Sexo na tela

Egon Schiele era um cara meio tímido que amava as mulheres. Adorava seus corpos e adorava vê-los nus. E sabia pintar como poucos. Com essa última qualidade abalou a Viena em 1900 e ganhou a fama de maldito

Celso Miranda Reportagem Carolina Pulici Publicado em 01/01/2019, às 13h44

igreja uma torre
igreja uma torre - Saulo Mazzoni

Quando o herdeiro do trono austro-húngaro Francisco Ferdinando (aquele cujo assassinato seria o estopim para a Primeira Guerra Mundial) visitou pela primeira vez uma exposição do pintor Egon Schiele, recomendou a seu pai, o imperador Francisco José que proibisse que tal evento fosse divulgado na imprensa, pois julgava que ninguém deveria entrar em contato com "tamanha obscenidade".

Não era para menos. Nem na Viena no fim do século 19 " capital do Império Austro-Húngaro e até então o centro cultural da Europa " quadros tão provocativos haviam sido mostrados. Em algumas das telas que escandalizaram o príncipe Habsburgo, viam-se mulheres nuas e sensualmente posicionadas de forma a fazer inveja às mais indistintas borracharias de beira de estrada, cenas de masturbação, um bispo e uma freira flagrados em momento de adoração mútua e, cúmulo do exibicionismo, o corpo nu do próprio artista, em que ele aparece com o pênis rubro e ereto. Schiele viveu pouco, morreu aos 28 anos. Mas enquanto pôde provocou escândalo e confusão com seus quadros depravados e seu jeito meio irreverente de ser. Viveu na pobreza, passou fome, foi preso, acusado de seduzir uma menina de 13 anos. Qualidades que fizeram dele, cerca de 50 anos depois de sua morte, um ídolo entre os artistas da geração punk de Nova York, como a pintora Patti Smith.

Egon Schiele nasceu em junho de 1890, em Tulin, na Áustria, uma pequena cidade às margens do rio Danúbio. A vida por ali não era diferente da de outras cidades nos arredores de Viena. O jovem Egon tinha pouco interesse pelos estudos e nenhum pelos negócios do pai, Adolph, chefe da estação ferroviária local. Aos 15 anos, ficou órfão e passou a viver com o tio, o primeiro a reconhecer seu talento para o desenho.

Outra característica que o aproxima da cultura dos punks, era sua insatisfação com qualquer tipo de arte "oficial". Assim, apesar de entrar na Academia de Belas Artes, em 1906, ele nunca se enquadrou entre a classe artística de Viena. Não levava muito a sério as aulas ou os professores e, em 1909, abandonou definitivamente o curso. Mas sua passagem pela Academia lhe rendeu pelo menos uma coisa: um amigo. Gustav Klimt na época já era famoso entre a vanguarda artística vienense e reconheceu desde logo o talento de Schiele (veja quadro na página 57). Do seu lado, Schiele admirava o amigo, mas achava que eram diferentes demais para tomá-lo como exemplo. "Ironicamente, a admiração de Klimt, que se tornou seu grande mestre na escola, contribuiu para que Schiele decidisse buscar um caminho diferente, longe da Academia", diz Erwin Mitsch, autor do livro The art of Egon Schiele ("A Arte de Egon Schiele", inédito no Brasil).

Seja com uma banda de rock, seja pintando quadros, nunca foi fácil iniciar uma carreira de artista independente. Nem hoje, nem em Viena em 1900. A cidade vivia uma crise política, social e econômica, quando Schiele chegou por lá. Com o pouco dinheiro que tinha no bolso " uns trocados que o tio lhe enviava de vez em quando " ele conseguiu alugar um ateliê. E só. Schiele vivia de forma miserável, sua casa não tinha móveis nem aquecimento. Quase não comia. Mas ele não ligava. Em suas cartas da época, endereçadas à família e aos amigos, ele falava de seus problemas com dinheiro. "Me acostumei a fazer apenas uma refeição. Às vezes, nenhuma. Mas procuro sempre comer algo fresco, assim que posso", escreveu para a irmã Marie, em 1907.

