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Spetsnaz: A maior tropa de elite do mundo

Sabotagens, atentados e ações-relâmpago são algumas das especialidades das ultra-secretas forças especiais criadas pela antiga União Soviética

Roberto Navarro Publicado em 30/05/2019, às 10h00

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- Getty Images

Fazia muito frio, com temperatura mínima de seis graus abaixo de zero, e havia ameaça de fortes nevascas em Cabul, a capital do Afeganistão, naquelas últimas semanas de dezembro de 1979.

Com a situação política no país deteriorando-se rapidamente, o presidente Hafizullah Amin solicitara, no dia 17 daquele mês, assistência militar soviética para combater os rebeldes que já controlavam algumas regiões nas províncias do norte.

Aproveitando o pedido, os soviéticos concentraram grande número de forças pára-quedistas e soldados de infantaria nas imediações da cidade. Enquanto isso, as informações enviadas por seus agentes convenceram Moscou de que um golpe de estado era iminente.

O melhor a fazer era antecipar-se. Apesar das condições climáticas adversas, às 19 horas de 27 de dezembro, vestidos com uniformes do Exército afegão, cerca de 700 militares soviéticos, incluindo integrantes das ultra-secretas forças especiais conhecidas como Spetsnaz, ocuparam os edifícios públicos mais importantes da cidade, o aeroporto e o palácio presidencial, onde assassinaram o presidente Amin.

Hafizullah Amin, segundo líder da República Democrática do Afeganistão /
Créditos: Wikimedia Commons

 

Com precisão cirúrgica, eles explodiram o principal centro de comunicações de Cabul, isolando a cidade do mundo exterior e do resto do país. Começava a invasão soviética ao Afeganistão.

 A tomada da capital teve êxito absoluto no dia seguinte, quando foram eliminados os últimos focos de resistência com a participação decisiva e brutal dos homens da Spetsnaz.

A grande tropa

Com efetivo em tempos de paz entre 27 mil e 30 mil integrantes, a Spetsnaz é a maior tropa de elite do mundo. É também uma das mais secretas, apesar do enorme desafio que é manter em sigilo as atividades de tanta gente.

Pouco se sabe sobre sua história, além do fato de que a ideia de formar uma força desse tipo surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda existia a União Soviética.

As experiências da luta contra o nazismo demonstraram a necessidade de contar com uma unidade capacitada a realizar atividades não-convencionais (sabotagens, atentados, sequestros, ações-relâmpago, etc), com a maior discrição possível, pegando o adversário totalmente de surpresa.

Spetsnaz soviéticos em uma missão secreta no Afeganistão / Créditos: Getty Images

 

Uma das especialidades da Spetsnaz é infiltrar seus agentes em países estrangeiros para missões de reconhecimento e coleta de informações. Eles são lançados de paraquedas em território adversário, atravessam fronteiras clandestinamente em disfarces civis e contam com engenhocas que parecem ter saído de um filme de espionagem. Entre elas está um minissubmarino que se desloca sobre esteiras e é lançado a partir de um submarino convencional da classe India, sua nave-mãe.

Discrição absoluta

As missões e características desse minissubmarino são consideradas altamente confidenciais, e a maior parte das poucas informações disponíveis foi obtida em meados da década de 1980, quando mergulhadores detectaram rastros deixados por uma dessas máquinas nas águas territoriais da Suécia.

O segredo absoluto, aliás, é uma obsessão que costumava se refletir até mesmo nos uniformes vestidos pelos soldados da Spetsnaz. Para evitar a identificação de seus integrantes, eles até há pouco tempo evitavam usar qualquer distintivo ou emblema que pudesse diferenciá-los do restante da tropa. Recentemente, porém, o governo da Federação Russa decidiu afinal reconhecer a existência dessa força especial, e seus integrantes passaram a ter direito de usar insígnias especiais indicando sua unidade.

Mesmo após a dissolução da União Soviética e a conseqüente redução dos orçamentos do setor de defesa da agora Rússia, a Spetsnaz manteve sua reputação como uma das melhores unidades de forças especiais em todo o mundo. O rigor nos processos de seleção e treinamento de seu pessoal é uma tradição cuidadosamente mantida, que garantiu a presença do grupo com destaque nas principais operações militares ordenadas por Moscou nos últimos 40 anos.

Como suas missões nunca são confirmadas oficialmente, as supostas ações do grupo limitam-se a permanecer no terreno das suspeitas. Como o recente incidente envolvendo o assassinato de Alexander Litvinenko, dissidente russo morto em Londres em novembro de 2006 sob circunstâncias misteriosas, aparentemente vítima de um veneno desconhecido.