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Entenda a história que levou à violenta ditadura stalinista

Durante os expurgos de Stalin, de 1930 a 1950, milhões de pessoas foram executadas, deportadas ou enviadas a campos de trabalhos forçados

André Nogueira Publicado em 10/08/2019, às 10h00

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- Crédito: Wikimedia Commons

Mesmo que muitos tenham tentado, nenhum líder mundial matou mais comunistas na História do que Josef Stalin. Essa contradição, em que um chefe comunista ganha tal mérito injurioso, faz necessário entender bem os processos históricos que formaram essa situação e, assim, compreender a lógica social que conduziu a sociedade russa até a ditadura stalinista.

É muito difícil calcular o número de mortos durante os expurgos stalinistas. As tentativas geraram uma série de trabalhos desonestos ou desinformados que estimam dados sem reais bases empíricas.

Trabalhos mais honestos sobre o assunto se deparam com conflitos inevitáveis, como o déficit de documentação (destruída intencionalmente por governos), complicações no acesso a arquivos, dados estimados de terceiros que exageram ou amenizam no cálculo, entre outras complicações.

Porém, a dificuldade de acessar o número exato de mortos na URSS não impede minimamente o esforço de entender as dimensões do que foi a ditadura de Stalin e seu processo de formação.

Imagem do gulag siberiano / Crédito: Reprodução

 

Toda a situação discutida tem origem em 1917, ano em que estoura uma gigante revolução social na Rússia. A Revolução de Fevereiro, gerada desde as revoltas espontâneas de 1905, levou ao extremo da derrubada total do poder vigente — a monarquia dos Romanov — como forma de luta contra diversas opressões, como a exploração do trabalho, a convocação compulsória à guerra e a proliferação da fome.

O principal catalizador da Revolução Russa foi, dessa forma, uma projeção de uma vida melhor no futuro. Mas é muito difícil estipular os limites dessa Revolução em termos geográficos. Um dos principais motivos disso é o fato de que a revolução derrubou o governo de um grande Império transnacional, ou seja, um domínio centralizado de diversas nações diferentes que não necessariamente percebem qualquer razão de unidade entre si.

Um russo é diferente de um ucraniano, que é diferente de um georgiano. Com a revolução dos sovietes, que possuem um critério regional de atuação, nasce um conflito entre união e dispersão.

Essa questão decai sobre uma problemática presente nas disputas políticas entre Fevereiro e o golpe Bolchevique de Outubro e que foi essencial para a futura vitória dos bolcheviques: nenhum grupo político era fortalecido por um projeto concreto de unidade.

A DUMA, assembleia legislativa, com um projeto liberal constitucionalista, não tinha abrangência real para fora da instituição política. Grupos relevantes de esquerda como os anarquistas ou os socialistas de convenção não defendiam projetos de integração que pudessem ser comparáveis à agenda unificadora do Império Russo.

Diante desse cenário político caótico, que podia descambar na dissolução geográfica de diversas regiões, os bolcheviques aparecem com um projeto de unificação e organização. Como a base da agenda política dos bolcheviques é a submissão e a confiança no Partido Comunista, a noção de unidade que convocasse as diversas partes da Revolução em um único movimento de libertação do homem é quase iminente ao programa leninista.

Mesmo que a projeção unificadora dos bolcheviques quebre até com a proposta original socialista. Afinal, o socialismo marxista propõe a tomada dos meios de produção e a organização das fábricas e propriedades rurais por células autônomas de trabalhadores.

Esse atrito entre o leninismo e a proposta marxista aparece de maneira clara com a institucionalização do principal órgão político da revolução vermelha: o soviete, que funciona em uma instância municipal e articula os operários, os camponeses, intelectuais, militares e mercadores em um órgão de administração pública.

Isso vai de frente com a noção de Conselho de Fábrica, em que os trabalhadores da fábrica se organizam e articulam as decisões sobre a própria fábrica. Se o soviete tem soberania de decisão sobre os rumos da fábrica, o Conselho Fabril, de cunho socialista e auto organizativo deixa de existir.

Com o advento da Guerra Civil (1919-1921), o país foi completamente desestabilizado. A guerra foi sangrenta e generalizada, criando cenários de escassez, fome e empacamentos econômicos, além de criar um clima de tensão e sofrimento em meio à sociedade.

