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“Stalin não estava interessado em salvar pessoas”, afirma jornalista vencedora do Prêmio Pulitzer

Em entrevista exclusiva à AH, Anne Applebaum descreve as atrocidades do líder soviético durante o Holodomor

Fabio Previdelli Publicado em 15/12/2019, às 08h00

Joseph Stalin
Joseph Stalin - Getty Images

Holodomor foi um dos maiores crimes cometidos pela gestão stalinista na antiga União Soviética. Com uma política intervencionista, Stalin cessou o fornecimento de grãos na Ucrânia, o que desencadeou uma grave crise alimentícia no país entre 1932 e 1933, levando a população a viver em condições desumanas.

O caso ocorreu em pleno desenvolvimento do Primeiro Plano Quinquenal de Stalin, que focou na coletivização das terras e planificação da economia, com o estabelecimento de terras públicas expropriadas da elite agrária da região. O projeto fundiário serviria para a constituição de excedentes que financiariam a industrialização do país.

“Naquela época, o campo soviético já estava em caos por causa da política de coletivização, e muitas pessoas estavam passando fome. Mas a liderança de elite do Partido Comunista Soviético, tomou uma série de decisões que ampliaram e aprofundaram a fome no campo ucraniano”, explica a jornalista e economista Anne Applebaum, autora do livro A Fome Vermelha: A guerra de Stalin na Ucrânia, publicado pela Editora Record.

Crianças durante a grande fome ucraniana no início da década de 1930 / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Eles aumentaram a demanda do estado por alimentos na Ucrânia, exigindo que fazendas e aldeias ucranianas, na lista negra, contribuíssem com carne e legumes, além de mais grãos. Eles se recusaram a interromper a exportação de grãos, que continuou durante todo o ano, porque Stalin considerou o produto uma moeda forte e essencial para seu programa de industrialização”.

Nesse mesmo período, os camponeses ucranianos foram impedidos de sair do país em busca de comida. O Estado soviético trabalhou para o extermínio desta população, fechando as fronteiras da região e confiscando toda a comida disponível.

Anne explica que no auge da crise, equipes organizadas de policiais e ativistas do Partido invadiam as casas das famílias camponesas e levavam tudo o que era comestível: desde tubérculos e verduras, até as comidas que estavam nos fornos ou no armário, incluindo, é claro, os grãos.

Como consequência, o ato causou uma das maiores crises econômicas da Europa e provocou uma letal fome, conhecida como Holodomor, ou Genocídio Ucraniano. “Os demógrafos calculam que houve cerca de 3.9 milhões de ‘mortes em excesso’ por causa da fome, ou seja, pessoas que não teriam morrido em circunstâncias normais. O número total soviético é geralmente dado entre 6 e 8 milhões de vítimas”, diz Applebaum.

Uma série de carrinhos com pão confiscados de camponeses da vila de alexeyevka, na região de kharkov da Ucrânia, em 1932 / Crédito: Getty Images

 

Dentre as 3.9 milhões de mortes, cerca de 90% ocorreram em áreas rurais e somente 400 mil em regiões urbanas. Alguns distritos perderam até dois terços de seus habitantes. A região central do país foi o lugar mais afetado, embora não fosse um local sujeito as secas, foi onde houve maior resistência ao domínio soviético.

Questionada se a medida foi premeditada por Stalin, a jornalista explica que o tirano conhecia e temia o nacionalismo ucraniano e que ele sabia o impacto que isso poderia ter em todo o projeto bolchevique, afinal, ele foi comissário de nacionalidades em 1918/1919 e testemunhou a revolta antissoviética que ocorreu na Ucrânia naqueles anos, durante a guerra civil russa.

“No verão de 1932, quando ficou claro que a produção de grãos era muito baixa, ele se fixou na possibilidade de uma nova rebelião na Ucrânia. Então, Stalin escreveu uma carta a um de seus companheiros, Lazar Kaganovich, que há muito trabalhava como seu representante no país: ‘A questão mais importante agora é a Ucrânia. As coisas na Ucrânia chegaram ao fundo do poço. As coisas estão ruins com relação ao Partido...  A menos que comecemos a corrigir a situação no país, corremos o risco de perdê-lo’. Ele usou a fome soviética mais ampla como uma oportunidade de se livrar do problema da rebeldia entre os camponeses ucranianos. Nesse ponto, ninguém foi capaz de detê-lo”, explica.

Mesmo com toda a crueldade que foram submetidos, entre 1930 e 1932, muitas partes da Ucrânia resistiram à coletivização. Segundo Anne, “as pessoas abatiam seus animais em vez de entregá-los ao Estado, atacaram os funcionários do Partido, recusaram-se a mover ou abrir mão de propriedades. Havia também várias rebeliões organizadas e armadas, às vezes lideradas por pessoas que haviam sido líderes das rebeliões camponesas de 1918 e 1919”.

