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A tecnologia tem dificultado o nosso processo de memorização?

Em entrevista exclusiva ao site AH, o neurocientista Fabiano de Abreu explica a importância de termos uma boa memória e de como melhorá-la

Fabio Previdelli Publicado em 29/12/2020, às 16h16

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Imagem ilustrativa - Pixabay

Pense na seguinte situação: você está pronto para sair de casa rumo a um compromisso muito importante, pessoal ou profissional, tanto faz. Quando você chega ao seu carro, tem uma perturbadora sensação de que está esquecendo algo ou de que não fez alguma coisa que deveria fazer antes de sair, mas não sabe exatamente o que era. 

Com certeza muitos já viveram essa experiência ao menos uma vez na vida. Mas você já parou para pensar o que motiva esses episódios? É realmente normal esquecermos de algo, ou será que existe alguma coisa que possamos fazer para ter uma memória um pouco melhor? 

Antes de tudo, precisamos entender como nosso cérebro funciona. “Nós, seres humanos, temos um cérebro que age como priori pela sobrevivência e recompensa. Armazenamos memórias com base na emoção para que possamos melhor sobreviver e evoluir. Por essa razão, os traumas jamais são esquecidos, no mínimo, eles ficam em nosso inconsciente na região mais primitiva do cérebro”, explica o neurocientista e psicólogo Fabiano de Abreu em entrevista exclusiva ao site Aventuras.  

Fabiano autor do estudoTécnicas para uma melhor memorização: Levando em consideração as nuances da personalidade, explica que o nosso cérebro usa muita energia e, com isso, é normal que ele “economize” essa energia para usar com memórias mais importantes e coisas essenciais.

“Temos duas questões para o nosso cérebro: uma é a busca da recompensa, o outro é a sobrevivência. Ambos os fatores determinam que a emoção seja crucial para o armazenamento de algo que nosso organismo tem como determinado em nosso DNA, a memória”. 

 

“Se não tivéssemos a memória, não saberíamos o que é bom, certo, ruim ou errado, para nossa sobrevivência”, diz o neurocientista. “O processo evolutivo também faz parte de uma melhor sobrevivência. E a ansiedade é a pulsão para suprir essas pendências. Nosso cérebro opta por algo mais útil para poupar energia e a ansiedade é o gatilho de cobrança”. 

Mas como a nossa rotina influencia na capacidade de memorização?

Com a tecnologia tornando nosso cotidiano 'mais fácil’, nosso cérebro acaba ficando mais “preguiçoso” — termo esse usado por Abreu para explicar que, de forma instintiva, nosso cérebro acaba criando um descanso para a memorização.  

Para o psicólogo, diversos hábitos — ou melhor, a falta deles —, contribuem com isso. É o caso da leitura, um dos fatores cruciais no processo de evolução da inteligência a partir do Império Romano.  

“O sedentarismo, os alimentos industrializados, as drogas, hábitos alimentares com alimentos que não favorecem a memorização, a televisão, o vício na dopamina que pede conquistas mais imediatas causando além de disfunções, desperdício do tempo que poderia ser utilizado para aprofundarmos mais nos conteúdos”, também são, para o neurocientista, fatores que ajudam nesse esquecimento repentino. 

Porém, apresar de parecer algo que tem se tornando cada vez mais universal, a dificuldade para memorização se dá, muito mais, em países como uma educação de pior qualidade. Uma das explicações para isso não é somente a falta de recursos ou até mesmo a de tempo, mas sim como as pessoas aproveitam determinada tecnologia.  

No caso da internet, por exemplo, Fabiano diz que pessoas que vivem em países com uma qualidade de educação menor, tendem a usar a internet de maneira “vulgar”, ou seja, consumindo conteúdos que não levam ao conhecimento, diferentes daqueles que as usam para aprofundar seu aprendizado.  

“Países com pior nível educacional e cultural para o conhecimento, tendem a usar mais as mídias sociais, sem informações úteis, com mais imagens e menos texto”, explica. “Uma coisa é usar a internet para uma ampla leitura, reforçando as sinapses em algo que traga conhecimento, que traga algo novo e útil. Outra coisa é ficar entrando na rede social para ver nada, ver coisas que não agregam ou se aborrecer com publicações que o afetam e levam ao estresse”.  

“Quantas vezes já pegou no celular hoje para entrar na rede social e não fazer nada?”, questiona. Fabiano explica que muitas pessoas usam celulares ou computadores só pelo fato de terem que entrar nas redes sociais, mesmo que aquilo não contribua em nada para aquele momento.  

Quanto a isso, ele diz que há uma explicação e faz um alerta: “Cada like e follow recebido é compensado pela dopamina que é viciante e estimula a ansiedade para que possa ter mais recompensas, tornando-se um ciclo vicioso. Isso afeta os neurotransmissores que resultam na falta de atenção, na fadiga e na incapacidade do processo linear de memorização”. 

Porém, apesar de todos esses contras, não devemos demonizar a tecnologia e a internet, e sim saber aproveitá-las da melhor maneira possível. Para isso, Abreu dá algumas dicas de como promover e incentivar a cultura do conhecimento e aprendizagem entre os jovens. 

O primeiro passo, explica, é determinar o que os filhos vão ver na internet e o tempo de consumo. “Crianças precisam ter atividades lúdicas que promovam a psicomotricidade para o desenvolvimento cognitivo. Buscar maneiras e ferramentas para o conhecimento com recompensas que incentivem este estilo de educação”.  

Além do mais, também é necessário ser exemplo para eles. “A cultura também se faz na observação e na cópia, se os pais leem, se os pais têm hábitos que sirvam de exemplo, os filhos tendem a copiá-los. Há técnicas para os filhos com déficit de atenção possam praticar para uma melhor memorização. Estes devem utilizá-las e os pais devem dedicar mais tempo aos filhos”, conclui o neurocientista.


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