Viena podia não ser mais o melhor lugar do mundo para um artista ganhar dinheiro, mas, por outro lado, os ares de radical decadência inspiravam novas idéias, novos jeitos de entender o mundo. "Depois de ter visto dias melhores e ocupado o posto de centro cultural da Europa por tanto tempo, quando abrigou as notas de Mozart e Beethoven, na virada do século 18 para o 19, a cidade vivia a decadência de um Império em seus últimos dias", afirma o historiador americano Carl Schorske, autor de Viena fin-de-siècle ("Viena Fin-de-Siècle", assim mesmo, em francês, saiu no Brasil, mas está há alguns anos fora de catálogo). Na velha Viena vivia-se sob o peso do pensamento pessimista, comum a toda uma geração influenciada pela filosofia trágica e irracionalista de Kierkegaard, de Schopenhauer, ou mesmo de Nietzsche. Artistas e intelectuais expressavam o sentimento geral de angústia existencial perante a precariedade da condição humana e de sua irremediável finitude. Gente como o escritor Franz Kafka. Ouvia-se os tristes acordes de Gustav Mahler e, é claro, começava-se a conhecer os experimentos no campo da mente e da sexualidade do doutor Freud, que lançou sua A Interpretação dos Sonhos, em 1899 (apesar dele ter mudado a data da capa para 1900, para associar a obra com o século que começava).

Mas pensar (e escrever) é uma coisa. Mostrar é outra. E Egon Schiele adorava mostrar. Klimt pintava mulheres nuas, mas Schiele as mostrava em posições tão ousadas que não era qualquer modelo que se dispunha a trabalhar com ele. "Ele não recuava diante de nenhum tabu e, diferentemente de Klimt ou Picasso, outro artista que fazia sucesso pintando a nudez feminina, Schiele retratava o nu erótico também de homens, mulheres com outras mulheres e até a si mesmo masturbando-se", diz Reinhard Steiner, autor do livro Egon Schiele (1890-1918): a Alma Noturna do Artista.

As teorias de Freud sobre a sexualidade e os quadros de nudez apimentada de Schiele não têm em comum apenas o tempo e o local em que foram produzidos. "Para Schiele a sexualidade não é algo natural. Ela é neurótica, reprimida. E sua obra pode ser considerada freudiana, na medida em que fala sobre as perversões, as neuroses de cada um", diz Cláudia Valladão de Mattos, especialista em história da arte da Univesridade Estadual de Campinas. "Isso era revolucionário, se pensarmos que os conceitos freudianos estavam apenas começando a ser divulgados." Para ela, foi esse aspecto da obra de Schiele " a idéia de que a fonte de toda neurose humana é a sexualidade " que chocou a sociedade e motivou a repressão ao seu trabalho.

De fato, a arte de forte apelo sexual de Schiele não passaria desapercebida no começo do século 20. Em 1909, ele já conseguia algum dinheiro e reconhecimento, o que só ajudou a chamar a atenção dos guardiães da moral " a Imprensa, dominada por grandes negociantes, e as autoridades imperiais e religiosas ", que achavam o erotismo deliberado uma depravação. Isso valeu ao artista os epítetos de Egon "perverso" Schiele e Schiele, "o pintor das imagens indecentes".

Mas apelidos não machucam ninguém, não é mesmo? Bem, talvez quando a gente é criança e está na escola. Mas Schiele já estava grandinho. Em 1910 expôs ao lado de bambambãs do expressionismo como Van Gogh e Matisse. Mesmo assim, quando as acusações de depravação tornaram-se mais freqüentes e agressivas, ele resolveu que era hora de se mandar. Em uma carta de maio daquele ano endereçada ao amigo e cunhado Anton Peschka, o artista falou da vontade de deixar Viena: "Quero ir embora daqui o quanto antes. Como é horrível. Todos são maldosos e invejosos comigo. Ex-colegas me tratam de maneira inteiramente falsa. Em Viena, tudo não passa de sombra, a cidade é negra e totalmente obediente às regras".

Schiele foi para Krumau, no sul da Boêmia (região no limite entre o Império Austro-Húngaro e a Alemanha). Ali ele alugou um estúdio e voltou a pintar, fazer amigos, arrumar namoradas... essas coisas que qualquer jovem de 20 anos faz quando tem algum dinheiro no bolso e não é completamente feio. Mas seu jeitão desmiolado e principalmente suas pinturas voltaram a lhe trazer problemas. Mesmo expostas apenas nas paredes de seu ateliê, onde ele recebia os amigos, as telas com as "imagens indecentes" geraram problemas com a vizinhança.

Em 1911, enquanto se dedicava quase que exclusivamente a explorar as técnicas da aquarela, produzindo algumas de suas séries mais célebres, sua fama de pervertido sexual se espalhou, até que um grupo de moradores o expulsou da cidade sob ameaças para lá de hostis. Schiele deixou Krumau e, na pressa, deixou para trás algumas pinturas que hoje valeriam milhões e que foram queimadas pela turba enfurecida.

