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Terror comandado pelo Estado: o bizarro desaparecimento de 43 estudantes mexicanos

Durante um protesto em 2014, dezenas de jovens da Faculdade de Professores Rurais de Ayotzinapa foram perseguidos como criminosos — e nada adiantou alegar o contrário

Pamela Malva Publicado em 18/04/2020, às 12h00

Muro pichado em manifestação da época
Muro pichado em manifestação da época - Wikimedia Commons

Estudantes do mundo todo já foram às ruas protestar por alguma ideologia. Defendendo seus pensamentos ou reivindicando direitos, diversos graduandos marcaram a história por seus movimentos reacionários.

Essa era a ideia que os alunos do magistério da Faculdade de Professores Rurais de Ayotzinapa tinham quando decidiram protestar em Iguala, no México. Motivados, os quase cem estudantes entraram em diversos ônibus e foram até o centro da cidade.

Logo que chegaram ao seu destino, perceberam que o dia não poderia ser pior para uma manifestação. Mas decidiram continuar com o protesto, que envolvia pedir dinheiro, andar pelas ruas de Iguala e bloquear a avenida principal.

Os planos foram por água abaixo quando María de los Ángeles Pineda Villa, a esposa do prefeito, entrou no caminho dos estudantes. Com apenas uma ordem, ela deu início a um dos episódios de desaparecimento mais obscuros da história do México.

Manifestação após o desaparecimento dos 43 estudantes / Crédito: Wikimedia Commons

 

Rostos cobertos de terror

Naquele dia 26 de setembro de 2014, os estudantes do magistério não eram os únicos aglomerados na praça principal de Iguala. Comandando as finanças do cartel de drogas Guerreros Unidos, María de los Ángeles havia planejado um grande evento.

Ao lado do marido, o então prefeito José Luis Abarca Velázquez, María promovia uma enorme ascensão social na cidade. Ambiciosa, a mulher queria mais e buscava a própria eleição em 2015.

Dessa forma, o evento do dia 26 nada mais seria do que o começo de sua campanha eleitoral. María tinha um discurso perfeito em mente, mas foi interrompida por uma massa de estudantes encapuzados e borbulhantes. Foi a gota d’água.

Com apenas algumas palavras de ordem do prefeito, os jovens protestantes viraram alvo dos Guerreiros Unidos. De repente, a manifestação tornou-se um pesadelo e cada um dos estudantes foi perseguido como verdadeiros pistoleiros.

Muitos foram mortos como se fossem membros de cartéis rivais. Outros foram atacados por policiais convocados pela gangue do prefeito. Vários dos jovens tentaram fugir nos ônibus da faculdade, mas nenhum conseguiu sair da praça. Pelo menos não com vida.

Cartaz com o rosto dos 43 estudantes desaparecidos / Crédito: Wikimedia Commons

 

O sequestro

Em determinado momento da confusão, 43 dos protestantes foram detidos e conduzidos até a sede da polícia em Iguala. No local, o líder dos Guerreiros Unidos foi notificado sobre a procedência dos rebeldes.

Segundo o comunicado, os estudantes faziam parte do grupo criminoso Los Rojos. Quando ouviu o nome de sua principal rival, Sidronio Casarrubias Salgado não teve dúvidas: ordenou que o território fosse defendido.

Em um comboio composto por um caminhão e uma van, os estudantes foram levados até um lixão em Cocula. No trajeto, enquanto muitos eram espancados ou gravemente feridos, outros morreram de asfixia.

Logo que chegaram ao destino macabro, os jovens foram enfileirados e colocados de joelhos. Aterrorizados, dezenas deles juravam não ter nada a ver com o tráfico, alegando serem apenas estudantes de magistério.

Manifestação pedindo por justiça no caso / Crédito: Wikimedia Commons

 

Como a ordem fatal vinha de alguém muito poderoso, de nada adiantou contar a verdade. Logo depois que davam seus depoimentos, os garotos eram baleados na cabeça. No final, nenhum estudante sobreviveu à barbárie quase metódica.

Depois de mortos, os protestantes foram empilhados entre pneus e pedaços de lenha. Seus corpos foram queimados em uma chama que só apagou às 17h daquele mesmo dia. Uma vez carbonizados, os cadáveres foram recolhidos e desmembrados.

Oito grandes sacos de lixo foram usados para descartar os restos mortais dos jovens manifestantes. No caminho de volta para a praça da cidade, os membros dos Guerreiros Unidos de desfizeram das provas no rio San Juan. Todo o horror foi descoberto apenas dias mais tarde, quando os estudantes já eram considerados desaparecidos.

No final, após dias de protestos e longas investigações, diversos membros do cartel foram presos pelo crime. Em 4 de novembro de 2014, o prefeito de Iguala e sua esposa também caíram na custódia da Polícia Federal. Eles tinham fugido para a Cidade do México e, no momento da prisão, estavam entre os mais procurados do país.


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