A Guerra também criou atritos relevantes no processo de sovietização da Rússia, como a intriga entre os russos e a Ucrânia, e a dominação complicada da Chechênia. Com o fim da Guerra Civil, os bolcheviques assumem o poder russo e declaram a supremacia do soviete.

Nas mãos de Lenin, o Estado russo, socialista, se torna uma autodeclarada ditadura (do proletariado), diferentemente de outras experiências socialistas do século 19.

Exército Branco, oposição aos bolcheviques / Crédito: Wikimedia Commons

 

Lenin, em seu pouco tempo de governo, se destacou pela defesa da união, da supremacia da classe operária urbana e a associação internacional voluntária. Ao mesmo tempo, Lenin defende no Soviete Supremo coisas que durante toda sua vida ele foi contra, como uma fase capitalista de transição conhecida como NEP.

Quando Lenin morre e abre-se um vácuo disputado entre Stalin, Kamenev, Zinoviev e Trotsky (todos presentes na Revolução Vermelha) que, em 1927, já foi completamente apagado, fazendo assumir Stalin como líder supremo da URSS.

Nas mãos de Stalin, a URSS toma rumos particulares. Diante do cenário encontrado de pós-guerra e fracos resultados da política econômica de Lênin, Stalin assume uma agenda de aplicação prática da lógica econômica socialista e transformação da URSS em uma potência maior que a Rússia dos Romanov.

É nas mãos de Stalin que o domínio russo atingiu a extensão da antiga Rússia czarista, com a invasão que Stalin empreende nos Balcãs.

Stalin tem um projeto de união forçada das nações pelo desenvolvimento do projeto socialista num país só, essencialmente vertical e autoritário. Isso inclusive porque há, nos meados do século 20, principalmente após a Primeira Guerra (em que os países com instituições colegiadas criaram cenários de atrocidade) uma proliferação de ideologias antidemocráticas e culturas autoritárias, como foram a Itália fascista e a Rússia comunista.

Stalin projetou na URSS um movimento imperialista de unificação nacional, dominação de regiões periféricas e estabelecimento de um projeto de fechamento internacional para criar bases das três bases da agenda stalinista: industrializar, planificar e estatizar. A qualquer custo.

Para concretizar seu projeto, Stalin teria que encerrar qualquer base de oposição que poderia fazer retornar ao cenário de dissolução e proliferação de grupos autônomos que poderiam confrontar o poder central. Esse projeto, essencialmente soviético, é consequência de todo esse processo revolucionário que criou a unidade bolchevique.

Stalin, assim, inicia um movimento de perseguição e assassinato dos próprios bolcheviques, para que não haja um antistalinismo bolchevista. Por isso, nos primeiros anos de implantação da ditadura, os que mais morreram foram membros da cúpula do governo central.

Ao mesmo tempo, Stalin começa a investir em métodos de propaganda do Estado, criação de uma imagem de salvador e grupos de policiamento políticos (Checa, inicialmente, e depois a KGB).

Crédito: Wikimedia Commons

 

A margem que Stalin abre para o estreitamento da ditadura conduz o cenário político que conhecemos de cabeça: começam a se estabelecer os Gulags, prisões políticas e de trabalho na Sibéria, que inspiraram os campos de concentração nazistas, se dá poderes à polícia política, se reduz o poder dos sovietes regionais e aumentam os poderes oficiais do Secretário-Geral (Stalin).

No início dos anos 1930, Stalin já conseguiu estabelecer um regime de culto à sua imagem e dominação completa da sociedade soviética. A ditadura estabelecida é responsável por uma perseguição generalizada, que vai atrás de personalidades desde líderes de insurgências até diretores de cinema, passando por líderes da inteligência do Estado e até parentes de Stalin.

Por muito tempo o mundo não soube das consequências da ascensão de Stalin. Com a invasão da URSS pela Alemanha nazista, temos o primeiro grande momento de manifestação internacional de como estava a URSS: uma verdadeira potência militar, mas uma ditadura sangrenta.

Muitas informações sobre esse regime foram recuperadas somente após a morte de Stalin, com o processo de desestalinização do governo Khruschev, em que se repudiam todos os legados do stalinismo de Estado.

Após Khruschev, muitas bases autoritárias da URSS são dissolvidas e nunca mais houve na Rússia a perseguição e a autocracia vista nos anos de Stalin, mesmo que isso não signifique a total democratização do país.

A desestalinização provou que os avanços técnicos e econômicos do governo Stalin foram muitos, mas aconteceram em benefício de um sangrento regime de exceção.