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Sexismo e preconceito: 5 cientistas que foram esnobadas por suas descobertas

Essas mulheres fizeram importantes descobertas em seus campos de estudo, no entanto, tiveram seus papeis apagados ou diminuídos

Fabio Previdelli Publicado em 13/01/2021, às 17h52

Montagem/ Wikimedia Commons
Montagem/ Wikimedia Commons - Da esquerda para direita: Jocelyn Bell Burnell, Esther Lederberg, Chien-Shiung Wu, Rosalind Franklin e Nettie Stevens

Durante toda a História, mulheres tiveram um papel fundamental em vários momentos da ciência. Porém, com o passar do tempo, muitas tiveram legados perdidos e esquecidos, fazendo com que suas descobertas se tornassem desconhecidas para muitos.  

Muito disso aconteceu em virtude do sexismo latente no mundo da ciência, que era dominado pelos homens. Apesar de a diminuição acontecer ainda hoje em muitas áreas, o problema era ainda maior nas décadas passadas, com mulheres especialistas sendo tratadas como meras voluntárias ou com suas descobertas significativas sendo atribuídas a seus colegas homens.  

Elas, normalmente, tinham recursos insignificantes e travaram batalhas árduas para alcançar o que conquistaram, apenas "para ter o crédito atribuído a seus maridos ou colegas homens", disse Anne Lincoln, socióloga da Southern Methodist University no Texas, que estuda preconceitos contra as mulheres no ciências, em entrevista ao National Geographic

Pensando em reviver essas memórias esquecidas, o site Aventuras na História separou o perfil de cinco delas. Confira.

1. Jocelyn Bell Burnell 

Nascida na Irlanda do Norte em 1943,  Jocelyn Bell Burnell fez uma importante descoberta em 1967, quando ainda era estudante de radioastronomia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Na ocasião, ela descobriu os Pulsares — que são os restos de estrelas massivas que se tornaram supernovas.  

Jocelyn Bell Burnell/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Sua própria existência demonstra que esses gigantes não caíram no esquecimento. Em vez disso, eles deixaram para trás pequenas estrelas giratórias incrivelmente densas. Bell Burnell descobriu os sinais recorrentes emitidos por sua rotação enquanto analisava dados impressos em cinco quilômetros de papel de um radiotelescópio que ela própria ajudou a montar. 

A descoberta resultou em um Prêmio Nobel, entretanto, o prêmio de física de 1974 foi para Anthony Hewish, seu supervisor, e para Martin Ryle, também radioastrônomo da Universidade de Cambridge.


2. Esther Lederberg 

Nascida em 1922 no Bronx, Esther Lederberg estabeleceu as bases para futuras descobertas sobre herança genética em bactérias, regulação de genes e recombinação genética. Em 1951, enquanto estava na Universidade de Wisconsin, ela descobriu um vírus que infecta bactérias: o bacteriófago lambda. 

Esther Lederberg/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Junto a seu primeiro marido, Joshua Lederberg, Esther também desenvolveu uma maneira de transferir facilmente colônias bacterianas de uma placa de Petri para outra, técnica chamada de replica plating (ou placa réplica, em tradução) — que possibilita o estudo da resistência aos antibióticos. O método de Lederberg é usado ainda hoje. 

O trabalho de Joshua Lederberg em placa réplica foi fundamental para que ele ganhasse o Prêmio Nobel de fisiologia ou medicina de 1958, que compartilhou com George Beadle e Edward Tatum. Já Esther foi deixada de lado pelo próprio marido.


3. Chien-Shiung Wu 

Nascido em Liu He, na China, em 1912, Chien-Shiung Wu derrubou uma lei da física e participou do desenvolvimento da bomba atômica. Na década de 40 ela foi recrutada pela Universidade Columbia para fazer parte do Projeto Manhattan, aonde conduziu pesquisas sobre a detecção de radiação e enriquecimento de urânio.  

Chien-Shiung Wu/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Pós-Guerra ela permaneceu nos Estados Unidos e era reconhecida como uma das melhores físicas experimentais de seu tempo. Na década seguinte, os físicos teóricos Tsung-Dao Lee e Chen Ning Yang a convidaram para ajudar a refutar a lei da paridade — a lei sustenta que, na mecânica quântica, dois sistemas físicos, como átomos, que seriam como imagens de um espelho, se comportariam de maneiras idênticas. 

Os experimentos de Wu usando cobalto-60, uma forma radioativa do metal cobalto, derrubaram essa lei que era aceita há 30 anos. Este marco na física fez com que Yang e Lee ganhassem o Prêmio Nobel de 1957. Mas Wu foi deixada de fora, apesar de seu papel crítico.


4. Rosalind Franklin 

Nascida em 1920, em Londres, Rosalind Franklin usou raios X para tirar uma foto do DNA que mudaria a biologia para sempre. Porém, segundo pesquisadores e especialistas da área, é dela um dos mais conhecidos — e vergonhosos — exemplos de uma pesquisadora que foi privada de crédito. 

Rosalind Franklin/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Após o doutorado em físico-química pela Universidade de Cambridge, em 1945, Franklin passou três anos em Paris, onde aprendeu técnicas de difração de raios-x. Quando voltou para a Inglaterra, em 1951, virou pesquisadora associada no laboratório de John Randall, o King’s College. Lá se encontrou com Maurice Wilkins, que liderava seu próprio grupo de pesquisa que estudava a estrutura do DNA. 

Franklin e Wilkins trabalharam em projetos separados de DNA. Enquanto isso, James Watson e Francis Crick, ambos da Universidade de Cambridge, também tentavam determinar a estrutura do DNA. Eles se comunicaram com Wilkins, que em algum momento lhes mostrou a imagem do DNA de Franklin — conhecida como Foto 51 —, sem o seu conhecimento. 

A foto 51 permitiu que Watson, Crick e Wilkins deduzissem a estrutura correta para o DNA. O estudo foi publicado em uma série de artigos na revista Nature, em abril de 1953. Franklin também publicou na mesma edição, fornecendo mais detalhes sobre a estrutura do DNA. 

A imagem da molécula de DNA tirada por Franklin foi a chave para decifrar sua estrutura, mas apenas Watson, Crick e Wilkins receberam o Prêmio Nobel de fisiologia ou medicina de 1962 por seu trabalho.


5. Nettie Stevens 

Nascida em 1861 em Vermont, Nettie Stevens realizou estudos cruciais para determinar que o sexo de um organismo era ditado por seus cromossomos, e não por fatores ambientais. No Bryn Mawr College, na Pensilvânia, ela se formou e desenvolveu seu estudo da determinação do sexo.  

Nettie Stevens/ Crédito: Wikimedia Commons

 

Analisando larvas de farinha, Stevens foi capaz de constatar que os machos produziram espermatozoides com cromossomos X e Y — os cromossomos sexuais — e que as fêmeas produziram células reprodutivas com apenas cromossomos X. Esta foi a evidência que apoia a teoria de que a determinação do sexo é dirigida pela genética de um organismo. 

Um de seus colegas, Edmund Wilson, teria feito um trabalho semelhante, no entanto, ele chegou a mesma conclusão que Nettie muito tempo depois. No entanto, quem acabou ficando com todo o crédito pela descoberta foi Thomas Hunt Morgan, um proeminente geneticista da época, que foi o primeiro a escrever um livro de genética.  

Buscando a ampliar suas contribuições na área, ele passou a se corresponder por cartas com outros cientistas, inclusive com Nattie Stevens, de quem pediu detalhes sobre seus experimentos. Quando ela morreu de câncer de mama, em 1912, ele escreveu sobre ela na revista Science. 


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