Heroico Calhambeque: M-4 Sherman

Em enorme desvantagem, o modesto e algo precário tanque americano ainda assim tornou-se um ícone da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial

quarta 21 fevereiro, 2018
O M-4 foi resultado da pressa dos americanos de colocar em ação um tanque médio que pudesse chegar aos campos de batalha
O M-4 foi resultado da pressa dos americanos de colocar em ação um tanque médio que pudesse chegar aos campos de batalha Foto:Wikimedia Commons

Mesmo antes de entrarem definitivamente na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos voltaram seu gigantesco parque industrial para a produção de armamentos. O resultado dessa investida é que o país deixou para a história das guerras uma série de lendários aviões, veículos e navios, criados na urgência de combater a ameaça expansionista das potências do Eixo. Dentre as lendárias máquinas militares fabricadas em massa durante o conflito, destaca-se o tanque médio mais produzido pelos americanos e usado em todos os fronts da época: o Sherman M-4.

Esse tanque não era nenhum primor de design. Afinal, foi concebido com a idéia principal de facilitar a produção em massa, a começar por seu motor radial de 9 cilindros, escolhido para equipar o M-4 por ser encontrado em grande quantidade naquele momento – era o mesmo motor usado em alguns aviões da época. Mais tarde, outros motores mais convencionais seriam usados.

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Cabe lembrar que os Estados Unidos estavam bem atrasados no conceito de tanques, especialmente em comparação com os alemães e os russos. O Sherman já nasceu defasado, criado a partir de projetos de tanques obsoletos em design, como o M3 Lee/Grant. (Uma curiosidade: os ingleses é que batizaram os tanques fabricados pelos americanos com os nomes de generais famosos da Guerra da Secessão, como por exemplo Stuart, Lee, Grant, Jackson e Sherman.)

O M-4 foi resultado da pressa dos americanos de colocar em ação um tanque médio que pudesse chegar aos campos de batalha, contando com os meios de produção possíveis na época. Em pouco tempo, os M-4 eram testados no norte da África e na frente russa, enviados pelos Estados Unidos em apoio a seus aliados. Mas, ao entrar em ação, as fraquezas do Sherman ficaram evidentes: o armamento e a blindagem eram insuficientes para fazer frente aos tanques e armas antitanque alemãs. O canhão de 75 mm e a blindagem frontal de apenas duas polegadas deixavam o M4 fragilizado frente ao inimigo. Outro ponto fraco era a facilidade com que se incendiava, justificando seu apelido, “Ronson” (nome de um isqueiro canadense cujo anúncio dizia: “sempre acende de primeira”). O potencial de incêndio do M-4 é motivo de controvérsia. Há quem atribua esse ponto fraco ao tipo de combustível usado por ele – gasolina – mas o célebre T-34 russo, movido a diesel, também pegava fogo facilmente ao ser atingido.

CINCO CONTRA UM

As deficiências do Sherman não diminuíram o valor e o heroísmo daqueles que o dirigiam. Cinco homens eram necessários para pilotar esse tanque. Uma de suas melhores virtudes era a velocidade e a capacidade fora-de-estrada, em comparação com os tanques alemães. Relatos dramáticos das tripulações mostram como era perigoso encarar as forças de infantaria e suas temíveis panzerfaust e panzershrek, armas antitanque semelhantes à bazuca, assim como os encontros com outros tanques inimigos muito superiores em design e poder de fogo: os lendários Panther, Tiger I e II.

A sorte dos aliados era que havia superioridade numérica de cinco Shermans para cada tanque alemão, o que proporcionava melhores táticas de cerco e aniquilação das forças blindadas oponentes. Mesmo assim, havia grandes perdas de tanques e tripulações. Regimentos de resgate e manutenção de blindados tinham a missão macabra de retirar os restos mortais das tripulações dentro dos tanques avariados, que eram então recondicionados e colocados em ação outra vez. Isso causava extremo desconforto para as novas tripulações, que não gostavam de receber tanques reformados com os “fantasmas” de outra tripulação em seu interior.

Mesmo levando-se em conta que o Sherman era um veículo bastante confiável, uma estatística assustadora indica que 75% dos tanques ficavam fora de ação por quebras e defeitos mecânicos. O que pouca gente sabe é que as tripulações de blindados recebiam ordens para evitar a todo custo o confronto com outros tanques, pois o papel do Sherman era dar apoio à infantaria. O confronto entre tanques cabia aos pelotões caça-tanques, ou tank killers, blindados concebidos para esse tipo de engajamento, com canhões de 90 mm montados numa torre aberta, como era o caso do M-10 Achilles e do M-36 Jackson, construídos com a mesma plataforma do Sherman.

Os ingleses promoveram algumas melhorias no Sherman, seja usando o eficiente canhão de 17 libras, batizado de Firefly (vagalume), seja nos geniais aparatos criados pelo general inglês Percy Hobart especialmente para o Dia-D: limpa-minas, lança-chamas, lançador de pontes e desenrolador de tapetes de lona, usados com grande eficiência durante o desembarque nas praias da Normandia, em 6 de junho de 1944.

O Sherman M-4 foi fabricado em diversas versões, na maioria, em fábricas de trens. Sua estrutura era fundida em formas arredondadas. Posteriormente, para facilitar a fabricação, apenas soldavam-se chapas retas. Foram muitos os modelos e subtipos fabricados, causando até hoje confusão a quem tenta identificá-los, mesmo entre especialistas nesse tanque. Mas seu perfil alto e com a torre arredondada era inconfundível. Cerca de 50 mil unidades foram produzidas até o final de 1945, o que o torna o segundo tanque mais produzido da história, atrás apenas do T-34 russo (cerca de 55 mil).

A simples visão de um Sherman era festejada pelos fuzileiros navais no front do Pacífico. Em plena selva tropical, o tanque ajudava nas escaramuças e nos confrontos com os japoneses. A versão lança-chamas era muito temida. Da mesma forma, na Itália, os pracinhas da FEB lutaram lado a lado dos Shermans da 1ª Divisão Blindada Americana, nas várias tentativas da tomada de Monte Castelo.

Mesmo com todas as deficiências de projeto, o Sherman tornou-se símbolo das tropas blindadas aliadas. Ele representava a liberdade em cada vilarejo que adentrava na Europa, no longo e dramático caminho percorrido desde o Dia-D, em 1944, até a queda de Berlim, em 1945.

João Barone


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