Indignado com a censura, o pintor partiu para Neulengbach, outro lugarejo da província, onde conheceu Wally Neuzil, uma das principais modelos de Klimt. Wally, pouco mais velha que Schiele, passou a posar para ele e logo se tornaram amantes e foram morar juntos. Mas nem o novo lar, a namorada ou o sucesso " em poucos meses, em 1912, Schiele expôs em Budapeste, Munique e Viena " garantiram tranqüilidade ao artista. Não que ele a procurasse, diga-se de passagem. Em setembro, enquanto produzia aquarelas em série para abastecer os salões e galerias internacionais que desejavam suas obras, Schiele foi abordado em seu ateliê. Eram quatro policiais que tinham ordens para levá-lo sob custódia. Só na delegacia, numa sala abafada atrás de um porta de ferro, é que foi saber que estava sendo acusado por um ex-oficial da marinha de seduzir sua filha de 13 anos. A denúncia era gravíssima. Os crimes de "desvio de menores" e "disseminação de desenhos indecentes" podiam render uma cana e tanto.

Não sabemos o que aconteceu entre as quatro paredes do ateliê do artista. Sabemos, sim, que por ali andavam meninos e meninas, muitos deles pouco maiores que crianças. Alguns eram modelos, outros, amigos dos modelos. E havia ainda os curiosos. A versão apresentada na polícia acusava Schiele de pintar uma menina de 13 anos nua contra a vontade dela (ou pelo menos contra a vontade do pai dela). A versão de Schiele que se conhece não é lá muito elucidativa e foi relatada pelo crítico de arte húngaro, Heinrich Benesch, no clássico de 1945, Mein Weg mit Egon Schiele ("Minha Fuga com Egon Schiele", inédito em português). "Com sua afabilidade, Schiele tolerava freqüentemente que, ao terminar seus desenhos com jovens modelos, bandos inteiros de rapazes e moças, colegas de escola dos modelos, viessem ao seu estúdio e lá se demorassem. Schiele tinha pendurado uma aquarela de uma rapariga muito nova, apenas com o tronco vestido. As crianças, que não eram completamente inocentes, brincaram entre si a respeito da obra, falaram dela, e seguiu-se uma queixa."

Schiele permaneceu preso aguardando a decisão do tribunal e, depois de algumas semanas, foi libertado, condenado a pagar multa e destruir o retrato da menina. Em carta de maio de 1912 ao amigo Arthur Roessler, Schiele falou da "maneira deplorável" como terminou o processo movido contra ele: "Estou num estado lamentável, profundamente deprimido. Passei 24 dias preso, sabia? Tive que suportar todo tipo de coisa".

Egon Schiele já era famoso, consagrado mesmo. Quando chegou à exposição em Colônia, no final de 1912, foi assediado como um popstar. Em dois anos, ele participou de exposições em Budapeste, Munique, Berlim, Dusseldorf, Hamburgo e Viena. Em 1913, realizou sua primeira exposição individual em Munique e, no ano seguinte, com as mostras em Roma, Paris e Bruxelas, Schiele expôs pela primeira vez em países não germânicos. Virou um astro, voltou a Viena e resolveu sossegar.

Em 1915, terminou com Wally Neuzil para se casar com Edith Hams, filha de uma família tradicional. Mas nem houve tempo para lua-de-mel. O príncipe Francisco Ferdinando, aquele que não gostava de suas obras, foi assassinado, e a confusão que se seguiu colocou o artista no meio de uma Guerra Mundial. Servindo no exército em Praga, Schiele nunca entrou em combate, é verdade, mas sua vida nunca mais seria a mesma.

Quando a guerra passou, apesar de ter estado do lado derrotado, Schiele era um dos pintores mais admirados na Europa. Em 1918, quando Klimt morreu, ele já era tão reconhecido no meio artístico de vanguarda que foi convidado a suceder o mestre no lugar principal na 49ª Exposição de Secessão Vienense. No auge do sucesso, quando seus quadros estavam sendo expostos em quase toda a Europa, o pintor das "imagens indecentes" amargaria uma tragédia em família. Em 28 de outubro, sua mulher Edith, grávida de seis meses, morreu de gripe espanhola. Três dias depois foi a vez do próprio Schiele, vítima da mesma epidemia.

