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Tatuagens por todo o corpo, muito ouro e sacrifício humano: a múmia da poderosa Senhora de Cao

A descoberta dos restos mortais dessa mulher modificou a noção dos arqueólogos, que acreditavam que apenas homens estavam à frente do poder na cultura moche no Peru

Isabela Barreiros Publicado em 24/05/2020, às 07h00

A múmia da Senhora de Cao
A múmia da Senhora de Cao - Wikimedia Commons

Até hoje, possuímos poucas representações sobre as culturas que se desenvolveram na América do Sul antes dos incas. Essas culturas pré-incaicas, como são chamadas, estiveram presentes no território milhares de anos antes da famosa civilização. Uma delas, por exemplo é a moche, também conhecida como mochica, que se estabeleceu entre 100 a.C. e 800 d.C, anterior à conquista inca da região.

Acredita-se que a cultura não tenha chegado a construir um estado ou um império único. Ainda assim, tornou-se muito poderosa na região, e teve muitos líderes ricos e importantes. O conhecido Senhor de Sipán foi um destes — portando sandálias de prata, vinte quilos de ouro em seu corpo e peitorais com conchas do mar, foi uma das figuras mais representativas da cultura Mochica.

A múmia da Senhora de Cao / Crédito: WIkimedia Commons

 

Durante muito tempo, acreditou-se que a sociedade era estritamente patriarcal. As mulheres não poderiam comandar, e os líderes eram apenas homens. Em 2005, essa afirmação foi colocada à prova, em ruínas de uma pirâmide dentro do sítio arqueológico El Brujo, no norte do Peru.

Há 15 anos, uma equipe de arqueólogos, liderada por Regulo Franco Jordan do Instituto Nacional de Cultura do Peru, encontrou uma múmia que mudou essa concepção. Ela fez com que os pesquisadores tivessem que reestruturar o pensamento sobre estruturas de poder dos moche.

Senhora de Cao

As tatuagens da Senhora de Cao / Crédito: Wikimedia Commons

 

Envolta em panos finos, objetos de ouro e cobre, armas de guerra e uma coroa, a múmia da mulher chocou os arqueólogos. Nunca antes havia sido encontrada uma mulher moche com tanto prestígio, em uma civilização que se acreditava não dar posição de poder para suas cidadãs femininas.

Apenas ao observar o túmulo, já foi possível perceber que se tratava de alguém de grande poder e status social. Após longos estudos e análises, uma conclusão quase certa foi feita: a Senhora de Cao, como ficou conhecida, era uma líder política ou religiosa naquela sociedade, o que indicava sua grandiosidade.

Além da tumba, muito próximo ao local em que ela foi enterrada estava uma adolescente estrangulada. Especialistas do Museu do Sítio Arqueológico de El Brujo acreditam que isso pode ter sido um sacrifício, que, na cultura, era utilizado como mapa para guia-la para a vida após a morte.

Outro aspecto muito peculiar do corpo mumificado veio à tona apenas com um olhar rápido. Seu corpo inteiro, pernas, pés, braços e rosto, estavam cobertos de tatuagens. Serpentes, aranhas, formas geométricas e desenhos abstratos foram algumas das representações encontradas ao longo do tronco da mulher. Eles provavelmente tinham significado religioso, ou eram marcações de seus status na sociedade.

Usando as tecnologias

Reconstrução facial da Senhora de Cao / Crédito; Wikimedia Commons

 

Mais recentemente, a múmia foi sujeita a uma nova série de exames. A autópsia revelou que ela morreu aos seus 20 a 30 anos, provavelmente devido a complicações no parto ou somente por conta da gravidez de risco. Há 1.700 anos, ela evidenciava um enorme poder entre os moche em uma tenra idade.

Para o ministro da Cultura do Peru, Salvador de Solar, "sua relevância é realmente incalculável". A partir de tecnologia de imagem 3D e arqueologia forense, foi possível fabricar uma réplica do rosto da Senhora de Cao: oval e com maçãs faciais elevadas. "Agora podemos mostrar ao mundo o rosto dela, um rosto em que os peruanos se veem", explicou de Solar.

Lembrando os peruanos da riqueza cultural da região e de seus próprios traços, a múmia se tornou uma das mais importantes descobertas arqueológicas da região, mudando completamente o conhecimento de pesquisadores sobre aqueles que viveram no local muito antes deles.


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