Cavalos mortos e moribundos perto de uma fazenda coletiva de Belgorod durante a fome artificial do Holodomor na Ucrânia, antiga União Soviética, 1934 / Crédito: Getty Images

 

Apesar da resistência, em 1933 as pessoas estavam fracas para lutarem, a fome havia consumido tudo e todos. Stalin sabia disso e não fez nada para mudar o cenário. Ele não queria que as pessoas soubessem que seu plano de coletivização era um desastre real. Assim, ele fez a máximo para que tanto as pessoas dentro da União Soviética, quanto as que viviam no exterior, não desconfiassem de nada que acontecia dentro das fronteiras ucranianas.

“Stalin estava usando essa fome geral para atingir a Ucrânia. Ele não estava interessado em salvar pessoas. Ele queria que os camponeses, como um grupo, fossem enfraquecidos e não queria que as pessoas sobrevivessem. Portanto, não houve esforço para pedir ajuda internacional”.

A Fome Vermelha: A guerra de Stalin na Ucrânia

As denuncias feitas por Anne Applebaum logo ganharam repercussão no mundo inteiro. Com extremamente positivas na imprensa britânica e americana,assim como na Alemanha, França, Itália e Escandinávia. A obra, que captura os horrores vividos pelos soviéticos, que foram animalizados e abandonados à própria sorte, se tornou um verdadeiro best-seller, sendo resenhado nos principais veículos do mundo todo.

A jornalista e economista Anne Applebaum / Crédito: Divulgação

 

Confira a entrevista exclusiva da Aventuras na História com Anne Applebaum, que recebeu um prêmio Pulitzer por sua obra Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos.


AH: Por que você acha que as pessoas falam e estudam o Holocausto Judaico, mas não fazem o mesmo com o Holocausto Ucraniano?

Anne Applebaum: Principalmente porque temos fotografias e arquivos do Holocausto Judeu, e porque soldados americanos, britânicos e russos libertaram os campos de concentração e viram o que aconteceu.

A fome ucraniana foi mantida em segredo por muitas décadas. Mesmo agora não temos o mesmo tipo de evidência documental ou fotográfica. Mas as coisas começaram a mudar, há mais material disponível sobre os crimes soviéticos e mais coisas serão escritas no futuro.


AH: Por que o Holodomor é um capítulo tão importante na história da Ucrânia e parte integrante da identidade nacional ucraniana?

Applebaum: O Holodomor, por ser reprimido e porque as pessoas não tinham permissão para falar sobre isso, tornou-se parte de um tipo de cultura subterrânea na Ucrânia. As pessoas falaram sobre isso nos bastidores e passaram a história de pais para filhos.

A diáspora ucraniana começou a falar sobre isso, a escrever e até a comemorá-lo, principalmente depois que eles deixaram o país em grande número nas décadas de 1940 e 1950.

Ele tornou-se um tipo de símbolo da história não contada da Ucrânia. É uma maneira que faz o que aconteceu na Ucrânia ser uma história diferente como a que acontece na Rússia — que sempre nega as coisas.

No final dos anos 80, após o desastre de Chernobyl, muitos ucranianos começaram a dizer: “Veja, isso já aconteceu conosco antes. Tivemos esse desastre de fome e isso também foi mantido em segredo”.

As pessoas começaram a falar novamente sobre a fome no momento em que a independência da Ucrânia se tornou algo que era possível novamente. Embora eu ache que há outras razões pelas quais a Ucrânia buscou a independência, foi uma motivação importante para as pessoas — possuir uma lembrança de algo terrível que havia acontecido e que havia sido silenciado.

Uma das motivações para as pessoas começarem a falar novamente sobre a Ucrânia e a soberania ucraniana foi falar mais uma vez sobre a fome.

Capa do livro A Fome Vermelha: A guerra de Stalin na Ucrânia / Crédito: Divulgação Editora Record

 


AH:  Você discutiu anteriormente como a Ucrânia apresentou um desafio a Stalin. Há algo semelhante acontecendo agora com o presidente russo Vladimir Putin?

Applebaum: Penso que, para Putin, a Ucrânia representa um desafio um pouco da mesma forma que a soberania ucraniana foi um desafio para Stalin. A independência da Ucrânia também representa um desafio para Putin, particularmente uma Ucrânia pró-europeia, democrática, que acredita na liberdade de expressão e no Estado de direito.

Todas essas são ideais... tipos de valores e ideias que ameaçam o putinismo, que é uma autocracia oligárquica que estaria em apuros se houvesse total liberdade de expressão, liberdade de imprensa e Estado de Direito.

Uma Ucrânia que incorpora valores europeus é um verdadeiro desafio ideológico para Putin. Eu não diria à própria Rússia porque acho que a Rússia e a Ucrânia devem ser “vizinhas próximas”.

Se ambos compartilhassem os mesmos valores, teriam trocas e trocas valiosas e assim por diante. Mas o sistema político de Putin se sente desafiado por esses valores e isso explica tanto sua atitude em relação à Ucrânia quanto sua invasão.


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