor ou seriam expulsos aos pontapés.

O garimpo passou a funcionar como um verdadeiro campo de concentração. Para manter o controle, Curió proibiu o consumo de bebidas alcoólicas e a presença de mulheres no garimpo. Todos os movimentos dos garimpeiros, desde a coleta nos barrancos, ascensão penosa pelas adeus-mamãe e lavagem na bateia, eram acompanhados pelos olhos de aço de policiais federais, militares e também pelos grandes proprietários dos barrancos que detinham poder de mando sobre milhares de garimpeiros.

Até a chegada de Curió, muitos garimpeiros portavam armas de fogo, verdadeiro faroeste caboclo, onde os tiroteios eram constantes. O cemitério local prosperava em número de covas.

Curió fez do contingente de garimpeiros um imenso exército que cumpria suas ordens à risca, temerosos, pois, de perder seu único meio de subsistência ou ser submetido a humilhantes punições como deitar-se de barriga para baixo sob um escaldante sol de 40º, levantar alternadamente o braço esquerdo e a perna direita ou, ainda, colocar o dedo indicador no chão e ficar girando durante alguns minutos.

No caso de roubo, depois de ter sua cabeça raspada, o garimpeiro era obrigado a confessar o crime diante da turba e ser definitivamente expulso para fora do garimpo.

O lendário garimpo no sudeste do Pará guardava em seu subsolo uma incalculável fortuna em ouro. As condições de trabalho, inobstante os esforços governamentais, continuavam precárias. Calor intenso, poeira de monóxido de ferro perpetuamente no ar, ferramentas danificadas, barrancos altamente perigosos, quedas e desmoronamentos que causavam acidentes e constantes fatalidades. Apesar de todos os perigos e mortes, os garimpeiros trabalhavam dia e noite, na esperança de bamburrar — expressão relacionada ao fato de enriquecer repentinamente.

O desfecho da história mostra, contudo, que a maioria do ouro extraído viria a beneficiar principalmente uma minoria de intermediários do governo, grandes empresários e cafetões que gerenciavam as inúmeras casas de prostituição, chamadas de Troca Tapas, que eram inauguradas, às dúzias, nas cidades vizinhas para atender as carências afetivas dos garimpeiros.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.