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Terror em Guernica completa 82 anos

Em 26 de abril de 1937, aviões alemães e italianos miraram em civis numa vila do país Basco. Era a estreia do chamado "bombardeio de terror", uma das maiores marcas da Segunda Guerra

Joseane Pereira Publicado em 26/04/2019, às 13h42

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- Crédito: Domínio Público

Foram 24 aviões, pilotados por homens das aeronáuticas da Alemanha e da Itália. Lentamente, alternando formações, voando a menos de 200 metros de altitude, eles gastariam três horas e 15 minutos sobre Guernica, entre 16h30 e 19h45 de 26 de abril de 1937. Quando eles se foram, mais de 70% da área urbana estava arrasada. Entretanto, as fábricas de armas que existiam na região ficaram intocadas e nenhum canal de acesso estratégico ou edifício governamental, industrial ou militar foi destruído. Na doutrina militar em vigor até então, o bombardeio à cidade de Guernica foi uma ação inútil.

A cidade completamente destruída / Créditos: Wikimedia Commons

 

O ataque massivo visava única e exclusivamente atingir locais frequentados pela população civil -- em grande parte mulheres e crianças, já que os homens estavam fora, disputando a Guerra Civil Espanhola. Era um ensaio: na grande guerra que viria, realizar ataques massivos contra inocentes se tornaria prática corriqueira. Aconteceu em Londres, em Dresden, e, seu ponto culminante, em Hiroshima e Nagasaki. "O bombardeio de terror contra Guernica teve o objetivo de levar as lideranças bascas ao pânico e forçá-las a aderir ao general Franco", afirma o historiador britânico Paul Preston, professor da London School of Economics e autor de The Destruction of Guernica.

Dia de Feira

O ataque foi realizado em um dia estratégico: todas as segundas-feiras, os agricultores da região se reuniam (e até hoje se reúnem) na praça principal para vender seus produtos. Interessados na feira, visitantes dos vilarejos vizinhos eram recebidos na vila, passando horas a escolher o que levar para casa -- nessas ocasiões, circulavam pelas ruas de Guernica mais de 10 mil pessoas. Apesar de não sabermos se a feira realmente aconteceu naquele dia (o governo local vinha restringindo grandes concentrações de pessoas), o fato é que quem escolheu a data conhecia a região e queria alcançar o maior número possível de civis.

E quem escolheu a data do ataque? Por muitos anos essa não foi uma resposta óbvia, pelo menos para os espanhóis. O massacre foi seguido por anos de negativas de seus perpetradores. Em tempos de guerra as informações eram escassas e, quando o conflito acabou, os vencedores omitiram quaisquer informações. "Eles queimaram a cidade inteira e depois culparam os comunistas. Minha irmã dizia: 'Não, os vermelhos não têm aviões', e as pessoas respondiam: 'Sua comunista, vamos cortar seu cabelo'. Não podíamos nem saber quem era o verdadeiro culpado pelo ataque", conta a sobrevivente Josefina Odriozola em uma entrevista à BBC.

A dificuldade em lidar com aqueles tempos confusos era tão grande que ainda hoje não se sabe exatamente quantas pessoas morreram no episódio: as estimativas variam de 150 a 1.650 civis, e a conta mais aceita fica na casa dos 300. "O número exato de vítimas nunca será conhecido, pois as forças de Franco tomaram a cidade logo depois, e não tiveram a menor preocupação em registrar os nomes dos mortos. Só começaram a reerguer a cidade depois de 1939", afirma o professor Preston.

Franco nos ombros de seus soldados em 1937 / Créditos: Reprodução

 

Mas não há a menor dúvida sobre os autores do massacre: o general Francisco Franco deu a ordem e escolheu o local, e seus aliados (a Alemanha e a Itália) cuidaram do resto. Franco liderava a Frente Nacionalista numa guerra contra os republicanos ligados a socialistas e anarquistas que estavam no poder desde 1936, e a guerra civil havia começado quando Franco e seus seguidores entraram em motim contra esse governo  "subversivo". O general venceria em 1939 e se manteria como ditador até morrer, em 1975.

Anel de Fogo

Guernica não estava na linha de frente do conflito, mas era um ponto estratégico. Primeiro por sua localização ao norte da Espanha, nos arredores de Bilbao. Segundo, por ser uma área de tradição na fabricação de armas - as indústrias, não atingidas pelo bombardeio, seriam usadas pelos nacionalistas. Mas, principalmente: a cidade era a alma do País Basco. Abrigava a Gernikako Arbola, a árvore de Gernika (forma como os locais escrevem o nome da cidade): um carvalho que simboliza os desejos de autonomia do povo basco. E a oposição à independência dos bascos, catalães e galegos era um ponto crucial da ideologia nacionalista. Guernica seria rendida ao general Franco dias depois, em 29 de abril de 1937.

A árvore de Gernika / Créditos: Wikimedia Commons

 

Uma das muitas evidências de que o ataque foi planejado como ato político é o fato de que nenhum sobrevoo de reconhecimento foi realizado: os aviões simplesmente surgiram no meio da tarde. Nenhum era espanhol: a ação foi conduzida por dois aviões pertencentes à Legião Condor, da Alemanha nazista, e três modelos da Aviazione Legionaria, da Itália fascista.

O comandante da Operação Rügen (nome oficial do ataque) foi Wolfram von Richthofen, que organizou a movimentação em cinco atos, começando por bombas incendiárias e continuando com explosivos capazes de abalar edifícios inteiros. Com os edifícios abalados e os hidrantes destruídos, o incêndio não pôde ser contido. "A população aterrorizada que tentou deixar a cidade se viu acuada por caças que atiravam com metralhadoras em todas as saídas", afirma a historiadora Helen Graham, autora de "The Spanish Republic at War". "Os alemães depois voltariam a usar essa tática e se referiam a ela como o anel de fogo", expressão criada pelo próprio comandante da operação em Guernica.

Memória Dolorosa

Guernica se recuperou do ataque. A cidade, que na época tinha 5 mil habitantes, hoje tem 16 mil e continua sendo referência para os bascos, e inclusive a grandiosa Gernikako Arbola continua em pé. A cidade mantém um Museu da Paz, que se dedica a debater os efeitos pavorosos dos conflitos militares, mas curiosamente não abriga a obra de arte que a consagrou no imaginário popular e transformou o bombardeio numa agressão impossível de esquecer.

A Guernica de Pablo Picasso nasceu em 1937. Entre 1939 e 1981, foi abrigada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, a partir de onde viajou o mundo inteiro, incluindo o Brasil, na década de 1950. Só voltou para a Espanha depois do estabelecimento da democracia - Picasso havia exigido que a obra só tocasse sua terra natal quando o país deixasse de ser uma ditadura. Desde 1991 permanece no Museu Rainha Sofia, em Madri. Os moradores de Guernica tentam há décadas, sem sucesso, ficar com a guarda do trabalho que eternizou seu sofrimento.

A obra de Picasso / Créditos: Getty Images

 

Se não conta com a obra-prima de Picasso, Guernica sobrevive sobre escombros e cadáveres insepultos. "O governo espanhol nunca procurou pelos corpos soterrados pelos escombros da cidade", afirma a historiadora inglesa Helen Graham. "Guernica se reergueu sobre corpos nunca resgatados."