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Suborno e boatos de ratos canibais: MV Lyubov Orlova, o cruzeiro que desapareceu no oceano

O navio russo foi desativado em 2010 e três anos depois passou a flutuar no Oceano Atlântico Norte

Vanessa Centamori Publicado em 15/04/2020, às 14h24

Navio MV Lyubov Orlova
Navio MV Lyubov Orlova - Divulgação/ Youtube

Em 1976, muito antes de ganhar fama de navio fantasma, o MV Lyubov Orlova foi construído para ser uma embarcação de sucesso - tanto que carregava até o mesmo nome de uma estrela de cinema. A mulher, que também se chamava Lyubov Orlova, foi uma atriz soviética muito querida, que brilhou em mais de 11 filmes clássicos entre 1934 a 1960. 

A moça até ganhou um State Stalin Prize, um prêmio concedido pelo ditador Josef Stalin, em 1950. No entanto, a embarcação alcançou a fama de levar passageiros da União Soviética ao redor da região de Vladivostok.  

Após a queda da União Soviética, o navio MV Lyubov Orlova passou a realizar viagens até o Japão e passou então por inúmeras aventuras. Até que em 2 de julho de 2010, uma inspeção de rotina acabou de modo nada usual. 

Operários trabalhando no navio MV Lyubov Orlova / Crédito: Divulgação / Youtube 

 

O suborno 

O inspetor Glenn Mackey anotou em seu bloco de notas que o guindaste dos botes salva-vidas do navio estava quebrado e as portas corta-fogo estavam com defeito. Registrou ainda que os treinamentos de emergência da tripulação foram um “fiasco”. Também notou, por último, que a bússola usada pelo capitão não tinha precisão. 

Ao ouvir isso, gotas de suor apareceram na cabeça do oficial de rádio enquanto ele explicava que a bússola estava vagando "só um pouquinho, mas tudo bem". Então, o capitão chamou Mackey para conversar. 

"Ele me levou para fora de sua cabine e fomos para outra cabine no mesmo convés", escreveu o inspetor em um e-mail para seus colegas, obtido pela CBC News sob a Lei de Acesso à Informação.

Navio MV Lyubov Orlova / Crédito: Divulgação/ Youtube

 

"Ele fechou a porta atrás dele e imediatamente me presenteou com uma caneta e o que parecia ser um pedaço de papelão e me pediu para escrever quanto dinheiro eu queria", contou Mackey.

O inspetor relatou que foi direto à polícia para contar que havia sido subornado. Ao ser questionado sobre o caso, o capitão russo disse que não havia suborno e que o inglês dele fora simplesmente mal compreendido. Aquele incidente acabou fazendo com que a última viagem do navio MV Lyubov Orlova fosse anunciada. 

Fim de operação 

A embarcação de mais de 4 mil toneladas, capacidade para 110 passageiros, e 70 tripulantes, passou por uma temporada de cruzeiros de verão do Ártico em 2010 - a última de suas empreitadas. 

Navio MV Lyubov Orlova / Crédito: Divulgação/ Youtube

 

Já se passava dois meses após a inspeção de Mackey. O Lyubov Orlova e sua tripulação foram abandonados pelo proprietário do navio, conforme ações judiciais se acumulavam. A embarcação ficou largada em St. John, no Canadá, por quase três anos. 

À deriva

Em 2013, houve uma tentativa de rebocar o navio e trazê-lo até a República Dominicana, onde seria demolido. Porém, no dia seguinte à saída do cais, a linha de reboque se rompeu. A tripulação da operação de reboque tentou reconectar a linha, mas já era tarde: foi impedida por furiosos ventos salgados de 35 quilômetros por hora e ondas de 3 metros de altura.

O navio passou a vagar solto sem capitão, como um veículo fantasma. No dia 28 de janeiro de 2013, foi detectado que a embarcação estava vagando lentamente no extremo sudeste da península de Avalon, no Canadá. Até que em 1 de fevereiro, a empresa Transport Canada anunciou que conseguiu finalmente ter controle sob a embarcação. 

Porém, logo que o navio aderiu águas internacionais, a Transport Canada decidiu soltá-lo alguns dias depois. "O Lyubov Orlova não representa mais uma ameaça à segurança das instalações de petróleo offshore, de seu pessoal ou do ambiente marinho. O navio derivou para águas internacionais e, devido aos padrões atuais e ventos predominantes, é muito improvável que volte a entrar águas sob jurisdição canadense", afirmou o departamento em comunicado.

Navio MV Lyubov Orlova / Crédito: Divulgação

 

Ratos e especulações

Em 2014, surgiu uma teoria (que mais tarde se comprovou ser falsa) de que havia ratos canibais dentro do Lyubov Orlova: os pobres roedores estariam à deriva. A notícia equivocada explodiu em vários tablóides internacionais.

"Especialistas receiam que o navio-tanque de 40 anos esteja cheio de centenas ou até milhares de ratos canibais infectados, que não têm outra comida além de outros ratos", escreveu na época o Daily Mail.

O boato falso surgiu a partir de uma entrevista ao jornal The Sun, realizada com Pim De Rhoodes, um caçador de salvamentos belga, que disse ao tablóide:  “Haverá muitos ratos e eles se comerão. Se eu subir a bordo, terei que equipar todos os lugares com veneno".

De Rhoodes, no entanto, não tinha informações reais sobre se havia roedores no barco. Sem nenhuma ratazana canibal, eventualmente, acredita-se que o navio tenha afundado em águas internacionais, depois que os sinais de socorro de um rádio farol foram ativados.


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