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Teologia em plena Segunda Guerra: A trama do pastor Martin Niemöller

Apesar de sua carreira militar, ele foi o primeiro a reconhecer publicamente o próprio antissemitismo nazista

Rodrigo Trespach Publicado em 01/08/2021, às 09h00

Fotografia do pastor Martin Niemöller
Fotografia do pastor Martin Niemöller - Domínio Público/ National Archief/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

Na maioria das vezes, a criação é mais conhecida do que o criador. Não seria diferente com o pastor Martin Niemöller (1892-1984). Ele foi um dos primeiros a falar abertamente sobre a responsabilidade e a culpa dos alemães pelo Holocausto. Também foi pioneiro em reconhecer publicamente o próprio antissemitismo durante o período nazista.

Nem por isso, seu sermão mais popular e mundialmente conhecido, usado como crítica à indiferença ao sofrimento humano, é associado à sua biografia. “Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não disse nada por não ser comunista. Depois vieram buscar os socialistas, e eu não disse nada por não ser socialista", narrou ele.

"Então vieram buscar os sindicalistas, e eu não disse nada por não ser sindicalista. Em seguida vieram buscar os judeus, e eu não disse nada por não ser judeu. Também vieram buscar os católicos, e eu não disse nada por não ser católico. Então vieram me buscar, e não havia ninguém para me defender", finalizou o pastor.

Você já deve ter lido a reflexão acima, mas é pouco provável que conheça a história de vida de seu autor. Filho de um pastor luterano, Niemöller entrou para a Marinha Imperial alemã e foi comandante de submarinos durante a Primeira Guerra Mundial.

Depois do conflito, ele deixou a carreira militar, casou-se e começou os estudos de teologia em Münster — mais tarde, ele escreveria um livro de memórias sobre o caminho percorrido entre um submarino e o púlpito.

Em junho de 1924, Niemöller foi ordenado pastor da Igreja Evangélica Unida. Conservador, anticomunista e crítico da República de Weimar, o pastor — que na época atuava em Berlim — saudou a chegada dos Nazistas ao poder, vendo em Hitler um líder messiânico, o salvador de uma Alemanha decaída.

Ligado a grupos antissemitas, Niemöller entrou para o Partido Nazista. Em 1934, porém, com a crescente intervenção do Estado nos assuntos religiosos e Hitler subordinando a Igreja Protestante aos seus caprichos, o pastor trocou de lado e reuniu pastores e teólogos contrários à proibição dos “não arianos” (os judeus) nas instituições públicas.

Após a Declaração Teológica Barmen, que rejeitava a autoridade de Hitler sobre temas teológicos, ele fundou a Igreja Confessante, de orientação protestante, que agregou 7 mil pastores que acreditavam que cristianismo não era compatível com o nazismo.

Depois que Niemöller dirigiu vários ataques ao governo nacional-socialista, em 1937 Hitler ordenou sua prisão. Julgado por um tribunal nazista, ele foi condenado a sete meses de prisão e o pagamento de uma multa.

Pouco depois de libertado, porém, o pastor voltou a ser preso, sendo colocado sob custódia nos campos de concentração de Sachsenhausen e Dachau. Como prisioneiro especial de Hitler, ele foi levado ao Tirol quando as tropas soviéticas se aproximaram da Alemanha. Lá ele foi libertado pelos Aliados. Nos anos seguintes à Segunda Guerra, Niemöller reorganizou a Igreja Protestante em Hesse, tornou-se conselheiro da Igreja Evangélica na Alemanha e presidente do Conselho Mundial das Igrejas.

Polemista, criticou o rearmamento da então Alemanha Ocidental, a corrida armamentista nuclear e a posição da Igreja na Guerra Fria. Niemöller morreu aos 92 anos, menos conhecido do que o sermão que proferiu.


Rodrigo Trespach é historiador e escritor, autor de 14 livros, ventre eles o clássico "1824", publicado pela editora Leya Brasil.


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