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Sun Yi, o prisioneiro de um campo de trabalho forçado na China que denunciou sua condição

Quando comprou uma caixa de decorações de Halloween, a norte-americana Julie Keith foi surpreendida por um pedido de socorro

Thomas Pappon, da BBC Publicado em 29/08/2021, às 11h00

Fotografia de Sun Yi ao lado da norte-americana Julie Keith
Fotografia de Sun Yi ao lado da norte-americana Julie Keith - Divulgação/ Flying Cloud Productions

Em 2012, a americana Julie Keith abriu uma caixa com decoração para Halloween. Em meio a lápides de isopor e esqueletos falsos, ela encontrou uma carta escrita à mão, em inglês, por um prisioneiro de um campo de trabalhos forçados na China, denunciando as más condições no local e pedindo socorro. Julieresolveu compartilhá-la na internet.

Pouco depois, a história da carta corria o mundo. Julie só viria a conhecer seu autor anos mais tarde, graças a um cineasta canadense de origem chinesa, Leon Lee, que resolveu fazer um documentário sobre o caso. Com a ajuda de dissidentes e jornalistas chineses, ele chegou a Sun Yi, com quem fizera contato via Skype.

Lee contou ao programa Outlook, da BBC, que Sun Yi era um engenheiro “com bom emprego e uma família” até começar a ter problemas com as autoridades por imprimir e distribuir panfletos da Falun Gong, um movimento que prega exercícios de meditação e que, desde 1999, é proibido na China por ser visto como “culto diabólico”.

Em 2008, pouco antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, Sun Yi foi preso e condenado a dois anos e meio para “reeducação” no campo de trabalho forçado Masanjia, localizado na província chinesa de Liaoning. Yi descreveu sua experiência ali como um “inferno na terra”, onde ele e outros membros da Falun Gong eram torturados e humilhados.

Um dia, ele foi colocado para trabalhar em um depósito onde prisioneiros faziam lápides de isopor e outros produtos “para um festival popular em culturas ocidentais”. Aproveitou a oportunidade da nova função para escrever e esconder 20 cartas em caixas de Halloween. Sun Yi já tinha cumprido sua pena quando soube que uma das cartas havia sido encontrada por uma mulher nos EUA.

Imagem da carta escrita por Sun YI / Crédito: Divulgação/ Flying Cloud Productions

 

Quando veio o telefonema de Leon Lee, o ex-prisioneiro se dispôs a ajudar como pudesse. “Ele fez dois tipos de trabalho”, conta Lee. “Um, foi fazer contatos com outras pessoas que passaram pelo campo. E outro, foi gravar depoimentos sobre seu dia a dia e a difícil realidade de um ativista de direitos humanos na China.”

Foram meses de trocas de mensagens encriptadas, envios de HDs externos para fora da China por terceiros e muita tensão. Após ser detido e solto novamente, Sun Yi fugiu para a Indonésia, onde pediu asilo e onde se encontrou com Julie Keith em março de 2017.

“Foi uma experiência incrível. Devolvi a ele a carta e uma das lápides de Halloween. Foi como se nos conhecêssemos a vida toda”, contou Julie ao Outlook. Poucos meses depois, veio a notícia da súbita partida de Sun Yi.

“A causa oficial da morte foi falência aguda dos rins”, disse Leon. “Ele nunca havia tido problema nos rins”, ressaltou. O documentário de Leon Lee, 'Letter from Masanjia' (ou 'Carta de Masanjia', em português), foi lançado em 2018 — cinco anos depois do fechamento dos campos de trabalho na China.

Para Leon Lee, a carta de Sun Yi esteve no início do fim: “Foi a primeira peça de dominó a cair. Teve toda a repercussão internacional. Já havia, dentro do regime, pessoas a favor do desmantelamento desse sistema. Todos esses fatores se juntaram e os campos finalmente foram abolidos”.


Thomas Pappon é jornalista da BBC News Brasil; Este texto foi adaptado do podcast 'Que história!', disponível no site bbc.com/brasil