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Star Wars: a franquia cinematográfica que virou plano de guerra americano

Apesar da produção de George Lucas ter alcançado um enorme sucesso nos tempos de Guerra Fria, o mesmo não ocorreu no projeto homônimo de Ronald Regan

Fabio Previdelli Publicado em 19/12/2019, às 17h28

Elenco durante as filmagens de Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança
Elenco durante as filmagens de Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança - Getty Images

Uma das maiores franquias da história do cinema ganhará nesta semana o episódio que colocará fim num dos arcos mais debatidos e controversos do universo criado por George Lucas. Entretanto, mesmo após mais de quatro décadas da estreia da saga, Star Wars continua atraindo e influenciando gerações e gerações.

Apesar da cultura pop, sem dúvida alguma, ser o mercado mais modelado pela história que aconteceu ‘há muito tempo em uma galáxia muito, muito distante’, a política norte-americana também se ‘apropriou’ do sucesso da série para lançar um dos programas mais inusitados da Guerra Fria.

Conheça o Projeto Guerra nas Estrelas, criado no governo de Ronald Reagan:

Nas décadas que antecederam o primeiro mandato do presidente dos Estados Unidos Ronald Regan, os americanos e a antiga União Soviética procuraram manter acordos de paz para evitar que um ataque nuclear, de qualquer de um dos lados, ocorresse e, por consequência, exterminasse ambos os países da face da Terra.

Assim, foi introduzido a doutrina de Destruição Mútua Assegurada (MAD). Entretanto, Reagan era um crítico vocal do acordo, descrevendo-o como um “pacto suicida”. Por isso, ele imaginou um sistema que tornaria obsoleta as armas nucleares, criando uma tática de defesa capaz de destruir a frota de Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs) da União Soviética.

Oficialmente chamado de SDI (sigla para Iniciativa de Defesa Estratégica), ele planejava criar um programa de satélite equipados com canhões de laser, no melhor estilo Estrela da Morte, que destruiria os mísseis que seriam enviados contra o país. O projeto ganhou o apelido de Guerra nas Estrelas depois do sucesso de Han, Leia e Luke nas telonas.

Ronald Reagan anunciando a Iniciativa de Defesa Estratégica, em 1983 / Crédito: Getty Images

 

Mas da apesar da ideia parecer plausível para Darth Vader, o mesmo não aconteceu com Reagan, já que, de fato, o plano nunca saiu do papel. Mesmo com o projeto tendo ido, literalmente, para o espaço, ele ajudou com o fim da Guerra Fria.

Como assim?

A SDI seria a junção entre satélites em órbita, espelhos gigantes, bases terrestres e outros equipamentos que seriam capazes de identificar um míssil no instante em que foi lançado, mas que, com a ajuda de raios laser ou mísseis terrestres, o mesmo seria destruído antes de se tornar uma ameaça.

Apesar de parecer uma insanidade dos filmes de ficção, nesta mesma época, em um teste feito nas Ilhas Marshall, cientistas conseguiram usar um míssil teleguiado para destruir um projétil nuclear. O insólito plano custaria 200 bilhões de dólares e demoraria 20 anos para ser completamente implantado.

Conceito artístico, de Martin Marietta,  da base espacial a laser que seria conduzido como parte da Iniciativa de Defesa Estratégica / Crédito: Getty Images

 

Mas vários questionamentos técnicos e uma não garantia de uma proteção completa, já que o sistema não seria eficaz em ataques com aviões e submarinos, fizeram que os Estados Unidos não levassem o plano para frente. Mesmo assim, a possibilidade de ver um cenário desequilibrado em um suposto conflito, deixaram os russos com um alerta ligado.

Quatro anos depois, em 15 de Maio de 1987, eles decidiram responder a ameaça com o lançamento da nave Polyus — o protótipo foi lançado com a ajuda do foguete Energia.

Porém, uma falha ao desconectar-se do Energia, fez com que a Polyus desse um giro em 360º, em vez de 180º, e, ao acionar os motores, uma falha fez com ela caísse e fosse parar no fundo do Oceano Pacífico. O projeto, de custo exorbitante, fez estremecer a economia soviética que já estava em declínio.

Mas há quem diga o insucesso do plano foi proposital, visto que uma parcela da alta cúpula soviética era partidária do fim da Guerra Fria e também defendia o fim da corrida armamentista e o distensionamento com os Estados Unidos. Mas o que há de concreto por trás dessa história toda, é que em 1988 foram assinados uma série de acordos que colocaram fim à Guerra Fria.

Poster do filme Star Wars: A Ascensão Skywalker, que estreia essa semana / Crédito: Divulgação

 

Imitando a arte, o Projeto Guerra nas Estrelas foi deixado de lado por alguns anos, mas jamais foi esquecido. Primeiro, Clinton até pensou em revivê-lo, mas sem sucesso. Já no fim da década de 1990 e início de 2000, enquanto Anakin ganhava às telonas, Bush tentava ressuscitar o plano, dessa vez com o nome de Agência de Defesa de Mísseis.

Altamente criticado, o programa foi enfim enterrado no governo de Barack Obama. Em contraponto, Lucas e J.J Abrams, esperam continuar com o projeto Guerra nas Estrelas por mais alguns anos, com três longas marcados para o Natal de 2022, 2024 e 2026.