Matérias » Brasil

Sob a Baía de Guanabara, repousa um tesouro de R$ 1 Bilhão

Conheça o naufrágio do Rainha dos Anjos, que se esconde sob toneladas de lixo e lodo, e guarda uma gigantesca fortuna

Flávia Ribeiro Publicado em 31/05/2019, às 15h00

None
Getty Images

Em uma noite de julho de 1722, um barulho muito alto vindo de uma nau ancorada gritou no ouvido de quem estava ali perto na Baía de Guanabara - entre a ilha das Cobras e o antigo Forte de São Tiago, na atual praça XV, centro do Rio de Janeiro. O capitão do navio preparava-se para um jantar no Mosteiro de São Bento quando um marinheiro esqueceu uma vela acesa nas proximidades do compartimento de estoque de comidas, iniciando um incêndio.

O fogo atingiu os barris de pólvora guardados no porão e a embarcação explodiu. Partida ao meio, afundou, levando consigo um tesouro hoje estimado em 1 bilhão de reais. Por sorte, ninguém morreu. Era o fim de uma história de oito anos e o começo de outra: a busca pelas preciosidades da embarcação Rainha dos Anjos.

 A grande nau, procurada por caçadores de tesouros de todo o mundo, era uma embarcação de guerra portuguesa armada com 56 canhões. "Há uma certidão da Alfândega de Lisboa, de 6 de julho de 1722, em que a Coroa contrata um sujeito chamado Jorge Mainarde para fazer o salvamento do que fosse possível da Rainha dos Anjos", afirma o biólogo e mergulhador Marcello De Ferrari. "Esse contrato vai até 24 de junho de 1724. Ou seja, durante quase dois anos foi feita a exploração dos restos do navio, com os búzios, como também são chamados os mergulhadores, que podem ter tirado grande parte dos tesouros dali."

Tesouro perdido

Os búzios, na época, desciam a 18,20 m de profundidade. Voltavam à superfície várias vezes para retomar o fôlego e mergulhar de novo. Mas, se sobraram objetos na nau, é bem possível que estejam intactos. Inclusive 136 vasos de porcelana e vidro esmaltado da era Kangxi (1661-1722) e, possivelmente, diversas joias e barras de ouro.

Acredita-se que os vasos eram meticulosamente embalados para resistir às mais diversas provações e, por isso, estariam inteiros. "Mesmo que só haja cacos, eles são um tesouro arqueológico imensurável. A exploração na época do naufrágio não tinha os recursos atuais. Certamente ainda há muita coisa lá embaixo", diz Ricardo Joppert, doutor em estudos sobre o Extremo Oriente.

Como seria o Rainha dos Anjos / Crédito: Wikimedia Commons

 

A costa brasileira tem mais de 8 mil navios afundados, muitos com tesouros de valor incalculável. Em cada embarcação que foi a pique, encerra-se uma espécie de cápsula do tempo da época do desastre. As promessas de riqueza da Rainha dos Anjos são das que atraem mais curiosidade e cobiça – potencializadas pelo anúncio, no fim de 2009, do encontro de dois fragmentos de madeira a cerca de 80 m da ílha das Cobras. 

Carregamento diplomático

Quando saiu em sua viagem inaugural, em 1714, a embarcação não estava carregada de ouro e porcelana. Entre 1716 e 1718, a Rainha dos Anjos fez parte da tropa portuguesa que enfrentou a armada turca no cabo de Matapan, ao sul do Peloponeso, e foi comandada pelo infante dom Francisco, irmão do rei dom João V. Dois anos depois, a nau foi escolhida para levar o monsenhor Carlo Ambrogio Mezzabarba a Macau, colônia portuguesa incrustada na China e dominada por Kangxi, terceiro imperador da dinastia Qing (1644-1912), de origem manchu.