 

Viena, fim do século

Racionalismo deu lugar a novos tempos, onde instintos foram liberados

 

A arte provocante de Schiele não foi a única a perturbar os valores e gostos estabelecidos na Europa, no final do século 19. Na Viena do fim do século o que não faltavam eram transgressores. "Os austríacos entregaram-se a reformulações críticas ou transformações subversivas de suas tradições, que foram reconhecidas pela sociedade como radicalmente novas, ou revolucionárias", diz o americano Carl Schorske, um especialista em história da cultura. Para ele, Viena vivia nesta época uma "revolta edípica coletiva". Revoltando-se contra os diagnósticos médicos tradicionais, Freud inventava a Psicanálise, ciência que veio propor explicações absolutamente revolucionárias da condição humana. A revolta contra a tradição também alcançou a arte, que se libertou das restrições acadêmicas legadas pelos mais velhos. Em 1897, o pintor Gustav Klimt funda o movimento artístico da Secessão, cuja primeira exposição ostentava um cartaz que anunciava a revolta das gerações. "Simultaneamente, a Secessão proclamava sua função regeneradora, dando à sua revista o nome de Primavera sagrada. O título se baseava num ritual romano de consagração dos jovens em épocas de perigo nacional. Enquanto em Roma os mais velhos entregavam seus filhos a uma missão divina para salvar a sociedade, em Viena os jovens se entregavam à missão de salvar a cultura das mãos dos mais velhos", afirma Schorske. Também no campo das Letras, "os playboys de Schnitzler e os estetas de Hofmannsthal são produtos equivalentes da dissolução da fé dos filhos nas perspectivas dos pais", diz Schorske. Nesta busca por uma nova identidade, a revelação da vida instintiva ocuparia um lugar central. A "razão" e os valores nela baseados foram sendo ofuscados pela descoberta dos incontroláveis impulsos subconscientes do homem. Confrontando os códigos morais vigentes, a literatura dos anos 1890 defendeu a abertura psicológica e especialmente a sexual : "Hofmannsthal, em seu Idílio Sobre uma Pintura de Vaso Antigo, mostrava sua heroína madura para se entregar à sexualidade", afirma Schorske. No campo da psicologia e da pintura, Freud e Klimt estiveram igualmente empenhados em explorar o mundo dos instintos, contrariando as concepções racionalistas da condição humana. Se na contramão das análises médicas tradicionais, as teorias do pai da Psicanálise afirmavam as causas sexuais das neuroses, também Klimt empenhou-se em tirar do túmulo as forças sexuais que haviam sido enterradas, passando a pintar corpos de mulheres bem torneados e sexuados, com os pêlos púbicos em evidência. "Na sua exploração do erótico, Klimt baniu o sentido moral do pecado que atormentara os pais virtuosos", diz Schorske.

 

Ao mestre com carinho

Schiele adorava a obra de Klimt

 

Figura dominante na vanguarda artística austríaca dos primórdios do século 20, o pintor Gustav Klimt (1862-1918) é tido como a grande inspiração artística de Egon Schiele. Desde 1897, Klimt liderava o grupo da "Secessão" de Viena, movimento que propunha uma nova orientação na forma visual. Sob o lema "uma arte para esta época. E para a arte, a liberdade", os secessionistas denunciavam a rigidez dos cânones acadêmicos do historicismo, pregando a reconciliação entre a arte e a vida. Além de ter lutado para legitimar a arte anti-acadêmica, Klimt abriu o caminho para a estilização do erotismo, tendo tido inclusive algumas de suas obras confiscadas. "Na grande tradição, a nudez tinha sido legitimada com representações idealizantes. O que ofendia em Klimt era a concretude naturalista dos corpos, suas posturas e posições", diz Schorske. Mas as imagens eróticas de Klimt são ainda sutis, sobretudo devido ao excesso de ornamentos que envolve a figura retratada. Já Schiele traz para o centro do quadro uma sexualidade deliberada, optando pela ausência total de composição de fundo. "Em Klimt, o espectador penetra na esfera íntima da pessoa, é levado a ver uma cena que não lhe é destinada. Em Schiele, pelo contrário, os nus representados transmitem a impressão de poses que o artista criou conscientemente", afirma Reinhard Steiner em Egon Schiele: a Alma Noturna do Artista. Outra diferença diz respeito aos grupos sociais que um e outro estilizaram em suas pinturas. "Se Klimt foi o pintor do mundo da antiga finança, poderíamos definir Schiele como o desenhista do proletariado. Esses dois pintores tipicamente urbanos se distinguem assim pela relação que mantinham com os dois pólos extremos da estrutura social", afirmou o crítico alemão Anton Faistauer, contemporâneo de Schiele e Klimt, que conviveu com ambos em Viena.

 

Saiba mais

 

 

 

Livros

Egon Schiele: a Alma Noturna do Artista, Reinhard Steiner, 1993 - A obra de Schiele à luz da história de vida do pintor, bem como do contexto social em que esteve inserido

Viena Fin-de-siècle, Carl Schorske, 1961 - A conexão entre a efervescência cultural da Viena e a conjuntura de crise político-social

Tout L"oeuvre Peint de Schiele, Gianfranco Malafrina, 1974 - Reproducão de obras, trechos de cartas e excertos de jornais e catálogos