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Silvio Santos era visto como “apoiador do comunismo” na ditadura, revela livro

Um documento publicado na obra Comunicadores S.A., de Fernando Morgado, mostra que Silvio, Chacrinha e Dercy Gonçalves eram considerados “altamente perniciosos”

Vanessa Centamori Publicado em 08/08/2020, às 08h00

O apresentador e dono do SBT, Silvio Santos
O apresentador e dono do SBT, Silvio Santos - Wikimedia Commons

Dono de uma voz muito imitada por comediantes, o dono do SBT, Silvio Santos, começou como camelô e construiu um império que o tornou um empresário bilionário. Mas a forma como vimos Silvio é muito mais complexa do que se pressupõe — sobretudo, a relação dele com a política e o período militar. 

Documentos da década de 1970, obtidos pelo professor de história da televisão e do rádio, Fernando Morgado, e publicados no livro, Comunicadores S.A.( Matrix Editora), apresentam novas informações sobre o apresentador. Em entrevista a Aventuras na História, o autor revela que, na época em que Silvio pagava aluguel pelo seu horário dominical na TV Globo, ele era visto por parte das Forças Armadas como "apoiador do comunismo". 

"Fala-se como se a relação de Silvio Santos com o governo da época fosse muito tranquila, mas não é bem assim porque os programas de auditório foram duramente perseguidos durante o período da linha dura da ditadura militar", explica Morgado, à AH. "Essa perseguição se deu muito no início dos anos 1970", acrescenta. 

Silvio Santos na TV Globo nos anos 1970 / Crédito: Divulgação/Globo 

 

O que dizem os arquivos

Provenientes dos arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações), centenas de documentos foram analisados por Morgado. Todavia, dois se destacaram acerca de Silvio Santos. O primeiro é um inquérito policial militar de 29 de janeiro de 1970, assinado pelo general de brigada Tasso Villar de Aquino sobre o sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick.

Mesmo não tendo esse como o assunto principal, o documento, do período do governo Médici, condena as atrações de Silvio Santos, assim como as de Chacrinha e de Dercy Gonçalves, na TV Globo, ao dizer que as programações são "fortes pontos de apoio da ação comunista no processo de mediocrização e excitamento coletivo do povo". De acordo com o autor, o texto chama ainda os respectivos programas de "altamente perniciosos". 

O segundo arquivo, por sua vez, é uma mensagem enviada em 1971, por Silvio, e pela empresa Publicidade Silvio Santos, ao então Ministro das Comunicações, Hygino Corsetti. A documentação mostra que a visão negativa dos militares para com o apresentador poderia resultar em sanções que alterariam o formato do seu programa.

No texto a empresa de Silvio se defende, ao justificar a importância do Programa Silvio Santos e pedir que sejam mantidas a duração de 8h30, a plateia e transmissão ao vivo do programa. Aparece escrito até que o fato de continuar apresentando programas populares dependia "da uniformidade dos critérios de censura". 

"Para mim, como pesquisador, as peças se encaixam. Você tem [no primeiro documento] uma visão do governo que esses programas de auditório estavam a ser vistos como um plano de dominação comunista e, cerca de um ano e pouco depois, o Silvio Santos e sua empresa fazem defesa do programa de auditório [no segundo]", explica Fernando Morgado. 

Isso significa que Silvio Santos foi oposição na ditadura?

Segundo Morgado, absolutamente não. “Silvio Santos não fez oposição à ditadura. Não fez”, ressalta o professor, que leciona nas Faculdades Integradas Hélio Alonso no Rio de Janeiro. "Na verdade, todos na comunicação eram cerceados, então não havia muito espaço pra isso", completa. 

Além disso, a relação do apresentador com os militares não era muito amistosa: estava mais para empresarial. Ernesto Geisel ajudou Silvio a dar o pontapé inicial na construção de uma rede de televisão. Concedeu a ele o canal 11 do Rio de Janeiro em 22 de outubro de 1975. A TVS foi então inaugurada em 14 de maio do ano seguinte. Entretanto, o especialista conta que a concessão foi travada com o ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira. 

"Então não teve relação pessoal próxima [com Geisel]. No governo Figueiredo, aí sim, Silvio sempre manifestou publicamente uma gratidão pessoal. Conheceu João Figueiredo e criou a Semana do Presidente, que era no começo para homenagear Figueiredo", contextualiza. "Ele manteve [o programa] durante os governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique". 

Silvio Santos em 1981 / Crédito: Divulgação/Youtube/SBT 

 

Negócios à parte

Os programas de auditório sofreram muito com a censura do período militar. Somente no fim da década de 1970 e início dos anos 1980, que parte da programação foi retomada. Morgado atribui essa retomada a Silvio. Afinal, em 1981, o SBT nasce com uma "proposta muito clara", segundo o professor, de "conquistar todos os dias da semana aquele público que Silvio já tinha nos domingos".

Nesse período, Silvio Santos contratou alguns profissionais cujas programações haviam sido tiradas do ar por motivos de censura. Foi o caso de Jacinto Figueira Júnior, deputado do MDB (partido da oposição) e apresentador conhecido como "O Homem do Sapato Branco".

 

O programa dele havia sido removido pelo AI-5. Ele próprio teve o mandato cassado, foi preso e torturado. Porém, a carreira de Jacinto foi retomada no SBT dos anos 1980, como parte dos negócios de Silvio. Não por acaso, a relação do apresentador com os militares  teve, aliás, um grande peso mercadológico. 

Fernando Morgado, que também é autor de uma biografia sobre o personagem (Silvio Santos, a trajetória do mito, Matrix Editora), descarta que o relacionamento do apresentador com as Forças Armadas da ditadura seja de mero cunho ideológico. "É a relação de um empresário que quer seguir os seus negócios", resume. 

Até porque, segundo ele, Silvio nunca se opôs a nenhum governo. Em sua visão, o período militar apenas foi um dos muitos períodos da história em que o empresário atuou sem se opor. Santos, inclusive, chegou até a tratar o atual presidente, Jair Bolsonaro, como "patrão", em um comunicado do SBT de 16 de abril de 2020.

“Minha concessão de televisão pertence ao governo federal e eu jamais me colocaria contra qualquer decisão do meu ‘patrão’ que é dono da minha concessão. Nunca acreditei que um empregado ficasse contra o dono, ou ele aceita a opinião do chefe, ou então arranja outro emprego”, escreveu Silvio Santos, na nota divulgada pela Folha de S.Paulo e também reencaminhada por Morgado.

O professor também destaca uma frase famosa, usada pelo próprio dono do SBT para se auto definir: “Sou um office-boy de luxo do governo”. Ironicamente, a sentença indica que, depois de ser camelô, o empresariado, no fim das contas, também trouxe consigo outro "ofício" para o homem de muitas facetas. 


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