As relações entre o imperador e o Vaticano não eram das melhores desde 1705. Na época, o papa Clemente XI enviou à China o religioso italiano Maillard de Tournon com a intenção de espalhar por lá a fé católica. Kangxi, ao saber que a Santa Sé reprovava os rituais religiosos chineses, mandou prender o italiano. Tournon acabou morrendo na China, atrás das grades, em 1710. Mas o papa nomeou Mezzabarba como novo enviado diplomático e missionário e ele conseguiu mudar a situação. Depois de passar quase dois anos por lá e conquistar a confiança do imperador, fez sua viagem de retorno com inúmeros presentes para o sucessor de Clemente, Inocêncio XIII, e para dom João V.

A viagem começou em dezembro de 1721, quando a Rainha dos Anjos saiu de Macau. Depois de parar na Índia, onde embarcou o corpo de um governador português conservado num barril de vinagre, e no Cabo da Boa Esperança, a nau fez sua escala no Rio. De lá, seguiria para a Bahia e para o seu destino final, Lisboa. "A costa brasileira é riquíssima em naufrágios porque era a encruzilhada do mundo. Para ir da Europa ao Oriente, à África ou à Índia, passava-se por aqui", diz o almirante Armando Bittencourt, diretor do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha do Rio de Janeiro, órgão que já contabilizou 48 naufrágios na Baía de Guanabara. A Rainha dos Anjos parou na baía no dia 15 de maio de 1722. Dali, não saiu mais.

Logo após a descoberta dos fragmentos de madeira, houve um burburinho a respeito de investidores ávidos pelas riquezas que podem ser encontradas. E também a reprovação de alguns arqueólogos e estudiosos. "Essa forma de exploração, feita apenas para tirar as coisas do navio, destrói a cápsula do tempo", afirma Bittencourt. "Um barco naufragado é um microcosmos social. Não é uma galinha dos ovos de ouro", diz o arqueólogo marinho Gilson Rambelli, da UFSE. "Imagine o que uma embarcação europeia do século 18, vinda da China, tem a oferecer. Quando se estuda um navio como a Rainha, há indícios desde sobre como era o cotidiano da embarcação até sobre a engenharia naval do período."

Toneladas de lixo

Resgatar a embarcação, porém, requer um altíssimo investimento. O navio está soterrado sob detritos e cerca de 3 m de lodo, o que torna a operação de dragagem complicada e cara. Segundo Galindo, seriam necessários cerca de 200 mil euros para desenterrar parte do navio – e mais de 1 milhão para trazê-lo à tona. Isso se ele estiver realmente naquele ponto. Se não, o dinheiro seria gasto em uma busca infrutífera. 

Baía de Guanabara / Crédito: Reprodução

 

Apesar das restrições legais, moedas, garrafas e outras relíquias resgatadas dessas embarcações já foram comercializadas livremente, inclusive pela internet. A maior parte das peças não tem o devido atestado de liberação da Marinha, que dispõe de poucos navios para patrulhar explorações clandestinas.

O charme da Rainha dos Anjos é que ela veio para o Brasil cheia de riquezas. Além dos vasos antigos, tinha os canhões e cerca de 800 tonéis de azeite. "Um astrolábio daquela época custa cerca de 250 mil reais e a nau devia ter uns oito", afirma José Góes de Araújo, ex-vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

No final de 2016, Denis Albanese, realizador de resgates na costa brasileira, iniciou uma expedição com a agência Media Mundi em busca dos restos do navio. Albanese, que estudou a história da Rainha dos Anjos por mais de 20 anos, utilizou instrumentos sonares de baixa frequência para varrer o possível local em que se encontra os restos da embarcação e, assim, conseguir amostras. No entanto, nenhuma novidade foi anunciada. 

Apesar de registrar naufrágios desde o século 16, a exploração organizada dessas embarcações no Brasil, com a participação de arqueólogos, começou apenas nos anos 1970. Como se vê, a Rainha dos Anjos é só uma pequena amostra dos segredos (e tesouros) submersos na costa brasileira.